Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1021
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MONITOR DA IMPRENSA >

Em defesa de um novo jornalismo digital

Por Frederic Filloux em 05/03/2013 na edição 736

As reportagens estão envelhecendo. As redações de jornais parecem presas no formalismo do século passado. Pegue um jornal, impresso ou virtual. Quando se trata de reportar uma notícia, você vê a mesma velha estrutura dos anos 50 ou até mais antiga. Para o repórter, há sempre a mesma postura (exagerada) de esconder suas opiniões atrás dos fatos, e uma estrutura rígida baseada em uma série de parágrafos, elementos gráficos e citações cuidadosamente dispostas.

Eu odeio citações inúteis. Quase sempre, para jornalistas, essas citações são equivalentes aos cartões de ponto. Para o editor, a mensagem é: “Ei, fiz meu trabalho, entrevistei x, y e z”. Para o leitor, “Olhe, eu estou humildemente colocando minhas opiniões atrás dos fatos declarados por essas pessoas”. Pessoas essas escolhidas pessoalmente pelo jornalista. O resultado é quase ridículo quando, após uma longa exposição da voz do repórter para comprimir os pensamentos das fontes, a linha de raciocínio é concluída com:

“Só o tempo dirá”, disse João Silva, diretor de estudos sociais da Universidade de Kalamazoo, consultor da Empresa Rand e autor de “O déficit cognitivo de chimpanzés hiperativos”.

Eu mal estou inventando isso. Toda vez que abro um jornal (ou leio sua versão virtual), estou preso a restos antiquados de escritas jornalísticas. Sem o conhecimento dos chefes da grande mídia, as coisas mudaram. Leitores não exigem mais citações que pesam na narrativa. Eles querem ser levados de um lugar ao outro, com os melhores argumentos, sem distração ou tempo perdido.

Alguns fatores ditam uma evolução urgente na forma como jornais são escritos:

Tempo do leitor

Pessoas são inundadas com coisas para ler. Das sete da manhã até o fim da noite. A combinação de leituras para o trabalho com as leituras das redes sociais colocou sob pressão o valor de qualquer leitura. Diversos aparelhos e os diversos níveis de atenção que eles necessitam criam mais complicações: uma editora não pode dar o mesmo conteúdo para uma tela de smartphone e para a tela de um tablet. Mais do que nunca, exige-se das editoras um julgamento claro para qual conteúdo deve ser disposto de forma concisa e qual justifica uma longa e elaborada narrativa.

Confiança/contrato com a marca

Quando eu pego uma versão do New York Times, The Guardian ou qualquer grande jornal francês, esse ato concretiza minha confiança no profissionalismo associado com sua marca. De certa forma, funciona do mesmo jeito com os jornalistas. Alguns são preguiçosos e motivados pelos próprios interesses, alguns são tão bons que se tornam uma marca eles mesmos. Meu ponto: quando leio uma notícia de quem confio, assumo que o repórter fez o trabalho necessário, que é colecionar cinco a 10 vezes a quantidade de informação utilizada no produto final. Eu não preciso que a reportagem seja validada por uma construção editorial do século passado. Citações serão usadas apenas para opiniões de fontes relevantes, ou para corroborar um ponto, não como uma tentativa fútil de se mostrar profissional.

Competição que vem de dentro

Estranhamente, jornais criaram sua própria avaliação para medir sua obsolescência. Ao encorajar suas redações a blogar, eles criaram novas e mais pessoais… práticas de escrita moderna. Muitos jornalistas se tornaram mais interessados em seus blogs do que em seus jornais ou revistas. De novo, essa tendência foi esquivada por muitos jornais que consideram os blogs como um gênero secundário, um que possa ser posto fora do pacote de assinaturas, por exemplo. (O resultado é duplamente ruim: os jornais não ganham dinheiro com seus blogs e os assinantes ficam frustrados).

A influência das revistas

Bem melhores que os jornais, as revistas sempre fizeram um bom trabalho em capturar as preferencias do leitor. Sempre estiveram à frente na pesquisa de mercado, no design gráfico, na evolução da escrita. Como exemplo, jornalistas de revistas foram mais rápidos ao adotar relatos em primeira pessoa que rejuvenesceram o jornalismo e possibilitaram uma narrativa mais poderosa. Muitos jornais ainda resistem a isso.

A mídia digital necessita inventar seus próprios gêneros jornalísticos. A internet e os celulares estão pedindo um novo jornalismo comparável àquele que surgiu nos anos 70. Enquanto os blogs ainda precisam encontrar seu Tom Wolfe, a indústria dos jornais ainda possui um papel crítico: eles podem ser a vanguarda dessa evolução essencial no jornalismo. Fracassar nisso só acelera sua queda.

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