Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > Dilemas do jornalismo

A crise na comunicação em massa

Por Roy Greenslade em 06/06/2016 na edição 906
Reproduzido do Guardian, 31/05/2016; tradução de Jô Amado

Ninguém pode responder à questão crucial, nem mesmo Jeff Jarvis [jornalista, professor e ex-crítico de televisão norte-americano]: como iremos financiar jornalistas num mundo dominado pelo Google e pelo Facebook? Em seu ensaio Death to the Mass, Jeff Jarvis desenvolve um argumento que vem abordando há anos. Tratando o público como uma “massa” e dando-lhe “um produto num único sentido e de tamanho flexível” deixou de ser conveniente.

Concordo inteiramente com ele quanto a isso. Esse é um dos motivos pelos quais os jornais nacionais impressos na Grã-Bretanha, a encarnação do marketing de massa, são considerados cada vez mais irrelevantes pelos leitores (e pelas pessoas que procuram alcançá-los: os anunciantes).

Jeff Jarvis diz o seguinte: “Aquilo que morreu foi o modelo de negócios dos meios de comunicação de massa – ferindo, talvez de maneira mortal, uma porção de instituições que ele apoiava por simbiose: a publicação, a transmissão, o marketing de massa, a produção em massa, os partidos políticos e possivelmente até a noção que temos de nação. Finalmente, estamos chegando ao fim da Era Gutenberg.”

Por seu lado, o Facebook faz a conexão de pessoas com pessoas e o Google dá às pessoas a opção de irem diretamente onde querem ir, e não o que os editores dos jornais (também conhecidos como guardiões de informação) dizem que elas devem querer.

O valor, diz Jeff Jarvis, é muito melhor que o volume. Também concordo com isso. Ele fala de dinheiro, não é verdade? Não preciso repetir todo o seu argumento básico (veja aqui, se quiser) porque é bom e eu o venho compartilhando há muito tempo.

Ideias sonhadoras, mas nenhuma delas prática

Mas onde eu me separo da alegre e feliz aclamação que Jeff Jarvis faz desse admirável mundo novo da pós-desagregação da mídia digital é no que ela prenuncia para o nosso mundo. Ele está convencido que o jornalismo de qualidade irá prosperar a partir de “uma estratégia de relacionamento” construída em torno de comunidades e interesses compartilhados. A permitir que seja esse o caso, o problema fundamental ainda é sobre a receita, sobre como financiamos o jornalismo se não há um volume considerável do pagamento desse jornalismo.

É claro que Jeff Jarvis coloca essa questão. E a maneira como responde, para ser sincero, está longe de ser convincente. “A indústria vem explorando vários fluxos de uma nova receita.” Em outras palavras, afora a exploração nada deu certo até agora.

Essa questão fundamental não pode ser omitida. O financiamento do jornalismo, do verdadeiro jornalismo, do jornalismo que custa dinheiro para produzir – um jornalismo de recursos, de matérias longas e investigativas, de testemunhas oculares, de reportagens independentes feitas em zonas de conflito – é crucial para o futuro de uma sociedade democrática.

Sem dinheiro, por mais forte que seja o argumento a favor de uma nova forma de distribuição jornalística, por melhores que sejam as intenções dos jornalistas, o desempenho do jornalismo está em perigo. Existem inúmeras ideias sonhadoras sobre como podemos voltar a atrair anunciantes, mas nenhuma delas parece remotamente prática. Nós queremos ser bem-sucedidos, Jeff, mas não estamos preparados para isso. Todo o seu entusiasmo e otimismo não irá resolver o problema.

Como salvar o jornalismo de interesse público?

É evidente que, já que atualmente o Google e o Facebook são os maiores distribuidores de conteúdo jornalístico, nós, jornalistas – que fornecemos o material com que eles lucram –, precisamos conseguir acomodar-nos com eles. Eles são os nossos jornais substitutos, nossos anfitriões, nossos novos magnatas da mídia.

Nós estamos no negócio de criar conteúdo. Eles estão no negócio da distribuição. Eles precisam do nosso “produto” e nós precisamos de um pouco do lucro deles para nos financiar. Ao contrário de nossos atuais publishers da “grande mídia”, eles sabem mais sobre seus usuários do que nós jamais soubemos sobre nossos leitores. E isso é uma grande ajuda para nós. Eles também incentivam relacionamentos, outra coisa que nos ajuda a chegar às pessoas certas com o material certo.

A colaboração faz sentido, mas alguém reconhece a urgência de chegar a um acordo?

Vejo jornalistas sumindo diante de meus olhos. E vejo o jornalismo transformando-se em releases pré-empacotados diariamente. E é isso que mais me assusta em relação ao futuro: como será a democracia servida se o jornalismo se limita a divulgar um conteúdo pré-empacotado de marketing feito por meio de pessoas que não saem da frente de suas telas de computador?

Há ainda a possibilidade do jornalismo se tornar uma atividade de um segmento. E como teremos um “diálogo nacional” e, ainda com maior pertinência, caso venha a haver esse diálogo, quem organizará sua pauta?

Sei que o futuro se baseia na internet. Sabia disso anos atrás, quando não era lucrativo nem popular dizê-lo. Compartilho de boa parte das opiniões de Jeff Jarvis e de sua aversão pelo jornalismo no velho estilo, de cima para baixo, num mercado não segmentado. Mas como poderemos salvar o jornalismo de interesse público e os jornalistas que o fornecem a menos que consigamos um modelo de negócio para financiá-lo?

***

Roy Greenslade é professor de Jornalismo e tem um blog no Guardian

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