Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > WATERGATE, 40 ANOS

O jornalismo investigativo em risco

19/06/2012 na edição 699
Tradução e edição: Leticia Nunes

Quarenta anos após o caso Watergate, o jornalismo investigativo está ameaçado, afirma Leonard Downie Jr. em artigo no Washington Post [7/6/12]. O jornalista, que hoje atua como professor na Escola Walter Cronkite de Jornalismo e Comunicação de Massa da Universidade do Estado do Arizona, trabalhou no Post por 44 anos, ocupando o cargo de editor-executivo de 1991 a 2008, e é membro da vice-presidência da Washington Post Company.

Ele afirma que o jornalismo investigativo não nasceu com o Watergate, mas tornou-se mais forte no jornalismo americano – e se espalhou consistentemente pelo mundo – em grande parte por conta do episódio que derrubou o presidente Richard Nixon na década de 70. Na ocasião, os jovens repórteres do Post Bob Woodward e Carl Bernstein descobriram um esquema de espionagem política que envolvia a invasão do Comitê do Partido Democrata no edifício Watergate, em Washington.

Quarenta anos mais tarde, diz Downie Jr., o futuro da reportagem investigativa “está em risco na caótica reconstrução digital do jornalismo nos EUA”. Ele resume o problema: o longo e dispendioso processo de produção de reportagens investigativas tornou-se um peso para redações cada vez mais enxutas, na medida em que os jornais, em crise, lutam para se reinventar e sobreviver.

História

Downie Jr. lembra que o jornalismo investigativo “hibernou” durante as duas guerras mundiais, a Grande Depressão e o macartismo. Mas, a partir da década de 60, começou a renascer diante dos movimentos pelos direitos civis, a contracultura e contra a Guerra do Vietnã. “Eu estava entre um pequeno, mas crescente, número de repórteres investigativos em jornais espalhados pelo país”.

O Conselho do Pulitzer, premiação jornalística de maior prestígio nos EUA, criou a categoria de reportagem investigativa em 1964. No ano anterior, as três grandes emissoras de TV do país haviam ampliado seus jornais noturnos de 15 para 30 minutos, e já começavam a exibir documentários investigativos no horário nobre. A decisão da Suprema Corte, em 1964, no caso New York Times vs. Sullivan – que determinou que quem acusa um veículo jornalístico de difamação ou calúnia deve provar que o acusado sabia que a informação era falsa ou que agiu de má-fé– dificultou a vitória fácil de autoridades investigadaspela imprensa em casos de calúnia e difamação; e o Ato de Liberdade da Informação, aprovado pelo Congresso em 1966, facilitou a busca dos repórteres por informações vitais para seu trabalho.

Caminho longo

Ainda assim, em 1972, meses após a invasão no edifício Watergate, Woodward e Bernstein exploravam a história sozinhos. O Post “foi ignorado e posto em dúvida pelo resto da mídia e pela maior parte do país”, lembra Downie Jr. O jornal enfrentava ainda ataques pesados do governo Nixon e seus partidários. “Foi um momento tenso para nós que trabalhávamos com Bob e Carl, com nossa credibilidade e o futuro do nosso jornal em risco”.

À medida que o caso foi se desenrolando, no entanto, jornais como o New York Times e o Los Angeles Times, além da CBS News, começaram a fornecer uma “quase bem-vinda competição”. Pouco mais de uma semana antes da reeleição de Nixon, em novembro de 72, o âncora Walter Cronkite dedicou 15 minutos do Evening News, telejornal mais importante da CBS, ao caso Watergate, em grande parte mostrando artigos do Washington Post.

Quando Nixon finalmente renunciou à presidência, em 1974, agentes do FBI, promotores e o Congresso haviam todos representado papeis importantes no processo de responsabilizá-lo por crimes de espionagem política. “Mas, mesmo depois de décadas de dúvidas sobre os detalhes, mistérios e significados de Watergate, o papel de Woodward e Bernstein continua crucial”, afirma Downie Jr.

Para o jornalismo, diz ele, a cobertura do caso e o livro Todos os Homens do Presidente – que depois virou filme – tiveram um grande impacto. “Inspirados por Watergate, gerações de jovens jornalistas entraram na profissão para se tornar repórteres investigativos”, lembra. Jornais, revistas e emissoras de TV também passaram a investir no jornalismo investigativo. Jornalistas, como o próprio Woodward, expandiram suas apurações para livros com descobertas e denúncias sobre os mais variados temas de interesse público. O tempo foi passando, e jornalistas-cidadãos ocuparam a internet com colaborações de conteúdo em blogs e nas redes sociais.

