Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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MONITOR DA IMPRENSA >

Ernesto Rodrigues

09/12/2008 na edição 515

Roda Viva, 1º de dezembro

O Roda Viva com o engenheiro eletrônico e doutor em Matemática Waldemar Setzer deu uma pista importante para entendermos a razão pela qual o programa é o preferido entre as pessoas que detestam televisão. Dificilmente poderia existir entrevistado mais indicado para essa reflexão.

O professor Setzer, que detesta e não assiste televisão, aproveitou o espaço não para discutir, de forma plausível e enriquecedora, o papel social da TV e dos outros meios eletrônicos. Muito menos para propor alternativas saudáveis de interação de crianças e adultos com esses meios. Separar o lixo comercial dos conteúdos de qualidade? Também não. Discernir entretenimento sadio de apelação sensacionalista? Nem pensar.

Ao professor Setzer também não interessou reconhecer que a Internet, à parte a montanha de lixo que carrega, tornou-se acervo valioso, gigantesco e democrático de informação. Os argumentos de Setzer, uma espécie de versão satânica da tese de Marshal McLuham segundo a qual ‘o meio é a mensagem’, misturam pesquisas neurológicas com excêntricas subjetividades e confundem velocidade com pressa, diversidade com dispersão, felicidade infantil com rendimento escolar e lazer com doença.

O discurso controlador e profundamente paternalista de Setzer, em vez de antecipar tempos de felicidade para nossas crianças e adolescentes, aponta para um futuro que dá medo, algo a meio caminho entre as marchas da Revolução Cultural e os sombrios internatos de Roger Waters em ‘The Wall’. Isso porque a criança que ele quer ver longe da Internet e da televisão não parece ter a menor chance de se manifestar sobre o mundo autista e irreal que ele quer mobiliar para ela.

Até aí tudo bem. O professor Setzer, embora traído por uma colossal contradição logo na primeira frase – quando disse, feliz, que já poderia morrer, após ser entrevistado pelo Roda Viva – estava vendendo seu peixe. O que é de se lamentar é o fato de o programa, diante de tantas opções de entrevistados, ter cedido aquela prestigiada cadeira giratória para que a instituição da televisão e os profissionais que a fazem fossem desqualificados – quando não insultados – em uma conversa maniqueísta e pretensamente superior que só fez aprofundar o preconceito da intelectualidade e das classes A e B em relação ao veículo.

Muito provavelmente, a audiência foi boa. E deve ter sido porque a entrevista chamou atenção de muita gente pela natureza absurda das posições do professor Setzer. O saldo final, no entanto, não por culpa dos entrevistadores convidados, que se contiveram entre a perplexidade e a indignação, foi pobre e frustrante. Em vez da busca da qualidade, da excelência e do equilíbrio na relação entre jovens e adultos com os meios eletrônicos, o que se viu e ouviu foi uma tese que, resumida em uma frase do professor Setzer, considera esses meios ‘instrumentos fundamentais no processo de degradação completa da dignidade humana’.

Diante desse virtual tiro no pé que infelizmente será confundido com ousadia editorial, cabe perguntar: os responsáveis pelo convite ao entrevistado gostam de televisão ou, como o professor Setzer, só ligam o ‘aparelho’ para assistir o Roda Viva?

Conheça os pontos positivos e negativos da programação exibida na última semana. Saiba quais atrações da TV Cultura ganharam destaque e as que ainda podem melhorar.

Fibra

Balanço Social, 24 de novembro

Mereceria uma reprise – dentro do Jornal da Cultura, por exemplo, para ampliar o contingente impactado – a matéria de Ricardo Ferraz sobre o uso de fibras vegetais como a kurauá pela indústria automobilística. Com boas imagens da linha de montagem e entrevistas pertinentes de técnicos da Volkswagen e da Unicamp, a matéria ainda foi complementada por uma entrevista de Heródoto Barbeiro com o professor André Carvalho, da FGV. André, aliás, deixou uma frase marcante: ‘Num mundo onde ninguém quer consumir menos a única saída é nos ajoelharmos no altar da inovação’.

Jóia

Alto-Falante, 24 de novembro

A surpresa dessa edição foi o clipe ‘Fuso horário 1’, gravado em um plano-sequência num antiquário de Belo Horizonte, música (guitarra e acordeon) e câmera dos jovens fundadores da Outrorock TV. Merece estar em qualquer festival. Pra vencer.

