Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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MONITOR DA IMPRENSA > IRAQUE

Como mostrar o horror?

Por Beatriz Singer (com Dennis Barbosa e Leticia Nunes em 06/04/2004 na edição 271

As imagens do assassinato de quatro seguranças particulares americanos pela população da cidade iraquiana de Fallujah viraram um dilema para a imprensa dos EUA. Elas lembravam sobremaneira o vídeo do corpo de um soldado americano sendo arrastado pela multidão nas ruas de Mogadíscio, na Somália, em 1993. Na época, a exibição dessas cenas causou tanto impacto na opinião pública que os EUA acabaram se retirando do país africano.

Desta vez, CNN, Fox News e NBC News decidiram inicialmente não mostrar as imagens mais violentas. Como mostra The Wall Street Journal [1o/4/04], ficou claro que muitos executivos de televisão ainda se consideram guardiões do bom gosto. ‘Não somos apenas intermediários. Temos padrões e crenças. É um conceito antiquado, mas o levo muito a sério’, afirma Mark Effron vice-presidente de jornalismo da MSNBC. ‘A CNN fez tanta restrição que acabou não cobrindo a história’, opina Jim Murphy, editor-executivo do telejornal CBS Evening News. A CBS, bem como a ABC, achou conveniente mostrar alguns trechos mais sangrentos. As redes julgaram que era necessário, para mostrar o grau de agressividade do que havia ocorrido. Foram usados efeitos de computador para borrar algumas partes e os âncoras avisaram antes que o espectador poderia se incomodar com o que estaria para ver. A CNN acabou mudando de posição ao longo do dia, exibindo cenas mais duras à noite.

Nos outros meios, a brutalidade ficou mais em evidência. The New York Times [1o/4/04], por exemplo, escolheu para sua primeira página uma foto com iraquianos comemorando com os corpos pendurados numa ponte ao fundo. ‘Por um lado, não se pode fugir da notícia. Por outro, é preciso ter consciência da dor que essas fotos causariam às famílias e a potencial repulsa de leitores e crianças que estão expostas a isto em suas mesas de café da manhã’. Na internet, que permite que o leitor veja cenas brutais só se realmente desejar, a violência foi para o ar sem muita censura. Rapidamente, os grandes portais colocaram fotos da multidão iraquiana e dos cadáveres em suas páginas iniciais. Um vídeo da AP, com alguns closes cortados, foi muito usado pelos sítios.

No próprio Iraque, segundo reportagem de Christine Hauser [The New York Times, 2/4/04], o incidente não mereceu destaque por parte da imprensa escrita. Os quatro maiores jornais do país deram capa para outros assuntos, como o local onde Saddam Hussein será julgado, a importância da realização de eleições no país, ou como acertar o relógio para o horário de verão. ‘Eu condeno o ataque. Ele corrompe a imagem do Islã. Mas, dito isto, nosso jornal tenta se concentrar em assuntos que afetem diretamente nossos leitores. E conflito com os americanos acontece todo os dias’, explica Selim Rasool, editor da publicação al-Bayan, vinculada a um grupo xiita.

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