Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > MOACYR SCLIAR (1937-2011)

Caráter pessoal na construção do texto

Por Luiz Antonio de Assis Brasil em 01/03/2011 na edição 631

Ele não era um só: ele se multiplicava em vários. Era, ao mesmo tempo, o autor proeminente e laborioso, o modelo do escritor profissional, o incentivador de novos talentos e, ainda, um grande ser humano.

A qualidade estética de sua obra é reconhecida no Brasil e no mundo. Neste ponto, faço valer minhas preferências: leio muitas vezes O Centauro no Jardim e A Majestade do Xingu. São perfeitas, como fabulação e texto. Moacyr sabia tratar de temas relevantes, metafísicos até, com uma simplicidade encantadora. Seu trabalho recupera conduta autoral típica na literatura brasileira do século 19 e parte do 20: a prática simultânea de vários gêneros.

Nossa relação surgiu há cerca de 40 anos. Eu, um escritor iniciante; ele, um autor com uma carreira cheia de promessas. Era o Moacyr como exemplo a ser seguido. Um bom exemplo. Eu o admirava pela qualidade da obra e por sua capacidade de estabelecer-se como escritor, dando o melhor de sua imaginação à sua arte.

No plano pessoal, era admirável seu talento para desdramatizar qualquer situação, por mais tensa que seja. Ademais, cabe ressaltar seu olhar benevolente sobre as obras alheias. Benevolente em excesso, dizem alguns. Talvez – pelo menos no meu caso. O fato é que sempre tinha alguma palavra de incentivo a quem lança um livro. E essa palavra caía como uma bênção em meio à arrogância intelectual de alguns contemporâneos. Pelo estímulo, ele salvou inúmeras carreiras. Moacyr abominava a autorreferência gratuita. Podia usar a primeira pessoa, mas ele agindo como uma espécie de anti-herói, vivendo situações patéticas e humorísticas. Sabia rir dele mesmo.

Há um lado de Moacyr que pouca gente lembra, e não o desmerece: ele era uma das autoridades internacionais em saúde pública. Sua estante possui livros sobre o tema em mesma quantidade dos livros literários. E agia de maneira pedagógica. Quando me via resfriado, logo dizia: ’’Te cuida, que tua gripe é um caso de saúde pública’’.

Seu aspecto humano tem tanta relevância quanto sua obra. Raramente o vi aborrecido. Minto: vi-o aborrecido uma única vez, e foi em Lisboa. Participávamos de um congresso. O Brasil participava de uma copa do mundo. Fomos visitar um amigo comum, brasileiro, que lá vivia, e que estava com a TV ligada na Copa. O Brasil jogava, e perdeu. Nosso amigo ofereceu um jantar, na sequência. O Moacyr ficou no seu canto, amuado, meditativo. Mas no dia seguinte era o mesmo, cheio de vitalidade e alegria. E ideias.

Uma personalidade fascinante, múltipla, porque sábio e porque humano.

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