Entrevista sustentável

Roda Viva, 24 de novembro

Apesar do tom contido, da timidez, da postura irremediavelmente low profile dos britânicos e, principalmente, das silenciosas legendas em português, o economista Nicholas Stern, autor em 2005 do primeiro grande estudo a tratar a questão ambiental do ponto de vista econômico, deu a medida da gravidade da situação – com o aumento da velocidade das emissões – mas também indicou o tipo de instrumento que poderá ser eficaz para combater as mudanças climáticas. Sem demonizações ou catastrofismos, mostrou que a saída e o caminho passam necessariamente pelos agentes atuais da economia e pela tecnologia, além das mudanças individuais de comportamento.

Trintão

Manos & Minas, 26 de novembro

A vibração dos grupos na platéia do Teatro Franco Zampari, ao serem apresentados por Rappin Hood, na edição número 30 do Manos & Minas, mostra que o programa não precisa de claques artificiais. O conteúdo dessa trigésima edição, aliás, confirmou, mais uma vez, a proposta do programa de ser um olhar rico, plural, representativo e sem preconceitos sobre o que efetivamente acontece na periferia de São Paulo em termos culturais, artísticos e comunitários. E para os telespectadores que estranham, alguns até flertando com o preconceito social, as influências e linguagens não exatamente brasileiras presentes no script do programa, essa edição deixou claro que o Manos & Minas continua sendo acima de tudo brasileiro.

Mostra tudo!

Jornal da Cultura, 27 de novembro

O texto que acompanhou as imagens dos que se aproveitaram da tragédia de Santa Catarina para saquear até uísque importado de um supermercado teve a dureza e a franqueza que a situação exigia, por maior que tenha sido a vergonha que nos causou. E as imagens, mostrando claramente quem estava se aproveitando daquele arrastão malandro, foram um exemplo perfeito de quando, em vez de proteger, o jornalismo tem o dever de identificar claramente quem comete um crime – no caso, acrescido de um insulto – contra uma cidade traumatizada.

Entrevista mono

Móbile, 26 de novembro

Lima Duarte deu mais um show na entrevista a Fernando Faro. O que é difícil de compreender é que a entrevista não tenha sido a abertura do Móbile e que, em não sendo, não ter merecido uma chamada antes do difícil ‘Os móbiles e estábiles de Nelson de Magalhães’, monólogo ilustrado de 4m23s que abriu o programa. Por conta dessa inversão – e da falta da chamada para a entrevista de Lima Duarte – a média de audiência do programa certamente foi menor. E continua sendo difícil entender, também, a razão pela qual o telespectador, mais uma vez, não teve o privilégio de ouvir a voz (e o conteúdo) de Fernando Faro durante a entrevista, até mesmo nos momentos em que Lima Duarte inverteu o jogo e começou a fazer perguntas para ele.

Amadorismo à mineira

Alto-Falante, 24 de novembro

Continuam destoando a performance declamada e amadora da jovem apresentadora e uma captação de áudio quase inaceitável para um programa musical chamado ‘Alto-Falante’, e que teve seu momento mais grave na entrevista da baterista Patrícia, no quadro Ferramenta. Também permanece o olhar às vezes excessivamente local – no caso, belorizontino demais – para um programa exibido nacionalmente.

Confusão no ar

Jornal da Cultura, 24 de novembro

Alguém do mundo da televisão já disse que um telejornal – qualquer telejornal, em qualquer lugar – é uma experiência que tem um toque de esquizofrenia, tal a violência do enxugamento e da hierarquização que os editores têm de aplicar aos fatos que pretendem resumir. Daí a importância de um espelho ou script que facilite a vida do telespectador, encadeando assuntos que se relacionam entre si, agrupando matérias por ‘editorias’, destacando as notícias a partir do seu potencial de impacto, abrindo com o mais importante e fechando com o mais interessante, entre outras recomendações que não são obrigatórias mas ajudam. A paginação do Jornal da Cultura de 21 de setembro foi tão confusa que parecia até uma experiência alternativa a esse modelo consagrado mundialmente. O script estava confuso e a hierarquização editorial, incompreensível.

Pintou sujeira ou não?

