Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
Menu

MONITOR DA IMPRENSA >

Falta de recursos prejudica jornalismo no continente

05/03/2013 na edição 736

“Não há muito dinheiro no jornalismo da África”, afirma o repórter africano Simon Allison, que foi ao Sudão do Sul em novembro passado em uma viagem (paga de seu próprio bolso) de quatro dias a um campo de refugiados. Allison era o único jornalista no local até o último dia, quando desembarcaram de um pequeno avião quatro correspondentes de duas das maiores organizações de mídia do mundo. Os repórteres ficaram duas horas no campo de refugiados e um deles enviou sua matéria antes de sair de lá.

Enquanto eles entrevistavam as mesmas fontes com quem Allison havia conversado por três dias, ele bateu um papo com a pessoa que acompanhava os correspondentes. Descobriu que eles pagaram o equivalente a R$ 16 mil para alugar o avião pelo período da manhã. Para Allison, essa era uma quantia inimaginável: uma manhã deles custou mais do que quatro vezes sua semana inteira no Sudão do Sul. E, claro, eles perderam o mais importante. Se em quatro dias Allison mal conseguiu se aprofundar no que acontecia no acampamento, em duas horas eles não foram além das declarações oficiais.

Para os voluntários e a liderança do campo, esta é uma queixa comum: jornalistas, invariavelmente estrangeiros, ficam apenas algumas horas e saem com a história errada. Isso reforça outro lamento comum entre jornalistas políticos, legisladores e ativistas da sociedade civil africanos – um dos maiores problemas da Áfica é que ela não tem permissão para contar suas próprias histórias. A agenda para notícias africanas é decidida em capitais ocidentais como Londres, Paris e Nova York, e escrita por correspondentes internacionais que não compreendem as complexidades locais, baseando suas narrativas em generalizações enganosas.

Algumas vezes, as matérias estão distorcidas ou erradas; em outras, são quase racistas. Mas a principal questão é que a Áfica não estabelece sua própria pauta e continua a ser definida por estereótipos: é pobre, dominada por conflitos, faminta e perigosa. É um continente impotente ou, se os editores estiverem de bom humor, é uma “África em ascensão”, cheia de clichês positivos.

Impacto nas políticas e na liberdade de expressão

O impacto potencial desse cenário é que as políticas, os investimentos de recursos financeiros e as decisões são tomadas com base na visão de fora da África. Isso tem implicações quando se refere a proteger a liberdade de expressão no continente – e especialmente a liberdade de imprensa. A solução seria mais africanos escrevendo sobre a África para africanos.

No entanto, na maioria dos jornais em países africanos, as notícias vêm de fontes como Reuters, AP, AFP e BBC. Há raras exceções, como o Nation Media Group, no leste da África, financiado por Aga Khan, que tem uma rede excelente de correspondentes estrangeiros pelo continente.

Na opinião do jornalista Frederick Kebadiretse, do jornal Mmegi, o problema principal é a falta de recursos financeiros, o que impede o deslocamento de equipes para lugares mais distantes. Até mesmo para o Nation Media Group fica difícil competir com veículos como a Reuters. “Dependemos muito de agências para cobrir o continente para nós”, revela Lee Mwiti, que trabalha na divisão africana do grupo. Os melhores jornalistas africanos acabam indo trabalhar para as agências internacionais, que pedem que eles escrevam em um formato pré-estabelecido.

Um problema decorrente da falta de recursos é o plágio, observa Johannes Myburgh, editor da AFP em Joanesburgo. “Muitos usam notícias de agências por meio de assinaturas, mas há uma grande quantidade que copia da internet mesmo”, diz. Até mesmo grandes organizações de mídia estão cortando drasticamente a cobertura internacional, sendo a África a primeira vítima.

Uma solução seria encorajar organizações de mídia a compartilhar conteúdo. Uma das pioneiras nisso é a AllAfrica.com, que publica artigos de mais de 130 veículos africanos. Segundo informa seu editor-executivo, John Allen, os editores tentam colocar as matérias locais padronizadas para todo o continente. No entanto, não é um método sem falhas. A imprensa local também pode ser partidária e os editores devem ser capazes de diferenciar o bom jornalismo da retórica vazia.

Ainda assim, a falta (e o mau uso) de recursos uso continua sendo um problema. Há alguns anos, uma famosa ONG gastou milhares de dólares para levar 10 jornalistas sudaneses para serem treinados em Nairóbi, no Quênia, em um workshop sobre reportagem eleitoral. O professor era um ex-jornalista com mais teoria do que experiência em áreas de conflito na bagagem. Não deu muito certo. Ao fim do workshop, um editor sudanês deu seu veredicto: “O bolo estava bom”. Gasolina e coletes à prova de bala teriam sido mais úteis na cobertura eleitoral.

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem