Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > INTERNACIONAL

Cartum da Folha provoca controvérsia

22/03/2011 na edição 634

Folha de S. Paulo, 17/3

Diogo Bercito

Contra a maré

O cartunista da Folha João Montanaro, 14, achava que a charge dele publicada no último sábado, 12/3, ‘passaria despercebida’.

Mas o desenho de uma onda carregando destroços, veiculada um dia após o tsunami que devastou o norte do Japão, foi o tema mais comentado nas cartas enviadas ao jornal nos dias seguintes.

Alguns leitores apontam desrespeito ao retratar a tragédia, e a discussão chegou à escola em que estuda. Ele foi chamado de ‘babaca’ por colegas. Entre artistas, porém, o desenho foi elogiado.

A ilustração toma como inspiração a xilogravura ‘A Grande Onda de Kanagawa’, de Katsushika Hokusai (1760-1849), realizada entre 1830 e 1833. Nesta versão, ganhou destroços flutuantes, fogo e uma usina nuclear.

A opção de reaproveitar um símbolo da cultura japonesa é um dos aspectos da charge que recebem ao mesmo tempo críticas e loas.

‘Os japoneses prezam muito seus ícones’, explica a pesquisadora Sonia Luyten, autora de ‘Cultura Pop Japonesa’ (ed. Hedra). ‘Além disso, não é hora de tocar nesse assunto, acho inoportuno.’

Já o artista Ziraldo vê a referência por outro enfoque. ‘É uma homenagem à arte japonesa! Eu gostaria de ter tido essa mesma ideia.’

O quadrinista Gabriel Bá, que publica na Ilustrada, também apoia a sacada. ‘O artista tem que dar a cara a bater. Ele foi corajoso.’

 

 

 

Folha de S. Paulo, 17/3

‘Minha intenção não era fazer uma piada’, diz artista

João Montanaro já tinha decidido qual seria o tema da charge de sábado quando acordou na sexta-feira. Então, viu na televisão imagens de prédios se desfazendo em meio ao mar que avançava.

‘Não dava para fazer um desenho sobre política!’, diz.

Ao decidir retratar o tsunami, Montanaro lembrou-se da xilogravura de Katsushika Hokusai. Foi uma das opções que ele enviou à Folha para aprovação e publicação.

‘Fiquei surpreso com as críticas’, diz. ‘Acho que não entenderam a charge.’

Apesar da má recepção, inclusive na escola, o garoto diz estar seguro da escolha. ‘Fiz o certo, minha intenção não era fazer uma piada.’

O ilustrador Adão Iturrusgarai, que publica na Ilustrada, defende Montanaro.

‘É um desenho superimparcial. É inocente como o ilustrador, que é um jovenzinho’, diz. ‘De mau gosto foi a tragédia em si.’ E completa: ‘O humor funciona por conta dessa contraonda, desse mau humor e da burrice dos críticos’.

Para o artista Allan Sieber, que também publica na Ilustrada, Montanaro ‘fez o trabalho dele e a escolha da ilustração valeu a pena’.

BOM SENSO

O pesquisador Gonçalo Junior, autor do livro ‘A Guerra dos Gibis’ (Companhia das Letras), afirma que quem perdeu o bom senso, no caso da charge, foram os leitores que se manifestaram contra.

‘Vivemos na era da chatice e do politicamente correto. É uma reação paranoica, o desenho retrata as mesmas coisas que todos esses vídeos que estão no YouTube.’

Exagerada ou não, a recepção da charge de Montanaro foi semelhante à vista na Malásia nesta semana.

O desenho de Mohamad Zohri Sukimi, publicado no jornal ‘Berita Harian’, mostrava o herói japonês Ultraman fugindo de uma onda . Uma petição on-line rodou o mundo. O jornal se retratou.

‘Apesar de o desenho de Montanaro não ter me incomodado, consigo entender por que alguns leitores se sentiram desconfortáveis’, diz Sidney Gusman, editor-chefe do site Universo HQ.

‘Fico imaginando como eu reagiria se tivesse perdido alguém nesse desastre.’

Outra razão apontada para a má recepção é o desconhecimento do desenho original.

‘Quando vi o rascunho, perguntei a ele se as pessoas não iriam se chocar’, diz Mario Sergio Barbosa, pai de Montanaro. ‘Mas eu não conhecia a referência dele.’

Há também a possibilidade de o leitor não estar acostumado ao gênero da charge.

‘As pessoas ligam a palavra ‘charge’ a coisas alegres, mas a ideia é ser um convite ao pensamento’, diz o quadrinista Mauricio de Sousa.

O jornalista e professor de letras da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Paulo Ramos concorda.

‘Quem está acostumado entende melhor desenhos como o de Montanaro. Outros veem as charges como necessariamente uma piada e, por isso, se incomodam.’

Para Jal, presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil, ‘é nesses momentos de tragédia que temos de fazer críticas’.

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