Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

IMPRENSA EM QUESTãO > Ferido, mas não morto

A cobertura do julgamento de Lula na imprensa francesa

Por Duilio Fabbri Junior e Fabiano Ormaneze em 30/01/2018 na edição 972

Os jornais franceses cobriram o julgamento de Lula com bastante destaque, dedicando páginas nos impressos, postagens nas versões digitais e minutos nas TVs à apelação em segunda instância. Desde o domingo anterior – quando o Libération publicou uma entrevista com o provocativo título “Esses que me acusam sabem que mentiram” (“Ceux qui m´accusent savent qu´ils ont menti”), fala do ex-presidente à correspondente Chantal Rayes, em São Paulo, – a política brasileira é tema na editoria de internacional, ao lado do Fórum de Davos e de Donald Trump.

Tem-se um exemplo de aparição sobressalente do Brasil entre os europeus, pouco acostumados com notícias das políticas da parte debaixo do Equador. As reportagens da semana chamam a atenção para a lacuna e a incerteza das próximas eleições, sem deixar de apontar os vícios do Judiciário Brasileiro e as manifestações de apoio a Lula. A cobertura mereceu até o editorial do Le Monde, no sábado (27.01), num contundente texto sobre a política brasileira.

Na imprensa francesa – considerando até mesmo o pequeno 20 minutes, jornal de distribuição gratuita, com proposta de leitura num terço de hora – a abordagem foi sempre os efeitos da decisão nas eleições brasileiras. Há poucas menções à (falta de) prova, sobre o que aparecem minimamente citados o tríplex e a palavra “corrupção”.  Por outro lado, o ex-presidente merece títulos que, em outras páginas da História, foram designativos de diferentes personagens. O Le Monde, por exemplo, chama-o, mais de uma vez, de “o pai dos pobres” (“le père des pauvres”), além de destacar dados de sua biografia, como o fato de ser ex-metalúrgico e representante de uma esquerda operária. Destaca ainda o fato de ter sido um dos maiores presidentes brasileiros, aclamado internacionalmente durante seu mandato, principalmente em função dos avanços sociais e de distribuição de renda.

A força de Lula é também reconhecida num metafórico título do Le Figaro, “Lula est touché, mais pas coulé”, que poderia ser traduzido como “Lula está ferido, mas não morto”. O texto aborda as manifestações de apoio ao ex-presidente nas ruas, além do expresso desejo de participar das eleições de outubro. No vídeo que o jornal posta, compondo a reportagem sobre o julgamento, aparecem diversas cenas reforçando o apoio dado por milhares de pessoas ao ex-presidente. Só há vermelho, sem imagens em verde e amarelo.

Os críticos franceses estão preocupados com as questões do Judiciário, principalmente sobre a Lava Jato. Eles sabem que se, por um lado, muitos querem Lula fora na cadeia, outros tantos desejam-no lá. O impasse é mais um dos elementos que compõem as incertezas na visão dos jornais franceses: ser preso ou ser (candidato a) presidente. Tudo nas mãos da Justiça Brasileira.

Assim, a  preocupação é a linha política e, consequentemente, econômica, que o Brasil adotará nos próximos anos. A postura de Lula já é conhecida, enquanto os outros candidatos ainda são incertezas em relação ao cumprimento do que preveem acordos internacionais, além de assuntos como a Amazônia, o pré-sal e o combate à pobreza. Uma eleição sem Lula é dúvida para os outros países que compõem o G20. Afinal, o Brasil ainda é considerado grande aliado econômico na América do Sul. Essa instabilidade ganha uma dimensão histórica, materializada em intertítulo do 20 minutes: “A mais incerta das eleições brasileiras nos últimos 30 anos” (“l´élection la plus incertaine depuis plus de trente ans“). O jornal também mostra um Lula com “milhares de simpatizantes” (“des milliers de sympathisants”), ao lado de “inimigos ferozes” (“ennemies farouches”).

