Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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MONITOR DA IMPRENSA > A MORTE DE MUHAMMAD

Autenticidade de vídeo ainda em debate

15/02/2005 na edição 316

Desde o início da segunda Intifada palestina, há mais de quatro anos, diversas crianças morreram em meio ao fogo cruzado. Mas é a imagem angustiante de um assustado menino de 12 anos de idade, amparado inutilmente pelo pai, que carrega o poder de ícone de uma bandeira de batalha.

Na França, longe dos conflitos de rua em Gaza, esta cena levanta inúmeros debates. Lá, discute-se se a filmagem televisionada de Muhammad al-Dura é legítima, foi mal interpretada ou – como um acadêmico americano apontou – faz parte de uma encenação ‘Pallywoodiana’.

No centro da polêmica está a emissora de TV estatal France 2 e seu correspondente em Jerusalém, Charles Enderlin, que afirma que as duras críticas sobre as imagens exclusivas da morte do menino (em 30/9/2000), feitas pela emissora, o levaram a receber ameaças de morte.

As imagens, que mostram um confronto nas ruas de uma área afastada de Gaza, foram dissecadas em livros e no extenso universo dos blogs. O vídeo também foi estudado pela Metula News Agency, pequena agência de notícias israelense de língua francesa, que chegou a alugar uma sala de cinema para examinar a filmagem.

Um documentário alemão de 2003, Três balas e uma criança: quem matou o jovem Muhammad al-Dura?, tenta levantar longas questões sobre se o menino teria sido assassinado por israelenses ou palestinos.

‘Do que eles têm medo?’

Na semana passada, o debate ganhou novo fôlego depois que um importante editor francês e um produtor de televisão independente se destacaram da linha seguida pela mídia e escreveram um cauteloso artigo no jornal Le Figaro, expressando dúvidas sobre a autenticidade da cena. ‘Esta imagem teve grande poder’, disse Daniel Leconte, ex-correspondente da France 2. ‘Se ela não significa o que nos foi dito, é preciso descobrir a verdade.’

Leconte escreveu o artigo no Figaro com Denis Jeambar, editor-chefe da revista L’Express, semanas depois que executivos da France 2 permitiram, em outubro, que os dois jornalistas assistissem aos 27 minutos totais da filmagem.

Quando a reportagem foi ao ar pela primeira vez, a emissora ofereceu suas imagens exclusivas gratuitamente para canais de televisão em todo o mundo, alegando que não queria lucrar com elas.

As cenas foram filmadas por um cinegrafista palestino, Talal Abu Rahma. Ele foi o único a capturar imagens do que Enderlin chamou de um assassinato a tiros de uma criança a partir de uma posição israelense. O correspondente, entretanto, não estava presente durante o tiroteio.

Esther Schapira, produtora alemã que trabalha em Frankfurt, afirma que, durante os preparativos para o seu documentário, tentou, em vão, conseguir assistir à fita bruta com as polêmicas imagens. Ela ficou chocada quando a France 2 não quis mostrar a filmagem, já que é comum que emissoras européias compartilhem este tipo de material. ‘Se não há nada a ser escondido’, diz ela sobre a relutância inicial da emissora francesa, ‘do que eles têm medo?’.

Sem clareza

Quando artigos com críticas começaram a aparecer em publicações como a revista americana The Atlantic Monthly, Enderlin escreveu cartas insistindo: ‘Visto que algumas partes da cena eram insuportáveis de serem vistas, a France 2 foi obrigada a cortar alguns segundos das imagens’.

Richard Landes, professor da Universidade de Boston especializado em culturas medievais, estudou as filmagens feitas por outras equipes de TV ocidentais naquele mesmo dia. ‘Nós poderíamos argumentar sobre cada quadro’, afirma ele. Depois de assistir por três vezes às cenas envolvendo Muhammad al-Dura, o professor concluiu que aquelas imagens provavelmente foram forjadas – junto com filmagens, contidas na mesma fita, de conflitos de rua isolados e resgates de ambulância.

‘Eu percebi que os cinegrafistas palestinos, especialmente quando não há ocidentais por perto, começam a dirigir cenas de ação’, diz ele, chamando a filmagem de cinema ‘Pallywoodiano’, em referência às produções de Hollywood.

Enquanto as questões começavam a ser levantadas, alguns executivos da France 2 culparam, discretamente, a comunicação da emissora. Na semana passada, eles mostraram ao International Herald Tribune a fita original do incidente, que também continha cenas separadas de jovens arremessando pedras.

A filmagem de pai e filho sob ataque dura vários minutos, mas não mostra claramente a morte do menino. Há um corte na cena, que executivos da France 2 atribuem aos esforços do cinegrafista para preservar a bateria da câmera, que estaria com carga baixa. Quando Leconte e Jeambar assistiram à filmagem completa, ficaram surpresos de não haver nela a imagem definitiva da morte de Muhammad al-Dura.

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