Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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MONITOR DA IMPRENSA > ACUSADO DE ESPIONAGEM

Correspondente do ‘NYT’ é expulso do Afeganistão

21/08/2014 na edição 812

Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Rod Nordlandaug [“Calling Article ‘Divisive,’ Afghanistan Orders Expulsion of Times Correspondent”, The New York Times, 20/8/14] e Rod Nordland e Rick Gladstone [“Afghanistan Defends Expulsion of New York Times Reporter”, The New York Times, 21/8/14]

A Procuradoria-Geral do Afeganistão ordenou, na quarta-feira [20/8], a expulsão do jornalista americano Matthew Rosenberg, correspondente do New York Times, proibindo-o de retornar ao país. Trata-se da primeira expulsão pública de um jornalista ocidental desde o fim do regime talibã. A ordem foi emitida menos de um dia depois de o gabinete do procurador-geral, Mohammad Ishaq Aloko, proibir Rosenberg de deixar o Afeganistão enquanto estivesse sob investigação.

Ambas as ordens estão diretamente ligadas a um artigo, assinado pelo correspondente e publicado na terça-feira [19/8] no Times, que relatava o debate sobre um “governo interino como uma possível solução para a atual crise eleitoral do país”, ou seja, o equivalente a um golpe de Estado.

Aimal Faizi, porta-voz do presidente Hamid Karzai, afirmou que a decisão de expulsar o jornalista veio do mais alto escalão do governo, o qual incluiu não apenas o presidente, mas também os dois vice-presidentes e vários ministros.

Crise eleitoral

O Afeganistão passa por um momento delicado após a realização das eleições presidenciais em abril de 2014, a fim de escolher o sucessor de Karzai. Os dois principais candidatos eram Abdullah Abdullah (ex-ministro das Relações Exteriores) e Ashraf Ghani Ahmadzai (ex-ministro das Finanças). Embora Abdullah tivesse recebido a maioria dos votos no primeiro turno, resultados preliminares indicavam a vitória de Ahmadzai no segundo turno. A situação gerou alegações de fraude de ambos os lados e desencadeou uma crise no país. As investigações sobre o caso ainda estão vigentes e a conclusão das eleições continua em aberto.

A reportagem de Rosenberg sugeria que a situação seria resolvida com a tomada do poder pelas forças de segurança locais, numa tentativa de resolver o impasse.

“Declarações fabricadas”

O gabinete de Aloko divulgou um comunicado afirmando que o artigo do Times é considerado “divisionista e contrário ao interesse nacional, à segurança e à estabilidade do Afeganistão”. O documento sugeria que Rosenberg teria falsificado as declarações em sua reportagem ao atribuí-las a funcionários do alto escalão do governo.

Embora o documento não especificasse quais leis foram burladas pelo jornalista, o procurador-geral disse que a decisão foi tomada porque o Rosenberg “não cooperou durante os interrogatórios”. O correspondente foi convocado pelo gabinete do procurador-geral para o que seria “uma conversa informal”, porém se recusou a assinar qualquer documento ou a fornecer qualquer declaração sem que houvesse a presença de um advogado.

Inicialmente, Rosenberg foi impedido de deixar o país. Ao ser convocado para novo interrogatório, no entanto, o jornalista apresentou uma carta de seu advogado solicitando novo prazo para prestar esclarecimentos. Isto pode ter motivado a expulsão.

Retrocesso da liberdade de imprensa

Dean Baquet, editor-executivo do Times, criticou a ação do governo afegão e elogiou o trabalho de Rosenberg, reiterando que o repórter se mostrou disposto a dialogar com o governo, mas que obviamente não iria revelar suas fontes. (O Times possui um controle interno sobre o uso de fontes anônimas e diz crer em sua legitimidade antes da publicação de qualquer reportagem).

Rosenberg alega que as acusações são infundadas e que sua reportagem foi baseada tanto em declarações explícitas quanto em declarações em off de suas fontes, e que não tem qualquer interesse em causar discórdia. “Não tenho nenhum interesse nesta eleição, estou apenas relatando o que acontece em um país onde fiz cobertura jornalística durante muito tempo”, declarou.

Em Washington, Caitlin Hayden, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, afirmou que a expulsão de Rosenberg foi um “um retrocesso significativo para a liberdade de imprensa no Afeganistão e deve ser revertida imediatamente”.

O Centro de Mídia e Informação do Governo, órgão controlado pelo gabinete da presidência afegã, emitiu uma declaração afirmando que considerava a reportagem de Rosenberg “mais um ato de espionagem do que um trabalho jornalístico, com o objetivo de criar pânico e ruptura, e fornecer a base para outros propósitos de espionagem”.

Antes de deixar o Afeganistão, na quinta-feira [21/8], Rosenberg postou um tuíte que dizia: “No aeroporto, com a ordem de expulsão na mão. Aqui diz que sou um espião com ‘relações secretas’ e que devo abandonar o Afeganistão em 24 horas”.

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