Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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MONITOR DA IMPRENSA > EUA

Casa Branca se livra de repórter ‘agressivo’

15/02/2005 na edição 316

George W. Bush começou um novo mandato e, por isso, alguns dos grandes veículos de comunicação americanos resolveram renovar suas equipes na Casa Branca, segundo reporta Peter Johnson, do USA Today [7/2/05]. The Wall Street Journal, The Washington Post, Los Angeles Times, AP e Newsweek trocaram os profissionais que fazem a cobertura da presidência. O editor do Post, Leonard Downie Jr, justificou: ‘É importante trazer idéias frescas e novas perspectivas ao trabalho jornalístico de tempos em tempos’.

O chefe do escritório de Washington da Newsweek, Dan Klaidman, acrescenta que, ao fim de um mandato, geralmente os profissionais estão esgotados, pois trabalham muitas horas e têm de fazer viagens constantes. Ao menos, o clima de hostilidade entre a alta cúpula do governo e os repórteres está se dissipando. ‘Parece que eles têm uma sensação de confiança que não tinham antes’, afirma John Roberts, correspondente da CBS na capital americana. ‘Nossos telefonemas são respondidos mais rapidamente e as pessoas parecem mais relaxadas’.

O fator ‘Goyal foil’

Tem gente que não compartilha desse otimismo todo, segundo constatou o Observatório. A matéria do USA Today não diz, mas da redação do Washington Post deixam o Press Corps da Casa Branca Amy Goldstein, Mike Allen e Dana Milbank (entram Peter Baker, Jim Vandehei e Mike Fletcher). Dana Milbank, uma pedra no sapato de Bush, discorda do repórter do USA Today, um jornal sempre de bem com a vida. Setorista na Casa Branca por quatro anos, Milbank irritou a equipe do presidente ao escrever matéria em outubro de 2002, época das eleições de meio de mandato, sobre a natureza ‘maleável’ dos fatos no governo Bush. Foi posto na ‘geladeira’, e sua cabeça, pedida ao Post, sob o argumento de que era ‘tendencioso, agressivo e irreverente’ [ver remissão abaixo].

Pois Milbank virou estrela. Nos últimos meses tem sido chamado a dar entrevistas sobre sua amarga experiência na Casa Branca a estações de rádio e TV, jornais e sites – e vem sendo igualmente massacrado nos blogs conservadores (com a permissão dos ‘combatentes do viés esquerdista dominante na mídia’), que consideram suas matérias ‘simples opinião travestida de reportagem’. Numa entrevista neste mês, contou o que acontece ao repórter que não se sujeita à regra da ‘pergunta única’ nas entrevistas da Casa Branca atual – ou seja, o setorista que ousa insistir na questão, se fica insatisfeito com a resposta obtida. ‘Não importa se você está de bem ou de mal com esse governo – o acesso é impossível do mesmo jeito’.

Uma das melhores histórias que conta é a do fator ‘Goyal foil’ [trata-se de trocadilho; ‘foil’ é papel laminado, isto é, uma proteção]: quando a pergunta era inconveniente ou insistente, um correspondente indiano, o Sr. Goyal, estava sempre a postos para salvar o ex-porta-voz Ari Fleischer da saia justa. Fleischer virava a cabeça para Mr. Goyal e ele invariavelmente tinha uma pergunta na ponta da língua sobre o conflito Índia-Paquistão, em meio aos resmungos dos demais setoristas.

Ode à liberdade

Depois da tal matéria sobre os ‘fatos maleáveis’, Dana Milbank (37 anos, ex-Wall Street Journal, ex-The New Republic) tornou-se o ‘saco de pancadas oficial’ do governo, como se declarou em entrevista a Bob Garfield, da Rádio WNYC, ainda em dezembro. ‘Essa matéria foi um marco’, disse Garfield, ‘porque você foi o primeiro a botar na primeira página de um grande jornal que o governo estava cheio de mentirosos, mentirosos com fogo no rabo [sic].

Garfield comenta: ‘Suas matérias continham apuração, mas com análise, ponto de vista, ironia, aspereza, malícia. Suas colunas políticas do Post eram incisivas, e até abertamente ridicularizavam a Casa Branca. Como você conseguia, ao contrário de muitos setoristas da Casa Branca, reconciliar o repórter Dana com o observador decepcionado de um péssimo espetáculo?’

Dana Milbank: ‘Você está certo ao dizer que às vezes eu era áspero, mal-humorado e até hostil com o governo. Mas o que espero que você não encontre nas colunas é alguma opinião ideológica. Trata-se apenas de uma hostilidade generalizada em relação ao poder, não importa quem esteja no poder. Ter fontes na Casa Branca é uma coisa exageradamente valorizada, e o que você percebe logo nesta Casa Branca em particular – porque toda informação é trancada a sete chaves – é que é muito difícil para eles punir os repórteres que os desagradam e premiar os que os agradam. Você é apenas uma espécie de ode à liberdade, que fica ali para ser visto.

Algumas opiniões de Milbank

** O presidente e o governo fizeram a imprensa setorista parecer bajuladora e até boba. É que esta Casa Branca aprendeu a nos manipular, e tivemos que aprender a cobrir esta Casa Branca de outra maneira.

** Aprendemos que, nas viagens, o presidente vai responder a duas perguntas, e essas duas perguntas serão da AP e da Reuters. Por isso quase não perguntamos, para não sermos usados como propagandistas.

** Parece-me que o problema não está em que não estamos fazendo bem nosso trabalho; trata-se do fato de que o que fazemos, mesmo fazendo bem, não tem mais impacto. Chegamos a um ponto em que o público, dependendo de sua ideologia, vai a lugares diferentes para obter informação: vai à web, à Fox News, diferentes tipos de jornais, pode até ir a um lugar que lhe selecione fatos que reforcem sua visão pré-concebida. Isso não é bom para a grande imprensa, não é bom para a democracia, mas está acontecendo.

** Veja só, estamos falando o tempo todo sobre a ausência das armas de destruição em massa no Iraque, da falta de laços operacionais entre a al-Qaeda e o Iraque. Pois bem, 75% das pessoas que votaram em Bush nesta eleição acreditam que o Iraque estava envolvido no 11 de Setembro ou tinha laços com a al-Qaeda, ou que na época da invasão o Iraque tinhas armas ou programas sofisticados de produção de armas. Assim, não é apenas falha da mídia. Acho que é o declínio da influência do que chamamos de grande mídia.

** Talvez esta experimentação de um século com uma imprensa neutra, não-partisã, termine em fracasso, com o declínio da circulação e da ‘contemplação’. Parece que a alternativa é o que começamos a fazer aqui no Post, ou seja, investir na cobertura de setores como a Casa Branca fugindo do cotidiano, contextualizando e apresentando as notícias de um modo mais acessível e atrativo. (Marinilda Carvalho)

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