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Terça-feira, 14 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº999
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ENTRE ASPAS > ITÁLIA

Berlusconi e o reino das ações legais

04/12/2008 na edição 514

O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, é um fenômeno. Além de governar com sólida maioria e supervisionar a emissora estatal RAI, ele ainda é dono – por meio de sua família – das maiores redes de televisão privadas do país. Ainda assim, Berlusconi insiste em não usar este espaço todo para responder a quem o critica em outros veículos de comunicação; prefere levar os desafetos à justiça.


Nos últimos anos, o premiê processou a revista britânica Economist por publicar que ele não era adequado para governar a Itália e o jornalista britânico David Lane pelo livro A Sombra de Berlusconi, que abordava as origens de sua fortuna e indicava que alguns de seus sócios haviam sido investigados por ligação com a máfia. 


Kafka explica


A mais recente vítima das ações é o professor americano Alexander Stille, conhecido italianista e um dos principais críticos de Berlusconi. Stille é processado por difamação pelo presidente do conglomerado de mídia Mediaset, Fedele Confalonieri, amigo e sócio do premiê – o Mediaset é controlado pelo grupo Fininvest, da família de Berlusconi. Esta semana, um tribunal em Milão deveria julgar o caso, mas o juiz decidiu adiar a decisão final para janeiro, a pedido do querelante.


Confalonieri processa Stille por trechos de seu livro O Saque de Roma (tradução livre), sobre a ascensão de Berlusconi. O livro afirma que ele teria sido investigado em 1993 por financiamento ilegal do Partido Socialista, mas não informa que as acusações foram posteriormente retiradas. Vittorio Virga, advogado do empresário, diz que outros jornalistas que ‘ofenderam’ Confalonieri já evitaram processos ao publicar retratações dizendo que agora o consideram ‘um cavalheiro’. ‘Nós trocamos apertos e mão e ‘arrivederci’‘, diz, lembrando que Stille ‘não mostrou nenhuma iniciativa de fazer paz’. Já Stille, que leciona na escola de jornalismo de Colúmbia e é autor de diversos livros sobre a Itália, considera que ser processado simplesmente por publicar fatos é uma ‘experiência Kafkiana’.


Fundo-tribunal


Berlusconi e seus sócios não são, entretanto, a única ameaça a jornalistas. É tão comum que políticos, magistrados e figuras públicas processem jornalistas que a Federação de Imprensa Italiana possui um ‘fundo de solidariedade’ para ajudar nas custas legais. ‘[Os processos] são uma técnica de intimidação da classe política’, define o professor de jornalismo Franco Abruzzo. O que faz os casos abertos pelo premiê ‘especiais’ é a dimensão que eles tomam. ‘O que os torna diferentes é que Berlusconi é o mais poderoso político e o homem mais rico’, afirma David Lane, que é correspondente da Economist em Roma. ‘Ele controla a mídia. Ele está em uma posição de força máxima’.


Stille concorda que o propósito de levar um profissional de imprensa a julgamento não é ganhar dinheiro ou um pedido de desculpas, e sim intimidar outros jornalistas – que, diante da possibilidade de enfrentar um longo e caro processo, pensam duas vezes ao escrever algo desfavorável ao político. ‘Para cada um destes processos, o comportamento de outros cem jornalistas é afetado’, diz.


Nicolò Ghedini, advogado de Berlusconi, afirma que as figuras públicas têm que defender seus nomes no tribunal porque os jornais italianos raramente punem um jornalista irresponsável. ‘Por que os jornalistas deveriam ter o direito de difamar?’, questiona. Fato é que as ações legais começam a fazer efeito. Lane diz que já considera eliminar todas as referências a Berlusconi na versão italiana de seu novo livro sobre a máfia. ‘Estou cansado de gastar todo o meu dinheiro’, conclui. Informações de Rachel Donadio [The New York Times, 2/12/08].

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