Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MONITOR DA IMPRENSA > A POLÊMICA DO ESTUPRO

Mídia americana demora a desmentir declaração de candidato

28/08/2012 na edição 709
Tradução: Larriza Thurler (edição de Leticia Nunes)

Na semana passada, o republicano Todd Akin, candidato ao Senado americano pelo Estado do Missouri, provocou polêmica ao afirmar em uma entrevista na TV que mulheres vítimas de estupro não engravidam. Segundo o político, no caso de “estupro legítimo”, o corpo da vítima tem meios de evitar uma gravidez indesejada. Uma das grandes surpresas sobre o comentário infeliz, afirma Jennifer Vanasco em artigo na Columbia Journalism Review [24/8/12], foi quanto tempo a grande mídia dos EUA demorou para dizer o óbvio: Akin estava, obviamente, errado.

Repórteres podem ter pensado que o erro era tão óbvio que nem era preciso contestá-lo. A maioria dos veículos divulgou o que Akin disse e publicou uma resposta de sua rival, a democrata Claire McCaskill, além de reações do candidato republicano à presidência, Mitt Romney, e do presidente Barack Obama. As matérias focaram em como o comentário poderia afetar a disputa entre Akin e McCaskill e, mais amplamente, se influenciaria a disputa presidencial ao aumentar o apoio de eleitoras a Obama.

Na primeira abordagem da imprensa após o incidente, era importante deixar claro, no entanto, que a declaração de Akin era falsa. Basicamente, ele teria acreditado na história de “corpo fechado” contra gravidez em caso de estupro. E quando uma informação deste tipo, por mais absurda que soe, sai da boca de um líder político, pode levar outras pessoas a acreditar nela. Ao não contestar e não oferecer evidências para desmentir a alegação de Akin, a cobertura se resumiu a uma declaração polêmica sobre aborto criticada por rivais políticos – o que, segundo o artigo de Jennifer Vanasco, está longe de ser jornalismo.

Números diferentes

A CBSNews.com foi um dos únicos veículos de comunicação a pensar sob este ponto de vista e informou que, embora não haja dados exatos, a RAINN, organização contra a violência sexual, afirmou que 5% de todas as relações sexuais sem proteção, ocorridas apenas uma vez, resultam em gravidez – e este percentual pode ser aplicado às vítimas de estupro. O FBI estima que, em 2009, 75.720 mulheres tenham sido vítimas de estupro nos EUA, o que significa que 3.786 mulheres teriam engravidado de seus agressores. O Washington Post escreveu que o ponto de vista de Akin era comum entre conservadores, mas que, segundo um estudo de 1996, aproximadamente 32 mil estupros acabam em gravidez anualmente nos EUA e que 5% das vítimas de estupro ficam grávidas.

Infelizmente, em nenhum dos casos os dados pareceram confiáveis – há uma grande discrepância entre eles. Segundo um relatório do Congresso Americano para Obstetras e Ginecologistas, a cada ano nos EUA ocorrem de 10 mil a 15 mil abortos em mulheres vítimas de incesto ou estupro. “Não há veracidade na alegação de que se for um estupro ‘legítimo’, o corpo feminino tem meios de impedir uma gravidez”, afirmou a organização.

Somente dois dias depois da afirmação de Akin a maior parte das organizações de mídia passou a comentar sobre o conteúdo da declaração, mas a maioria das matérias foi publicada na seção de ciência, com menor visibilidade do que os cadernos nacionais.

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