Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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MONITOR DA IMPRENSA >

Nasce um novo repórter na Universidade de Toronto

23/10/2012 na edição 717

E se, em vez de fazer dos jornalistas especialistas, o foco fosse transformar especialistas em jornalistas? Em sua série de matériassobre educação jornalística, o Nieman Journalism Lab levantou duas ideias que poderiam mudar o panorama. A primeira é de Len Downie: “as escolas de jornalismo deveriam funcionar como hospitais de ensino”. A segunda, de Meredith Artley, da CNN, é de que especialistas em certas áreas são difíceis de encontrar. Mas o achado está em fundir essas duas ideias com uma terceira: agora, o mundo pertence aos freelancers. E é assim que nasceu um novo tipo de educação jornalística, agora em seu primeiro mês, na Universidade de Toronto, no Canadá.

O programa Fellowship in Global Journalism convoca deliberadamente especialistas – professores e profissionais – e os ensina a apresentar notícias em suas disciplinas sobre mídia pelo mundo todo. Assim como os estudantes de medicina, eles passam apenas duas horas por dia nas aulas. Passam a maior parte de seu tempo trabalhando como correspondentes da grande mídia – é a isso que se chamam hospitais de ensino. Os estudantes não têm dever de casa; vão atrás da notícia, coletam a informação, arquivam e enviam para jornais como The Globe and Mail, The Toronto Star, The Dallas Morning News eThe National Post, assim como para emissoras como a CBC Newse, em especial, para agências de notícias como a Fundação Thomson Reuters.

Eles não têm professores; têm treinadores de jornalismo na universidade e editores em suas mesas de trabalho. Não recebem notas; suas matérias são publicadas, ou derrubadas. Não recebem um título; não precisamde outro título.

É uma experiência

Os estudantes deste ano incluem dois jovens professores, três PhDs, um advogado, um ex-executivo de publicidade, um ex-assessor profissional de desenvolvimento, um designer de arquitetura e um especialista em Oriente Médio. Ao invés de ter um título como objetivo, o programa de oito meses ajuda-os a criar redes de reportagem, clipes, fontes e um início para uma nova carreira como freelancer por todo o mundo.

O mais importante é que isso não acontece numa faculdade de jornalismo. A Universidade de Toronto é uma das universidades de pesquisa mais famosas do mundo, mas não tem tradição de jornalismo. Os estudantes do Fellowship in Global Journalism são da Munk School of Global Affairs, uma escola que prepara estudantes para carreiras internacionais em serviço público, desenvolvimento, direito, ciência e administração.

Como tantas outras coisas em jornalismo, é uma experiência. Grandes jornais e emissoras ajudam o projeto a decolar. Após duas semanas, os estudantes começam a pensar como jornalistas. Têm ideias de matérias e já têm faro por entrevistas. Também sentem todas as angústias sobre precisão e prazos que infestam todos os jornalistas.

Redações contratam freelancers

A ideia começou há três anos, quando alguns colegas perguntaram a Robert Steiner, diretor da School of Global Affairs, da Universidade de Toronto [Nieman Journalism Lab, 18/10/12], sobre o futuro da educação jornalística. Na época, ele era vice-presidente assistente da universidade, mas no início da carreira fora correspondente estrangeiro do Wall Street Journal. Nunca frequentara faculdade de jornalismo e estava tão distante das discussões sobre reforma curricular que não suspeitava que a Carnegie Corporation of New York e a John S. and James L. Knight Foundation estivessem prestes a investir US$ 20 milhões (cerca de R$ 40 milhões) na mesma questão precisamente naquele momento.

Durante um mês, ele analisou os currículos das principais escolas de jornalismo do mundo e comparou-os às mudanças que haviam ocorrido na forma pela qual os repórteres trabalhavam desde que ele saíra do WSJ, em 1997. As lacunas entre o currículo e a prática surpreenderam-no. As escolas de jornalismo ensinavam generalistas, enquanto as melhores empresas de mídia procuravam audiências segmentadas. Um curso de um mês numa faculdade de jornalismo sobre, por exemplo, “ciência para jornalistas”, não era o suficiente para produzir um especialista bem informado.

As escolas de jornalismo preparavam estudantes para as redações, mas as redações estavam se livrando dos repórteres e contratando freelancers. Os freelancers, por sua vez, estavam saturando os mercados locais; mas um freelancer especializado poderia tornar-se um correspondente em uma dúzia de mercados pelo mundo afora. Os estudantes nas escolas de jornalismo tradicionais esperavam “aprender fazendo” em seus estágios de verão, anteriores à colação de grau. Mas, hoje em dia, são poucos os editores que têm tempo para ensinar durante esses estágios.

Dois estudantes já foram publicados

Foi assim que decidiram criar algo completamente diferente. Convocariam especialistas, ao invés de tentar ensinar uma especialidade a generalistas. Após um mês de treinamento básico, trariam esses estudantes para a verdadeira mídia, ao invés de trancá-los em salas de aula por oito meses antes do estágio de verão. Eles os treinariam enquanto trabalhavam, ao invés de descarregar o trabalho de ensinar em cima de editores ocupados. Também os preparariam para trabalhos em equipe.

Essas diferenças os forçaram a abandonar os velhos caminhos de outras maneiras. Jornais, emissoras e serviços pela internet são parceiros de ensino – ajudam-os a projetar, e mesmo entregar, um currículo que atenda ao seu jornalismo. São ensinados redação, radiodifusão e a capacidade de um jornalismo digital e móvel. Mas o currículo enfatiza a avaliação das informações globais. Os estudantes de jornalismo tradicionais recebem pautas; já os desta nova maneira de ensino devem caçar matérias de acordo com o interesse dos mercados do mundo todo, apresentá-las a Steiner ou a outro ex-correspondente estrangeiro durante um encontro semanal e, em seguida, redigi-las.

Para ajudar os estudantes, eles são incluídos na universidade mais ampla. Cada estudante é apresentado a uma dúzia dos principais pesquisadores existentes no campus. Cientistas políticos, como Michael Ignatieff, apresentam uma série de seminários sobre o atual desenvolvimento dos acontecimentos globais. Uma professora da Faculdade de Serviço Social ensinará a arte perdida das entrevistas profundas, da maneira pela qual ensina terapeutas a passarem uma hora avaliando questões complexas com seus pacientes. Em algum momento desse caminho, Steiner percebeu que estavam transferindo valores de uma redação do WSJ de 1997 para o mundo do trabalho de 2012.

O treinamento básico terminou no dia 28/9. Até o dia 6/10, dois dos estudantes já haviam sido publicados na grande imprensa. Santiago Ortega escreveu sobre a posição em relação às mudanças climáticas dos candidatos presidenciais americanos para a Alternet.org (site da Thomson Reuters Foundation) e Stephen Starr escreveu sobre o Conselho Nacional da Síria para o National Post, do Canadá. Outros estão escreveram sobre as principais mudanças no desenvolvimento urbano, omissão policial e regulação ambiental, entre outros tópicos.

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