Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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MONITOR DA IMPRENSA >

Editor condenado por insultar presidente turco

Por Leticia Nunes em 23/06/2015 na edição 856

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, sempre teve uma relação de amor e ódio com a imprensa, mas nos últimos anos o ódio parece ter se intensificado. O mais recente jornalista condenado pela justiça turca é Bulent Kenes, editor de um jornal diário, acusado de insultar o presidente.

Kenes deverá cumprir 21 meses de prisão por causa de um tuíte que sugeria que a falecida mãe de Erdoğan teria vergonha do filho caso visse o que ele vinha fazendo com a Turquia. O tuíte foi publicado em julho de 2014, quando Erdoğan ainda era primeiro-ministro – ele venceu as eleições presidenciais no mês seguinte.

Em sua defesa, Kenes argumentou estar protegido pela lei turca de liberdade de expressão e afirmou que seu tuíte não mencionava Erdoğan especificamente. O argumento, no entanto, não foi aceito pelo tribunal. O código penal turco caracteriza como crime insultos a oficiais públicos, bem como insultos ao presidente.

Queda na liberdade de imprensa

Grupos de defesa pelos direitos da imprensa há muito têm criticado a Turquia por prender jornalistas e têm manifestado preocupação com a queda da liberdade de imprensa desde que Erdoğan se tornou presidente.

À época da corrida para as eleições parlamentares de 7/6, por exemplo, Erdoğan causou indignação ao ameaçar Can Dündar, editor-chefe do jornal Cumhuriyet, devido a uma reportagem de capa que dizia ter provas de que a Turquia havia enviado armas para rebeldes na Síria. Logo depois da publicação do material, foi aberta uma sindicância e Erdoğan exigiu que Dündar fosse condenado à prisão por “espionagem e publicação de informações falsas”. O caso ainda não teve desfecho, mas o jornalista tem se recusado e permanecer em silêncio. Em 16/6, ele publicou um artigo intitulado “Pare com as ameaças e responda a estas 20 perguntas”, sobre o dito fornecimento de armas à Síria.

A mídia pró-governo, no entanto, posicionou-se publicamente contra o Cumhuriyet. O colunista Ibrahim Karagul, do diário Yeni Safak, declarou que o jornal “cometeu a maior traição da história”.

O presidente da Turquia também entrou em conflito com o New York Times após a publicação de um editorial que dizia haver “nuvens negras” sobre a Turquia. Erdoğan classificou o jornal americano como “lixo”, disse que o veículo tinha uma tradição de difamar os líderes turcos e sugeriu que receberia ordens diretas do governo dos EUA para minar a Turquia.

Jornalistas sob risco

De acordo com o Índice de Liberdade de Imprensa Mundial da organização Repórteres Sem Fronteiras, em 2015 a Turquia ocupa o 149º lugar do ranking, dentre 180 países.

Logo após o ataque verbal a Can Dündar, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) se manifestou, chegando a divulgar um comunicado pedindo que Erdoğan parasse de assediar jornalistas.

Embora o número de jornalistas presos na Turquia tenha caído drasticamente – de 40 em 2013 para apenas sete em 2014, segundo o CPJ –, o consenso geral é que a imprensa ainda sofre para trabalhar livremente no país. Jornalistas descrevem um clima de medo e autocensura, com um número crescente de organizações de mídia sob controle governamental e cada vez menos veículos independentes.

Em artigo para o Washington Post, o jornalista Adam Taylor declarou que insultar o líder turco tornou-se muito arriscado desde que este saltou do gabinete de primeiro-ministro ao gabinete da presidência. Taylor tratava do caso da ex-modelo turca Merve Buyuksarac, que foi acusada de ofensa ao presidente por postar um poema em uma rede social. O poema compartilhado por Merve no Instagram era intitulado “O Poema do Mestre” e foi retirado de uma revista satírica. Nele, uma pessoa se gaba de ter conseguido roubar por anos sem ser pega. Simpatizantes de Erdogan costumam chamá-lo de “mestre”.

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