O jornalismo investigativo foi, assim, ocupando lugar de destaque em todas as áreas da sociedade americana – do governo e a política ao mercado financeiro, cultura, educação e esportes . “Há, desde Watergate, uma expectativa de que a imprensa irá tornar responsáveis por seus atos aqueles com poder e influência sobre nós”, diz.

Receita básica, mas eficiente

As técnicas de Woodward e Bernstein não eram originais, mas eram simples e acabaram se tornando cruciais para o jornalismo investigativo: torne-se um especialista no tema que cobre. “Bata em portas para falar com fontes pessoalmente. Proteja a confidencialidade de fontes quando necessário. Nunca confie em uma única fonte. Encontre documentos. Siga a trilha do dinheiro. Coloque cada informação em cima da anterior até que seja possível discernir um padrão”, enumera Downie Jr. Há alguns anos, lembra ele, a jornalista Dana Priest, também do Post, usou estes mesmos métodos para revelar a existência de prisões secretas da CIA no exterior onde suspeitos de terrorismo sofriam interrogatórios agressivos.

O caso Watergate ajudou a transformar alguns jornalistas investigativos, a exemplo de Woodward, em nomes de peso e marcas lucrativas. Eles fechavam bons contratos para escrever livros e artigos em revistas, para fazer discursos e eram chamados com frequência para aparecer na televisão. Muitos buscavam desesperadamente por seu próprio Watergate – e qualquer pequeno escândalo passou a receber o sufixo “gate”. Diante desta corrida investigativa, governos, políticos, juízes e executivos de grandes empresas reagiram com processos, intimações e investigações para descobrir as fontes de vazamentos de informações confidenciais.

Mas os melhores repórteres investigativos, diz Downie Jr., tornaram-se mais sofisticados, ajudados pelos computadores, pela internet e pelo treinamento fornecido pelo grupo de Repórteres e Editores Investigativos, que ele próprio ajudou a fundar em 1975. “O jornalismo deles foi mais fundo, explicando enquanto faziam revelações, às vezes dando soluções enquanto expunham problemas”, resume. Desta forma, este jornalismo ajudou a resolver falhas na sociedade.

Downie Jr. lembra que os tempos continuam perigosos. Por isso, o jornalismo investigativo continua tão essencial para a democracia quanto Watergate foi há 40 anos. Entretanto, diz ele, o impacto da mídia digital e as migrações do público e da receita publicitária prejudicaram o modelo de negócios que financiava grande parte das reportagens investigativas até o fim do século 20. “Este tipo de reportagem continua a ser prioridade em muitos jornais em dificuldade financeira, que continuam a produzir jornalismo de qualidade relevante para suas comunidades – mas eles têm menos funcionários e recursos para devotar a ele”, afirma Downie Jr. Por outro lado, a maior parte da cobertura investigativa em emissoras de TV – que também lutam para manter seu público e receita – consiste em matérias que, basicamente, têm como prioridade aumentar os índices de audiência.

Alternativas para o futuro

Neste cenário surgem as organizações independentes de jornalismo investigativo, normalmente fundadas por jornalistas que deixaram os veículos comerciais tradicionais. Entre as mais conhecidas estão a ProPublica, em Nova York; Texas Tribune, em Austin; California Watch, com escritórios em todo o estado; e a Voice of San Diego. Estas organizações são financiadas por fundações de caridade, filantropos, pequenos doadores e escolas de jornalismo. A maioria tem pequenas equipes e orçamento modesto. “Mas seu entusiasmopor sua missão me lembra dos repórteres e editores do Washington Post que cobriram Watergate quatro décadas atrás”, diz Downie Jr. “Parte de seu jornalismo já conseguiu ter impacto local e nacional. Seu tráfego online é relativamente pequeno, mas algumas conseguiram audiências muito maiores ao ter suas matérias publicadas e exibidas por jornais, emissoras de TV e rádios públicas”.

“Este aniversário de Watergate certamente evocará matérias do tipo ‘onde estão eles agora’, mais recordações dos personagens que ainda estão entre nós e mais dúvidas sobre o que aconteceu há 40 anos. O jornalismo e o público americano estariam mais bem servidos se a ocasião também fosse usada para se reconhecer e difundir a importância do jornalismo investigativo em nossa democracia – e a necessidade de garantir que ele sobreviva e prospere na desarmonia digital”, conclui o jornalista.

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