Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MEMóRIA > MILLÔR FERNANDES (1923-2012)

A morte e a morte de Millôr

Por José Castello em 03/04/2012 na edição 688
Reproduzido do Valor Econômico, 29/3/2012; intertítulos do OI

A morte de Millôr Fernandes, na noite de terça-feira (27/03), no Rio, põe em dúvida a própria noção de morte. Millôr, que tinha 88 anos, foi, sem dúvida, um homem de seu tempo, que viveu aferrado ao presente e à força, nem sempre doce, das circunstâncias.

Nos anos 1930, não tinha nem 10 anos de idade quando fez sua estreia como desenhista, publicando uma charge no O Jornal, do Rio. Em 1965, já em plena ditadura militar, e desafiando os valores dominantes, escreveu com Flávio Rangel a célebre peça Liberdade, Liberdade, que incomodou e desafiou os adeptos do regime. Em 1985, pela editora L&PM, de Porto Alegre, começou a publicar o Diário da Nova República, que lhe rendeu três volumes, o último de 1988. Em 1992, em parceria com Luis Fernando Verissimo e Jô Soares, dialogando com um mal-estar nacional, publicou Humor nos Tempos do Collor. Oito anos depois, em pleno ano 2000, e acompanhando os avanços tecnológicos acelerados, lançou o site Millôr On-Line. O tempo nunca o constrangeu ou intimidou. Ao contrário, foi seu aliado.

Desafiou ditadores, assim como presidentes legitimamente eleitos, com suas críticas duras, embora temperadas por um humor inteligente. Fez do humor não só um instrumento de riso, mas de crítica de seu tempo e, mais ainda, de exercício do bem pensar.

Não gostava de dar entrevistas

Sempre que necessário, porém, Millôr soube ignorar o tempo e suas férreas leis. Por muitos anos, dando um salto para trás rumo ao século 16, dedicou-se à tradução das obras de William Shakespeare. Não se deixou regular pela noção de época: traduziu desde o teatro engajado do alemão Bertolt Brecht, do século 20, às comédias francesas de Molière, do século 17, retornando ao século 20 para reencontrar-se com o teatro do nova-iorquino Tennessee Williams. Saltou mais para trás ainda, de volta ao século 5 a.C., para traduzir as peças de Sófocles. Foi o tradutor, ao todo, de 74 peças de teatro. O teatro foi sua máquina do tempo.

Como jornalista, que militou, entre outros, em A Cigarra, O Cruzeiro, O Pasquim e o Jornal do Brasil, aprendeu, provavelmente, que o tempo, mais que uma coerção, é uma condição da liberdade. Podemos pensar, então, se sua morte, agora, não se encadeia nessa série interminável de libertações. Podemos nos perguntar, até, se ela não é uma invenção de Millôr Fernandes – mais uma.

Durante muito tempo – apontando sua paixão pelos grandes pintores – adotou o pseudônimo de Vão Gôgo, que só abandonaria, em definitivo, em 1962. Não se tratava de um esconderijo, ao contrário, a máscara do nome era um sinal de seu apreço desmedido pela liberdade. Sob pseudônimo, podia ser qualquer um – e, nesse aspecto, podemos pensar que Millôr foi, também, uma espécie discreta de ator. Um homem que fez do mundo seu palco e nunca se esquivou, mesmo em tempos difíceis, quando o chamaram para subir à cena.

Elevou o humor à categoria de arte refinada quando, em 1957, ganhou uma exposição individual no Museu de Arte Moderna do Rio. Embaralhou valores, distorceu preconceitos, perfurou certezas, nunca permitindo que sua arte fosse enjaulada em um clichê. Talvez por isso, por temer a força das manchetes, mesmo se orgulhando da profissão de jornalista, não gostava de dar entrevistas.

Valores universais

Ao explodir a ideia de tempo, a obra de Millôr danifica, também, a noção de morte. Afinal, em que século viveu Millôr Fernandes? A que século ele, de fato, pertenceu? Onde sua obra, de fato, se inicia e onde ela se conclui?

Conta-se que foi um dos inventores do frescobol, um esporte típico das praias brasileiras e dos temperamentos livres, no qual – noção que muito apreciava – não existem vencidos ou vencedores. Esteve nas origens da televisão ao apresentar, na TV Excelsior, o quadro “Lições de um Ignorante” – que foi censurado em plenos anos dourados e livres da era JK. Quando a censura política prendeu os principais articulistas do semanário O Pasquim, censurou-a, desdobrando-a como ghost writer dos companheiros detidos. Teve, assim, uma visão premonitória da “morte do autor”, que hoje parece consumada nos sites da internet.

Millôr, homem de seu tempo, mas também homem além do tempo. Escreveu poesia, flertou com as artes visuais, incomodou com suas ideias políticas, disse sempre o que pensou. Tudo isso em nome de valores universais, que o antecederam no tempo seco dos relógios, mas não no trânsito ilógico das paixões.

Foi um homem que se entregou à vida com a voracidade dos que cultivam a consciência da morte. Morreu não para desaparecer, mas para se afirmar como um artista vivo.

***

[José Castello, do Valor Econômico]

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