Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

MONITOR DA IMPRENSA > WATERGATE, 40 ANOS

Ontem e hoje, a cobertura de um escândalo

10/04/2012 na edição 689
Tradução e edição: Leticia Nunes

No ano em que são completados 40 anos do escândalo Watergate, que derrubou o presidente americano Richard Nixon, Bob Woodward e Carl Bernstein se reuniram para participar de uma palestra batizada de “Watergate 4.0: como a história se desenrolaria na era digital?”. O encontro, na semana passada, fazia parte da conferência anual da American Society of News Editors que, como se pode imaginar, teve como debate principal o papel da internet no futuro do jornalismo.

No meio da conversa com Bernstein, Woodward contou um caso curioso que ilustra a relação que jovens jornalistas e estudantes de jornalismo têm com a rede mundial de computadores e como vêem a apuração de informações online. Eis o caso: um professor de jornalismo de Yale pediu a seus alunos que escrevessem um texto de uma página dizendo brevemente como o escândalo Watergate seria coberto hoje. O professor pediu então a Woodward que lesse os trabalhos e falasse com os estudantes sobre o tema. “Recebi [os textos] em um domingo, e quase tive um aneurisma”, brincou ele, contando que os alunos de jornalismo haviam escrito coisas como “ah, você simplesmente usaria a internet e iria a ‘Fundo secreto de Nixon’, e tudo estaria lá”.

Para o veterano e lendário jornalista, a conclusão foi clara: os futuros jornalistas acreditam que a internet é uma espécie de lanterna mágica que ilumina todos os eventos. “Eles disseram ainda que o ambiente político seria tão diferente [hoje] que Nixon seria desacreditado, e blogueiros e tuiteiros ficariam agitados e Nixon renunciaria uma ou duas semanas após Watergate”, continuou, afirmando que tentou fazer algumas correções ao discurso dos alunos. “O ponto básico é: a verdade sobre o que acontece não está na internet. [A internet] é um complemento. Ela pode auxiliar. Mas a verdade está com as pessoas. Com as fontes humanas”.

Outros tempos

Em 1972, Woodward e Bernstein, então repórteres do Washington Post, tornaram-se inspiração para uma geração de jornalistas ao revelar o envolvimento do governo do presidente Richard Nixon na invasão do comitê do Partido Democrata no edifício Watergate, em Washington. Eles tinham uma fonte secreta, identificada apenas em 2005, que passava informações que os levaram a desvendar um esquema ilegal do governo para espionar inimigos e aliados políticos. O caso virou filme em 1976, estrelado por Robert Redford e Dustin Hoffman. E a dupla de repórteres entrou para a história. Os tempos, é claro, eram outros: seus editores os encorajaram a correr atrás de uma pauta complexa e, a partir da denúncia, o congresso e o sistema judiciário americanos puseram a mão na massa. Nenhum dos dois jornalistas acredita que este bem sucedido trabalho em equipe seria replicado hoje – porque os veículos jornalísticos estão cada vez mais enxutos, porque o público mostra um apetite cada vez mais reduzido para coberturas pesadas sobre pautas que ainda não viraram escândalos, e porque o congresso não agiria de maneira tão decisiva e determinada para investigar um presidente.

No debate com eles estavam Jeff Leen, responsável pelas coberturas investigativas do Washington Post; Amanda Bennett, da Bloomberg News; e Josh Marshall, do site Talking Points Memo. Todos observaram que o trabalho investigativo ainda é uma prioridade nas redações e importante para os leitores. Mas o tom do encontro acabou sendo mesmo de nostalgia. “Nós tínhamos uma audiência que era muito mais aberta ao fato real do que temos atualmente”, concluiu Bernstein. “Hoje, há um enorme público, parcialmente moldado pelo ciclo de notícias 24 horas, que procura informações para confirmar suas já existentes crenças e ideologias políticas-culturais-religiosas. E este é o caldeirão em que todas as informações são jogadas. Não tenho dúvidas de que há dezenas de grandes repórteres – e organizações – por aí que poderiam fazer esta cobertura. O que eu não acredito é que ela resistiria a esta recepção cultural. Acabaria triturada no processo”. Informações de Dan Zak [The Washington Post, 3/4/12].

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