Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ENTRE ASPAS >

Entrevista com Ricardo Piglia

19/04/2011 na edição 638

Folha de S. Paulo, 17/4

Sylvia Colombo

Constelações de Piglia

O escritor argentino Ricardo Piglia divide-se entre a criação literária e as aulas na universidade de Princeton (EUA), onde passa metade do ano. Passa a outra metade em Buenos Aires, onde recebeu a Folha e falou sobre literatura, política e as fronteiras da criação ficcional como as séries de TV e as redes sociais.

***

‘A BEBA GOSTA da tranquilidade de Palermo, mas eu, para trabalhar, prefiro estar aqui no centro’, conta Ricardo Piglia, 69, enquanto desliza a porta de ferro que leva ao elevador. Estamos na calle Ayacucho, no coração de Buenos Aires, num pequeno apartamento que foi o antigo endereço de Ricardo Piglia e da tradutora Beba Eguía, juntos há 25 anos, antes de o casal começar a se dividir entre os EUA e a Argentina.

Desde 1997, quando Piglia passou a lecionar em Princeton, os dois vivem cerca de metade do ano lá, metade cá. Na capital portenha, residem numa ampla e arborizada casa de Palermo, mas o autor de ‘Respiração Artificial’ e ‘Dinheiro Queimado’ mantém o velho teto na região central.

Nesta tarde de verão bastante quente, Piglia entra e acende as luzes. Liga o ar-condicionado. Coloca no centro de uma mesa de madeira, de uma limpeza que contrasta com a desordem dos livros ao redor, um prato de cerejas recém-tirado da geladeira.

‘Vamos?’, pergunta o escritor, que não parece muito afeito a falar de assuntos pessoais e quer logo dar início aos trabalhos: uma entrevista, que tem como mote ‘Alvo Noturno’, seu mais recente romance (a ser publicado no Brasil pela Cia. das Letras no segundo semestre), mas que vai se desdobrar também por sua visão sobre a literatura hoje, o cargo de professor de uma grande universidade norte-americana, a Argentina de nossos dias.

CARGA MITOLÓGICA Piglia pergunta como é a recepção no Brasil aos diários, que vêm sendo publicados pela Folha e pelo jornal espanhol ‘El País’, mas, ao ser questionado sobre a razão de liberá-los só agora, minimiza sua importância. Conta que os iniciou há muito tempo e que servem de laboratório. Alerta o leitor para o fato de que, ali, não encontrará nenhuma revelação fantástica, mas elementos para entender seu processo de produção. ‘Comecei a publicar para que não começassem a ganhar uma carga mitológica, que não possuem, definitivamente.’

Um homem avesso a auras mitológicas é também o que surge de uma rápida enquete que a Folha realizou entre alunos e ex-alunos de Piglia. Hoje professora da Universidade Torcuato Di Tella, Karina Galperín conta que a chegada dele ao curso de letras da Universidade de Buenos Aires, nos anos 90, foi cercada de grande expectativa. Os alunos já o admiravam e esperavam alguém com ‘mais estridência’ ou ‘mais excentricidade’.

Eis que, relata, chega à classe um homem pequeno, austeramente vestido (calça cinza, camisa celeste e blazer claro) que mal se apresentou e já foi puxando umas folhas de papel escritas à mão. Começou a falar e falou durante duas horas sem que nenhum aluno deixasse a sala. ‘Era um discurso hipnótico, ele discorria sobre literatura deixando a linguagem acadêmica de lado. Com isso, o espaço de discussão parecia uma conversa de café entre amigos leitores.’

MUSEU DA LEITURA Luis Othoniel Rosa, porto-riquenho que foi seu aluno em Princeton, diz que Piglia age como se fosse um ‘curador de um museu da leitura’, inventando uma nova tradição em sua seleção de textos. ‘Ele aprendeu isso com Borges, que também construía uma tradição literária muito própria para que os leitores entendessem seus contos.’

Parecidas são as impressões de outra aluna, Rebeca Fromm-Ayoroa, que está fazendo sua tese com Piglia, também em Princeton. ‘É um historiador, que ordena, arma constelações com processos que parecem estar desconectados, criando novas tradições.’

Assim como os diários, o escritor vê a universidade como um ‘laboratório’. ‘A universidade me oferece um espaço para reflexão, intervenção e discussão que é autônomo, que só depende da lógica acadêmica, que é diferente da lógica da cultura de massas’, diz. E dali podem eventualmente sair até mesmo personagens para o romance, como o forasteiro que incomoda o povoado de ‘Alvo Noturno’. Ele é porto-riquenho, como os tantos colegas e alunos que encontrou em Princeton -e não é estranho ao mundo rural argentino apenas por isso, mas também por ser negro.

‘A Argentina livrou-se de seus negros, mas eles deixaram rastros históricos’, diz o escritor. ‘No século 19, sua presença era tão forte a ponto de se converterem num elemento central na trama do ‘Martín Fierro’ (1872).’ No épico de José Hernández, um negro é morto pelo protagonista, o que causa profunda transformação no personagem. ‘Então pensei que trazer um negro [para o romance] seria um atrativo, um confronto ao racismo que hoje existe na Argentina.’

SÉRIES No ‘museu da leitura’ de Piglia, boa parte do espaço está dedicado à tradição norte-americana, que não se resume aos grandes autores como William Faulkner ou Henry James, mas também à ‘vulgaridade’ da literatura policial e seus correspondentes atuais, as séries de TV. O escritor diz que, nos anos 1960, não se sentia propriamente vigiado pelas patrulhas ideológicas, mas que essas afinidades eram vistas com certo preconceito. ‘Quando, em 1968, comecei a editar uma coleção de romances policiais norte-americanos, alguns intelectuais de esquerda começaram a dizer que o gênero era fascista.’

Igual estranheza talvez cause sua admiração pelos seriados de TV, como ‘The Wire’ e ‘Lost’. Piglia acredita que as séries estão cumprindo hoje o papel que o romance tinha no século 19. ‘Naquela época, o romance era popular, as pessoas esperavam os folhetins de Charles Dickens. Depois, esse mundo da literatura como narrativa social passou para o cinema.’ Isso teria deixado o romance solto, ‘obsoleto’, tornando possível o surgimento de autores como Joyce e Proust.

Em algumas passagens dos diários que a Folha vem publicando, o escritor comenta a elevação artística das séries de TV, que a seu ver se deve à obsolescência do formato, com o advento das redes sociais: ‘Só se torna artístico -só se politiza- o que caduca e está ‘atrasado’, escreveu.

A nova movimentação do processo estaria se dando agora do cinema para a TV e os computadores. ‘É o local onde as narrativas sociais estão circulando mais livremente’, conclui. E o escritor arrisca apontar para onde esses relatos irão depois, talvez até configurando um novo gênero, as mídias sociais.

Piglia, porém, ainda não se aventurou por essa vereda: não tem Twitter nem Facebook.

Se para ele os melhores autores americanos de hoje talvez sejam os roteiristas de séries, ‘o melhor narrador argentino hoje é [a cineasta] Lucrecia Martel’.

ALVO NOTURNO Na última entrevista que eu havia feito com o autor, em 2008, também em Buenos Aires, Piglia me dissera que o romance no qual vinha trabalhando tinha a ver com a Guerra das Malvinas (1982). A primeira pergunta que faço agora sobre o livro é, justamente, por que não há nenhuma menção ao conflito. ‘O texto foi mudando enquanto eu o escrevia, e se desviou completamente da ideia inicial.’

O título, porém, ficou, por estar relacionado a uma imagem que ainda vale para a história final. ‘Na época da guerra, eu fazia parte de um grupo que estava contra ela, o que contrastava com o clima de euforia na sociedade. Lembro-me de que as coisas demoraram a começar, porque os ingleses vinham vindo de navio para cá. Enquanto isso, líamos sobre eles nos jornais. Deixou-me impressionado saber que trariam uns óculos infravermelhos que lhes permitiam ver no escuro. Daí me veio a ideia do título, essa ambiguidade de ‘blanco’ como alvo e como o jogo entre branco e escuro.’

Em ‘Crítica y Ficción’ (1986), Piglia dissera que só há dois assuntos a se tratar num romance: uma viagem ou um crime. Pergunto se isso permanece válido, uma vez que ‘Alvo Noturno’, pelo menos à primeira vista, narra a história de um crime.

Ele ri. ‘Eu disse isso, é Bom, de certo modo, sim, acredito que são os dois grandes temas da literatura. A viagem é um grande sistema de relato, está na pré-história do romance. Alguém que vai a um lugar, vê algo, volta e conta. Outra grande tradição seria o crime, a que se segue uma investigação, e este é o coração da narrativa. Algo que não se compreende, que se vai construindo com testemunhos, vozes, rastros.’

‘Alvo Noturno’ apoia-se nesse segundo sistema.

FAMÍLIA Começa com uma investigação, num povoado do interior da Argentina, de um crime misterioso: um forasteiro é morto num hotel. Trata-se de um porto-riquenho que chegara à cidade pouco tempo atrás, envolvera-se com duas irmãs gêmeas de uma poderosa família local, os Belladona, e teria trazido consigo um considerável valor em dinheiro, cujo destino era desconhecido. Só que o romancista queria era contar uma história mais próxima, familiar.

E é por isso que ‘Alvo Noturno’ apenas à primeira vista é um livro policial. Na verdade, seus temas são outros: as relações entre parentes e o convívio entre cidade e campo na Argentina.

Luca, o protagonista, é irmão das duas belas gêmeas, que atiçam o imaginário masculino da cidade. Ele enlouqueceu depois que a fábrica da família teve de ser fechada e passou a viver ali dentro, sonhando com o dia em que ela poderia ser reaberta. O personagem é inspirado num primo seu.

Quando ‘Alvo Noturno’ foi apresentado na Feira do Livro de Guadalajara, em dezembro, o entrevistador de Piglia perguntou sobre essa relação pessoal do escritor com o protagonista. Ao que ele respondeu: ‘Sim, é verdade, o romance é a história de um filho de um irmão de meu pai, mas não se começa a contar uma história interessante desse jeito, então inventei um crime, um detetive, uma mala de dinheiro, um forasteiro, uma intriga sexual, senão não haveria romance’, o que fez a plateia rir. Outro personagem de ‘Alvo Noturno’ é o jornalista Renzi, recorrente na obra do escritor.

CAMPO E onde entra a relação de Buenos Aires com o interior? ‘Quando eu comecei a publicar, os de minha geração, como [Juan José] Saer, acreditávamos que havia algo implícito na literatura argentina, o embate entre a tradição rural, e aí encaixa-se ‘Don Segundo Sombra’ [de Ricardo Güiraldes] e certos textos de [Jorge Luis] Borges. Por outro lado, havia Roberto Arlt, que parecia algo que todos teríamos de seguir. As narrativas urbanas eram o nosso desafio. Depois, percebi que essa era uma polêmica que não tinha muito sentido, porque a literatura não é uma questão de temas.’

Piglia acredita que cada um encontrou seu caminho para resolver esse dilema. ‘Gosto de dialogar com essa tradição do campo argentino. Não só por conta dos autores que me permite evocar como inspiração’ -por exemplo, a geração de 1837 (Alberdi, Sarmiento e Echeverría) é referência constante em seus livros. ‘Mas porque no campo é possível lidar com um universo fechado, o que pode ser muito útil para um romance.’

Não por acaso, no povoado de ‘Alvo Noturno’, as pessoas se encontram mais de uma vez por dia. Veem-se na praça de manhã, no clube à noite, na corrida de cavalos no fim de semana. ‘É interessante trabalhar assim. O autor fica no controle de um grupo de personagens, sem que isso seja invadido pelo ruído da cidade ou ocorra o risco da dispersão que um grande centro urbano provoca.’

CRISE O campo também se fez presente em ‘Alvo Noturno’ no momento da escrita, durante o auge da crise da presidente Cristina Kirchner com os produtores rurais argentinos, em 2008, quando Piglia trabalhava no livro.

O governo anunciou um decreto aumentando taxas para exportações agrícolas. Os fazendeiros consideraram a medida um ‘confisco’ de seu dinheiro, promoveram bloqueios de estradas e falta de alguns alimentos na capital, causando imensas filas. O impasse durou quatro meses, até Cristina sofrer uma derrota no Senado, que derrubou a medida.

‘Questões muito interessantes surgiram na sociedade naquela época e incorporaram-se ao romance, como a discussão sobre se o campo era mesmo o lugar da inocência e das essências argentinas, dos homens decentes. Enquanto isso, víamos donos de terras que sabíamos que moravam aqui se disfarçando de gente do campo, colocando aquelas roupas, tomando aqueles emblemas que se supõe serem da gente do interior. Era um mito que se desnudava, o da pureza do mundo rural, o da distância da modernização que daria àqueles indivíduos uma espécie de qualidade moral.’

Por isso, no povoado de ‘Alvo Noturno’, há maldade, intrigas, drogas, crimes por encomenda, impunidade. ‘Passei a me divertir com a ideia de romper essa espécie de mito da gente inocente. Assim devem ser as intervenções dos escritores na política e na sociedade, sempre desviadas e irônicas.’

BATALHAS CULTURAIS Apesar das longas temporadas passadas nos EUA, Piglia não se considera afastado dos acontecimentos em seu país. Também não gosta de pensar em tentar intervir intelectualmente na vida americana. A sociedade à qual tem coisas a dizer seguirá sendo, assegura, a argentina, que vive verdadeiras batalhas culturais em torno do kirchnerismo e da eterna herança peronista, com embates em universidades, feiras de livros, jornais e instituições.

Entre os temas ‘positivos’ da agenda do casal Néstor (ex-presidente, morto no ano passado) e Cristina, Piglia enumera questões de direitos humanos, da desigualdade das riquezas, do casamento gay. ‘Coisas que já eram consideradas justas, mas nas quais não se podia mexer, em razão de um conservadorismo instalado.’ Também vê com bons olhos a ‘latino-americanização da perspectiva’, ou seja, o crescente interesse argentino em fazer alianças com países da região. ‘Nossa cultura sempre foi muito endogâmica, muito pouco atenta ao que estava passando na América Latina.’

O mesmo governo peronista que aprova o casamento gay move uma perseguição à imprensa crítica ao governo. A situação ambígua deixou os intelectuais mais divididos do que nunca, mesmo num país de forte tradição crítica como a Argentina.

‘A maioria vê o governo de Cristina como uma experiência de populismo e, por isso, anti-intelectual.’

PERONISMO Pelo fato de ter tido pai peronista, Piglia diz que entende muito bem como funciona sua política interna e os conflitos com as classes dominantes. ‘Não tenho ilusões com relação ao peronismo como elemento revolucionário.’

O pai de Piglia era médico e ativista, quando a família vivia em Adrogué. Em 1955, na chamada ‘Revolução Libertadora’, um golpe de Estado que tirou Perón do poder, passando este a mãos militares, sentiu-se perseguido na cidade e levou toda a família para viver em Mar del Plata. Ali fez parte de um dos grupos de resistência peronista que pediam a volta do líder. ‘Meu pai morreu em 1990, aos 75 anos, muito decepcionado com a política neoliberal de Carlos Saúl Menem, um peronista cínico da estirpe oportunista.’

Como tantos de seus compatriotas, Piglia tem dificuldades em definir o peronismo. ‘É uma forma política mutante, não é um partido no sentido clássico ou, em todo caso, é um partido tão amplo que, por momentos, incorpora todas as variantes da sociedade. Essa foi a grande criação de Perón, uma frente política baseada nos sindicatos mas com alianças em distintos setores sociais. A direita não conseguiu criar um espaço assim e, tradicionalmente, recorreu aos militares para resolver esse dilema. Em suma, o peronismo é como os sonhos na psicanálise: toda interpretação é válida.’

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