Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

MEMóRIA > MILLÔR FERNANDES (1923-2012)

O dia da “quase” entrevista com Millôr

Por Rodrigo Burgarelli em 03/04/2012 na edição 688
Reproduzido do Estadao.com, 28/3/2012; intertítulos do OI

Entrevistei Millôr Fernandes em 1 de dezembro de 2010. Quer dizer, quase. Ao chegar na sua cobertura em Ipanema para uma conversa marcada há semanas para a TV Estadão, ele desconversou. Rindo e brincando como se me conhecesse há anos, disse que tinha mudado de ideia, que não daria mais entrevista, muito menos em frente de câmera. “Você pode ficar aqui e me perguntar o que quiser. Mas sem gravar nem anotar nada.” Foi o que fiz. Transcrevi as seguintes linhas, até agora inéditas, logo após deixar o prédio. “Agora volte lá para o seu jornal e escreva sobre o dia em que quase entrevistou o Millôr”, despediu-se, gargalhando. Pronto, aí está.

O Brasil está melhorando?

Millôr Fernandes– Melhorou sim. Melhorou muito. Tanto que o Lula sempre vem dizer que a classe média aumentou 20%, que a economia cresceu não sei quanto. O problema é que sempre se avalia isso com base numa coisa que ninguém questiona, que é a sociedade de consumo.

“Naquela época, ninguém era santo”

Isso é ruim?

M.F. – Não quero dizer que isso é ruim ou bom, mas foi uma coisa que aconteceu. Aumentar o consumo não é prejudicial quando se fala de comida, de uma pessoa que hoje pode comprar mais carne, mais presunto no supermercado. Mas o problema é quando um menino de três anos de idade pede aumento de mesada para comprar um tênis, para comprar um celular.

Quais foram as piores coisas da história brasileira recente?

M.F. – A primeira foi o Sarney. Esse cara é um idiota. Até agora não entendo como ele e a família conseguem dominar o Maranhão há cinco décadas como eles fazem. E ele, como escritor, é ridículo. A segunda pior coisa foi Brasília. Se o JK não tivesse feito Brasília, com certeza a revolução não teria demorado o que durou, duraria só uns 4, 5 anos. Imagina, a primeira vez que alguém visse o general correndo de manhã em Ipanema o cara iria gritar: “E aí, general, tá virando reaça, hein?”, e o general iria se tocar (risos).

Brasília também ajudou a aumentar a corrupção?

M.F. – É claro. Lá fica tudo escondido, longe de todo mundo. E você não acha que o JK, as empreiteiras que construíram aquilo ali, não ganharam muito por fora com a obra? É claro que ganharam. Naquela época, ninguém era santo. Se hoje, com a tecnologia, o Twitter e tudo que há, já se sabe de tanta corrupção, imagina como era naquela época em que ninguém ficava sabendo de nada.

“A corrupção não impede que as coisas aconteçam”

Tem como acabar com a corrupção no Brasil?

M.F. – Não. Isso não tem jeito porque a corrupção é inerente ao homem. O homem sempre foi corrupto e vai continuar sendo.

Mas pode-se melhorar as instituições?

M.F. – Ah, melhora uma ou outra, mas em geral tudo é corrupto. Pega aí por exemplo essa ação da polícia aí, no Complexo do Alemão. Estão dizendo que estão acabando com o crime organizado. Olha, para mim o crime organizado tem nome: Judiciário, Legislativo e Executivo. O judiciário quer aumentar os próprios salários em 40%, mesmo com todas as mordomias que eles já têm. Esses caras têm carro pago, gasolina paga, tem até uma cozinheira para cada gabinete e ainda querem ganhar mais. É assim que é o homem.

Mas você disse que o país melhorou. Como um país pode melhorar se a corrupção não tem jeito?

M.F. – É que a corrupção não impede que as coisas aconteçam. Ao contrário, ela até ajuda. Um governador pode construir uma ponte que custa R$ 1 bilhão, mas ela vai custar oficialmente R$ 2 bilhões. Ou seja, ele constrói a ponte e acaba ganhando por fora. Se não ganhasse, por que ele iria fazer?

“A juventude combate quando tem algo para combater”

Você não acredita no altruísmo?

M.F. – O altruísmo existe, mas ele dura pouco tempo. Pega um exemplo: o ataque às torres em Nova York. No começo, todo mundo é bonzinho, todo mundo quer ajudar, faz doação e tudo. Mas 24 horas depois, já entra o pessoal para saquear o prédio e poder levar tudo que consegue. É igual essa ação aí na favela também, onde os policiais estão fazendo o que querem.

Você acha que a tecnologia pode ajudar o país?

M.F. – Acho. Uma coisa muito interessante é o Twitter. Hoje, não tem como o cara escutar uma crítica e deixar de responder. Antigamente, ele podia dizer que não viu, que não ficou sabendo e ficar quieto, e as coisas ficavam elas por elas. Agora todo mundo fala sobre tudo no Twitter, o assunto fica lá sendo comentado. Tanto que qualquer personalidade hoje já tem Twitter, pra poder responder a essas coisas.

O que mudou no comportamento do brasileiro nas últimas décadas?

M.F. – Acho que hoje o brasileiro tem orgulho de falar que é brasileiro. Isso é inédito, nunca tinha acontecido.

Você acha que a juventude hoje é menos combativa?

M.F. – Ué, a juventude combate quando tem algo fácil para combater. Na ditadura, tinha a ditadura. Se você der uma ditadura para os jovens hoje, eles vão combater do mesmo jeito. E iriam ainda aproveitar a chance pra transar com as menininhas revolucionárias (risos).

“O Brasil tem melhorado, mas isso não significa que seja para sempre”

O que mais mudou o brasileiro?

M.F. – Acho que foi o celular. Um exemplo são as empregadas. Antes, elas chegavam tímidas, com vergonha, pra pedir se podiam usar seu telefone, falavam rapidinho e pronto. Agora todas tem celular, andam pra cá e pra lá falando, combinando de dar pro cara do barzinho ali do lado (risos). O celular mudou muita coisa.

Você acha que o Brasil engatou em um ciclo de crescimento?

M.F. – O Brasil tem melhorado, mas isso não significa que seja um ciclo que se siga eternamente. Toda sociedade tem seu auge, que dura algumas décadas ou séculos e depois cai. É o exemplo que se tira da história.

***

[Rodrigo Burgarelli, do Estadao.com]

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