Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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EDIçãO ESPECIAL: DOSSIê MURDOCH >

É preciso acabar com os tabloides

Por Carlos Castilho em 23/07/2011 na edição 651

Não foram poucos os que lançaram este grito, no auge do escândalo que acabou levando ao fechamento do jornal sensacionalista inglês News of the World. Mas o problema é bem mais complicado do que uma medida como esta. 

Os delitos cometidos pelo News of the World, de propriedade do milionário Rupert Mudorch, só foram possíveis porque resultaram de uma sequência de pequenos desvios éticos impunes que acabaram criando um grande escândalo. Desde que a imprensa existe, as publicações sensacionalistas sobrevivem às custas da comercialização de escândalos e voyeurismo.

A prática de pequenos delitos na zona cinzenta da ética jornalística é corriqueira nas redações, não apenas dos tabloides. A coisa só aparece quando gera uma crise mais grave e aí sobram arrependimentos, punições exemplares e promessas grandiloquentes de bom comportamento futuro.

Limites éticos

Mas a origem do problema está na rotina do dia a dia da cobertura jornalística. Nos chamados grandes jornais, o fenômeno se dissolve no meio da amplitude do cardápio noticioso, mas nos tabloides, cuja sobrevivência depende de leitores que não têm tempo e nem cabeça para leituras mais densas, os limites da ética são atropelados com muito mais frequência, sem que ninguém se dê conta. 

Depois do escândalo News of the World não foram poucos os comentarias que levantaram a tese de que os tabloides deveriam ser limitados ou regulamentados para preservar a ética e a privacidade. É o tipo da solução que acalma os moralistas, como pretendeu Rupert Murdoch ao fechar o jornal criado há mais de 100 anos, mas que está anos luz de resolver o problema. É a típica jogada para a plateia. 

O buraco é bem mais embaixo, como se diz por aí. A questão não é apenas ética e moral. Ela é também econômica e comportamental, e sem envolver estes dois aspetos, qualquer opção é mera perfumaria. A primeira coisa que precisa ser discutida é por que as pessoas compram tabloides. A resposta dos marqueteiros é surrada: o público gosta de escândalo, de crime, de voyeurismo, etc etc. Esta é a receita clássica do pequeno delito que acaba gerando um grande crime.

Curiosidade

As pessoas não compram tabloides porque são psicologicamente doentias. Um dos fatores é a curiosidade natural gerada pelo fato das pessoas, especialmente as de baixa renda excluídas dos ambientes sociais frequentados pelas classes A e B, desejarem saber como é a vida das celebridades apontadas pela mídia como modelos de sucesso.

Até ai nada de anormal. O problema é que as celebridades sentem-se incomodadas pelo assédio do povão e tomam medidas de proteção pessoal. Isto é claro, aguça a curiosidade e oferece o prato feito para os tabloides explorarem o voyeurismo e fuçarem a vida privada dos notáveis em busca de noticias. Este processo é dissimulado por um discurso das personalidades e da mídia, sobre direito à privacidade e direito à informação que acaba por embaralhar a questão. 

Mas o problema é relativamente simples desde que as partes envolvidas olhem a realidade como ela é e não como gostariam que fosse. A imprensa deve redimensionar a cobertura das personalidades para reduzir o estímulo ao voyeurismo e com isto baixar a curiosidade. A imprensa não é a única culpada por escândalos como os do News of the World, que realizou escutas ilegais e invadiu caixas de correio eletrônico, ignorando a lei, embora sob as vistas complacentes da Scotland Yard, a polícia britânica. 

Mas a imprensa é parte do início e do final deste processo de exacerbação e comercialização da curiosidade pública. Os tabloides, revistas sensacionalistas e programas de TV sobre ricos e famosos precisam saber que no final das contas eles também acabam pagando muito caro por um processo que eles impulsionaram. É isto que as redações precisam tomar consciência.

É claro que os jornalistas estão sob pressão dos interesses financeiros da indústria dos jornais e a defesa de empregos gera subordinação a estratégias editoriais condenáveis sob o ponto de vista ético e moral. Mas, quando estoura um escândalo como o do News of the World, quem foi para a cadeia foi a redatora chefe Rebekah Brooks, enquanto Murdoch posava de bom moço pedindo desculpas, depois de recorrer à esfarrapada justificativa do “eu não sabia de nada”.

***

[Carlos Castilho é jornalista] 

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