Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > JOSÉ MINDLIN (1914-2010)

Com um pé na Redação

Por Lúcio Flávio Pinto em 30/03/2010 na edição 583

Por que certas pessoas se apegam tanto às redações, locais de trabalho tensos, nervosos, desgastantes e inseguros? Ao responder à pergunta, Janio de Freitas, um dos mais antigos e importantes jornalistas ainda em atividade no Brasil, observa com toda razão: ‘Poucos tiveram a lucidez de sair ou a sorte de ficar’.

José Mindlin foi beneficiado pelas duas situações: teve a sorte de entrar – na hora certa e no local apropriado – na redação de O Estado de S.Paulo. Mas se não tivesse tido a lucidez de sair provavelmente não chegaria aos 95 anos de idade e não ganharia muito dinheiro. Em compensação, com a experiência única que a redação jornalística proporciona, sua visão de mundo se tornou mais ampla e sua riqueza teve uma aplicação mais fecunda do que a de um empresário convencional.

Raros conseguem enriquecer com o jornalismo e praticamente nenhum com o jornalismo rigoroso, refratário à picaretagem. O exercício do jornalismo exaure de tal modo que a maioria tem vida curta ou não consegue o prolongamento possível em outras profissões. Mas nenhuma delas oferece a riqueza de relações e conhecimentos ao alcance do jornalista, se ele decide ir para a linha de frente da história e acompanha com intensidade o cotidiano.

Nos necrológicos de Mindlin, que morreu em São Paulo em 28 de fevereiro, esse início da sua formação foi esquecido ou negligenciado. No entanto, sua biografia é um atestado de que as raízes da sua posição de mecenas, de empresário lúcido, de cidadão ativo e de intelectual nasceram durante sua curta e decisiva experiência como jornalista.

Homem de seu tempo

Foi essa argúcia, essa capacidade de lidar com o diverso e o diferente, que lhe permitiram comandar a Metal Leve em períodos difíceis durante o regime militar e cultivar uma posição de independência – e até de audácia – num momento em que muitos, e quase todos os empresários, se escondiam ou se omitiam.

Quem o conheceu e pôde também conhecer sua preciosa biblioteca, vendo a unidade, equilíbrio e coerência que havia na relação daquele homem com o mundo da cultura, da economia, do governo e das pessoas, não podia deixar de considerar que ter chegado à atividade produtiva pela redação e ter saído dela em tempo garantiram uma singularidade que transcendeu, em Mindlin, suas faces de empresário, bibliófilo e cidadão. Foi um verdadeiro personagem da história do seu tempo.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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