Manos & Minas, 26 de novembro

Pena que o olhar abrangente e plural não tenha prevalecido no tratamento dado pelo Manos & Minas à polêmica sobre a invasão da Bienal por pichadores e ao ‘atropelamento’, também por parte de pichadores, de espaços já desenhados por grafiteiros na cidade de São Paulo. Estavam lá, naturalmente, o pichador Djan e o gratiteiro Binho defendendo o ataque à Bienal como, nas palavras de Binho, ‘uma ação conceitual bem montada no espaço da elite da cidade’. Não havia, porém, ninguém se posicionando sobre a postura agresssiva e violenta dos invasores, a importância artística prá lá de discutível do que eles fizeram e a condenação dos que vêem os grafiteiros e pichadores como usurpadores do direito dos cidadãos que dividem com eles os espaços públicos da cidade. Havia material com esse conteúdo nos arquivos do Jornal da Cultura e do Metrópolis, caso não houvesse tempo de produzir entrevistas com todos os lados da questão. No final, Rappin Hood encerrou o assunto desejando ‘muita ética, muita paz aos grafiteiros e pichadores de São Paulo’. Foi pouco para um programa que tem sido sinônimo de diversidade e plurarismo.

***

Sufocos gratificantes

(SOS Santa Catarina, 30 de novembro)

Condenar o programa SOS Santa Catarina pelos notórios – e às vezes graves – problemas de áudio e pelo script tumultuado seria equivalente, guardadas as devidas proporções, a condenar um bombeiro pelo fato de ele não ter usado uniforme, corda e capacete na hora em que salvou uma criança da enchente.

O desconforto causado pelos tropeços operacionais e pela duração para alguns exagerada do programa foram inegáveis, mas falaram mais bem mais alto o esforço de mobilização, a presença maciça e o astral inabalável dos apresentadores da emissora, e também o esforço da maioria dos músicos convidados na hora de superar as deficiencias técnicas que encontraram no Anhembi.

Para a TV Cultura, em particular, o SOS Santa Catarina foi mais uma boa oportunidade para que a emissora trocasse, por algumas horas, sua grade predominantemente pré-gravada, olímpica e sem sustos pelas emoções e desafios da interação ao vivo com sua razão de ser, o telespectador, conectada aos acontecimentos que estão mexendo com o país e que não cabem apenas no script dos telejornais.

Valeu, enfim, o sufoco.

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Trinta programas depois…

(Manos & Minas, 27 de novembro)

A vibração dos grupos na platéia do Teatro Franco Zampari, ao serem apresentados por Rappin Hood, na edição número 30 do Manos & Minas, mostra que o programa não precisa de claques artificiais. O conteúdo dessa trigésima edição, aliás, confirmou, mais uma vez, a proposta do programa de ser um olhar rico, plural, representativo e sem preconceitos sobre o que efetivamente acontece na periferia de São Paulo em termos culturais, artísticos e comunitários. E para os telespectadores que estranham, alguns até flertando com o preconceito social, as influências e linguagens não exatamente brasileiras presentes no script do programa, essa edição deixou claro que o Manos & Minas continua sendo acima de tudo brasileiro.

Que o digam a convidada do dia, a cantora Fabiana Cozza, a reportagem de Juju Denden como ‘deusa do ébano’ no Ulê Aiyê – o bloco de Carnaval que se tornou um centro de celebração, preservação e expansão da cultura negra – e a reportagem sobre as aderecistas da escola de samba Imperador de Ipiranga.

Pena que o olhar abrangente e plural não tenha prevalecido no tratamento dado pelo Manos & Minas à polêmica sobre a invasão da Bienal por pichadores e ao ‘atropelamento’, também por parte de pichadores, de espaços já desenhados por grafiteiros na cidade de São Paulo. A reportagem tinha, naturalmente, o pichador Djan e o gratiteiro Binho defendendo o ataque à Bienal como, nas palavras de Binho, ‘uma ação conceitual bem montada no espaço da elite da cidade’.

Não havia, porém, ninguém se posicionando sobre a postura agresssiva e violenta dos invasores, a importância artística prá lá de discutível do que eles fizeram e a condenação dos que vêem os grafiteiros e pichadores como usurpadores do direito dos cidadãos que dividem com eles os espaços públicos da cidade.

Havia material com esse conteúdo nos arquivos do Jornal da Cultura e do Metrópolis, caso não houvesse tempo de produzir entrevistas com todos os lados da questão. No final, Rappin Hood encerrou o assunto desejando ‘muita ética, muita paz aos grafiteiros e pichadores de São Paulo’.

Foi pouco para um programa que tem sido sinônimo de diversidade e plurarismo.’

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