Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > FOTO SEM FOTO

Livro traz depoimentos sobre fotografias não tiradas

19/06/2012 na edição 699
Tradução e edição: Leticia Nunes

Um livro sobre fotografia sem fotografias parece uma ideia absurda. Mas Photographs Not Taken (Fotografias Não Tiradas, na tradução livre) mostra que é mais coerente do que se imagina. O livro traz depoimentos de 60 fotógrafos sobre as fotos que não tiraram. Os profissionais lembram dos momentos que não foram registrados para a posteridade, e que, por isso, perderam-se no passado.

As fotografias em questão não foram tiradas porque os fotógrafos não conseguiram, ou não ousaram, registrá-las – por motivos éticos ou emocionais. Editado por Will Steacy, Photographs Not Taken traz a ideia do fotógrafo como um viajante aventureiro, registrando os momentos importantes de eventos marcantes. Em alguns dos ensaios, eles lamentam que sua “missão” os prenda, quase sempre, ao passado. Na introdução, Lyle Rexer aborda o “dilema entre ser e fotografar”.

Para outros, a fotografia é vista como o ato de se excluir do momento. Jim Goldberg lembra do nascimento de sua filha. Diz que usou a câmera como uma máscara, algo para se esconder enquanto sua mulher estava em trabalho de parto. Mas o momento em que a cabeça da filha começou a aparecer, ele conta que largou a câmera. Aí entra o paradoxo: “De jeito nenhum que eu ia usar a câmera e perder aqueles momentos incríveis”, resume o fotógrafo.

Já Elinor Carucci diz que, ao se tornar mãe, declarou guerra à fotógrafa que havia nela. “Tive que escolher entre a fotografia e a maternidade. E quando escolhia a fotografia, cada foto se tornava um segundo de culpa”, conta. Para ela, cada segundo com a câmera era um instante perdido como mãe.

Para outros fotógrafos, a foto não tirada é o momento que eles não puderam “roubar”. Erika Larsen escreveu sobre um projeto em que fotografaria a família de uma adolescente que havia cometido suicídio. Ao entrar no quarto da menina com o pai dela, Erika tinha a possibilidade de uma grande foto, mas hesitou. “Eu podia ver a imagem, mas conseguia apenas ver os soluços dele e sentir minhas próprias lágrimas”, lembra. “Segurei a minha 4×5 no peito, pronta para fotografar, mas não pude. Abaixei a câmera; o momento era dele”.

O livro traz ainda um depoimento do fotógrafo e documentarista Tim Hetherington, morto em 2011 quando cobria o conflito na Líbia. Hetherington examinou as diferentes reações que teve diante de duas fotos pesadas: a de um rebelde da Libéria morto, e a do corpo de um soldado americano no Afeganistão. Ele tirou as fotos, mas a segunda o fez pensar. “Minha hesitação me preocupou. Eu tinha ficado sensibilizado desta vez porque o soldado não era um africano sem nome? Talvez eu tivesse mudado e compreendido que deve haver limites no que é mostrado ao público? Certamente, eu não estaria nesta posição de questionamento se não tivesse tirado a fotografia, mas eu tirei”. Informações de Peter Moskowitz [Blog Lens, do New York Times, 28/5/12].

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