Toda a imagem da política brasileira e a preocupação da imprensa francesa com os rumos da democracia no País encontram, no editorial do Le Monde, de sábado, uma espécie de síntese. O título do texto do principal jornal francês – em tiragem, representatividade política e número de leitores – é “No Brasil, uma democracia em decadência” (“Au Brésil, une démocratie em déliquescense”)

O texto inicia afirmando que a proibição de Lula de deixar o País é “mais uma humilhação ao ex-sindicalista, figura da luta operária na ditadura militar, que foi um dos maiores líderes políticos do País e a estrela das cúpulas internacionais no tempo de seu esplendor” (“une humiliation de plus pour l´ex-syndicaliste, figure de la lutte ouvrière sous la dictature militaire, qui fut l´um des plus grands dirigeants politiques du pays et la star des sommets internationaux au temps de as splendeur”). Em seguida, o editorial não deixa de fazer críticas ao PT, estruturando-se a partir da demonstração de contradições. Diz, por exemplo, que “apesar da comprovada estranheza do processo judicial, não é absurdo imaginar que o ex-metalúrgico e o PT tenham sucumbido à tradição clientelista do sistema político brasileiro” (“en dépit des étrangetés avérées de la procédure judiciaire, il n´est pas absurde d´imaginer que l´ancien métallo et son Parti des travailleurs aient, à l`instar de leurs prédécesseurs, succombé à la tradition clientéliste du système politique brésilien”). Fica uma pergunta: estranheza comprovada por quem? Não parece ter sido pela imprensa brasileira, ao menos.

Para mostrar as contradições do PT, o editorial cita escândalos como o mensalão e a operação Lava-Jato, além de dizer que Lula é também objeto de outros oito processos judiciais. Dilma e Temer também aparecem no texto. Ela, para dizer que, apesar do “controverso” (“controversé”) impeachment ter sido aclamado em nome da ética e da moralidade, a promessa não foi cumprida. Já a citação a ele serve para lembrar que, enquanto participava do Fórum de Davos, o presidente tentava demonstrar normalidade no País e fazer com que se esqueçam as acusações que lhe pesam por corrupção, participação em organização criminal e obstrução à Justiça.

Sobre Temer, Le Monde diz ainda que ele conseguiu suspender processos por meio de negociatas “sem vergonha” (no periódico francês, sem aspas; éhonté é a palavra francesa) com parlamentares. Há citação, ainda, ao fato de que mais da metade dos senadores brasileiros devem responder a acusações criminais e que o fórum privilegiado, no País, é manipulado e usado com “maior cinismo” (“le plus grand cynisme”).

Além dessas palavras fortes, a “desgraça da política brasileira”, para usar outro termo do próprio Le Monde, merece a designação de “digna de filme B” (“dignes d´un film de série B”). Tudo isso para concluir que “a elite de Brasília é banhada por um clima de impunidade” (“L´elite de Brasilia baigne dans un climat d´impunité”). Na sequência, sem se esquecer que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, o editorial diz que a situação reflete “a imagem de uma sociedade de castas onde os líderes não obedecem às mesmas leis que os miseráveis. É indigno e perigoso para a maior democracia da América Latina” (“l´image d´une société des castes où les dirigeants n´obéissent pas aux mêmes lois que les miséreux. C´est indigne et dangereux pour la plus grande démocratie d`Amérique latine“).

Se não é possível falar de imprensa imparcial, a forma como Lula e a política brasileira são tratados nos jornais franceses é bem distinta dos veículos nacionais. Mesmo com a condenação, os textos tratam-no ainda como “acusado” e há dezenas de menções sobre as controvérsias no julgamento. Talvez, se fossem veículos brasileiros, os jornais franceses receberiam acusações de “petistas”, “petralas” ou “mortadelas”. Mas o que está em jogo não é um jornalismo que se posiciona – pelo menos explicitamente – de um lado ou de outro na insana polarização nacional. Os jornalistas e os jornais franceses parecem estar mais preocupados com uma abordagem que tenta prever cenários a partir de argumentações coerentes e fatos, apresentando contradições, (in)certezas e (in)justiças. Aliás, não seria esse o papel do jornalismo em tempos de tantos concorrentes (pseudo)informativos?

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Duilio Fabbri Junior é jornalista e professor universitário. Doutorando na UFSCar, membro do grupo de pesquisa Labor-UFSCar, em estágio de pesquisa na Université de Toulose – Rivail II. E-mail: juniorduilio@uol.com.br.

Fabiano Ormaneze é jornalista e professor universitário. Doutorando na Unicamp, membro do grupo de pesquisa  Pohemas-Unicamp, em estágio de pesquisa na Université Sorbonne Nouvelle – Paris III. E-mail: ormaneze@yahoo.com.br.

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