Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MONITOR DA IMPRENSA > TV CULTURA

Ernesto Rodrigues

27/01/2009 na edição 522

Roda Viva, 19 de janeiro

‘A Enciclopédia Britânica também é excelente, apenas um pouco pequena’.

Não deve ter sido a primeira vez em que Jimmy Wales, principal fundador da Wikipédia, saboreou o fenômeno internético em que sua enciclopédia participativa se transformou. Ainda assim, o Roda Viva em torno dele foi um programa interessante no qual Lillian Witte Fibe e os quatro entrevistadores convidados – o professor e sociólogo Sérgio Amadeu, o editor do caderno Link do Estadão, Otávio Dias, o ombudsman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins e Silva, e o coordenador de Novas Mídias da TV Cultura, Ricardo Mucci – foram competentes porta-vozes das dúvidas e curiosidades do telespectador médio sobre as virtudes e defeitos dessa nova forma de acumular e organizar conhecimento.

As críticas e dúvidas se concentraram na vulnerabilidade maior da Wikipédia ao enviesamento ideológico e à disseminação de ódios e mentiras, na imprecisão sobre os critérios de edição e de hierarquização compartilhada – à revelia, portanto, dos mecanismos de reputação tradicionais – e em uma certa descrença geral de que a Wikipédia seja mesmo um empreendimento sem fins lucrativos.

Jimmy Wales não foi preciso ou claro em todas as respostas sobre a Wikipédia, notadamente as que tentavam calcular o dinheiro que ele ganha, mas ofereceu uma boa oportunidade para mais uma rodada de um debate que está muito longe de acabar: o que trata das fronteiras éticas, comerciais, financeiras e tecnológicas da Internet. Incluindo as perspectivas do chamado ‘jornalismo cidadão’ – que Wales não vê substituindo, mas complementando o jornalismo tradicional – o descompasso da legislação com as possibilidades criadas pela rede, os meios de proteção contra hackers e ataques virtuais, a sustentabilidade dos negócios na Internet e a garantia – ou não – do direito autoral.

Em favor de Wales é preciso dizer que pelo menos parte das respostas ele não deu simplesmente porque elas não existem ou porque elas, como a Wikipédia, ainda estão sendo construídas.

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Sintonia

Nossa Língua, 19 de janeiro

A entrevista com a professora, escritora, linguista e consultora legistativa Dad Squarisi, diferentemente das de alguns convidados recentes da área musical, pôs, com certeza, o Nossa Língua do dia 19 de janeiro em sintonia direta com os telespectadores que têm interesse acadêmico, profissional ou diletante por um programa de TV sobre a língua portuguesa.

Não só pelo tipo de atividade da entrevistada, intrinsecamente ligada ao uso da língua, mas também pela curiosa e franca definição que ela fez de seu trabalho no Congresso Nacional: o de redigir discursos e projetos de lei por encomenda dos senadores, sobre qualquer assunto, contra, a favor e muito antes pelo contrário.

Em tom de brincadeira, referindo-se ao caráter técnico de seu trabalho, Dad, ao se identificar como uma ghostwriter, definiu esse tipo de profissional como ‘a criatura mais sem caráter que existe’. Como contraponto, acrescentou que tem outro trabalho no qual emprega seu conhecimento da língua: o de editorialista do ‘Correio Braziliense’. Além disso, discutiu, com o professor Pasquale, outros assuntos pertinentes à temática do programa como a ‘chatice’ dos professores de português e a importância do uso do padrão culto da língua em certas atividades.

Ainda que presa a impropriedades ou inadequações de formato já mencionadas aqui, a entrevista mostrou que este é o caminho para a consolidação da identidade do programa.

***

Virtual Clandestinidade

Caixa de mensagens (Balanço) 19 de janeiro

Depois do balanço das análises e textos publicados nesta coluna desde abril de 2008, resta apresentar a estatística referente aos 526 emails enviados a este ombudsman, até o final de dezembro passado, com críticas, sugestões, elogios à programação da TV Cultura. É importante ressalvar que a classificação temática dos emails certamente esteve sujeita aos riscos inerentes a todo resumo ou síntese e que, no manuseio dos emails, houve uma perda involuntária de 5% deles, ou cerca de 25 mensagens, considerando-se o total de emails recebidos.

Fundamental, porém, no sentido de evitar que conclusões equivocadas sejam tiradas dessa estatística, é lembrar que a página do ombudsman no site da TV Cultura, longe de ser o único canal de comunicação do público com a emissora, é apenas o mais recente deles e, exatamente por isso, o mais desconhecido do telespectador médio da emissora.

Outro cuidado que se impõe, na análise desta estatística, é o de não estabelecermos uma relação direta e proporcional entre volume de mensagens e audiência. Por razões que vão desde a freqüência e a facilidade com que certos públicos usam ou não emails em seu cotidiano aos diferentes potenciais de mobilização ou participação inerentes a cada programa, seria temerário encarar, automaticamente, os resultados da estatística como certificados de virtudes ou de defeitos desses programas.

O volume de emails, mais que modesto em se tratando do universo potencial de audiência da TV aberta em geral – e da TV Cultura em particular – não apenas relativiza e enfraquece a estatística, tornando-a dramaticamente afetada por fenômenos de mobilização como a que aconteceu em torno de duas entrevistas do programa Roda Viva (ver quadros abaixo). Ele também confirma a ainda precária visibilidade da instituição do Ombudsman. E reforça a necessidade urgente de a emissora viabilizar a presença regular do ombudsman, seja ele quem for, na grade de programação. Só assim este instrumento democrático, introduzido pioneiramente na televisão brasileira pela TV Cultura, terá condições de ser mais representativo dos interesses do cidadão-contribuinte.

Feitas as ressalvas, as estatísticas dos emails enviados ao ombudsman revelam fenômenos e comportamentos instigantes e reveladores. Vamos a elas:

Os mais comentados

RODA VIVA 253 48,1%
JORNAL DA CULTURA 28 5,3%
OMBUDSMAN 24 4,6%
PROGRAMAÇÃO 23 4,4%
INFANTIL 16 3,0%
FALTA OU FALHAS DE SINAL 15 2,9%
MISSA DE APARECIDA 12 2,3%
TROCA-TROCA DE HORÁRIOS 12 2,3%
CAFÉ FILOSÓFICO 9 1,7%
CLÁSSICOS 9 1,7%

 

Mais impressionante do que a estatística de 48,1% de emails referentes ao Roda Viva é o fato de que 84,6% das mensagens ao programa se referem a apenas duas entrevistas: a do presidente do STF, Gilmar Mendes, e a do delegado Protógenes Queiroz, realizadas consecutivamente no final do ano passado. As outras 19 edições do Roda Viva que foram o ar no período em que a página do ombudsman esteve no ar provocaram os restantes 15,4% do total dos emails relacionados ao programa.

Vale registrar que, mesmo sem considerar os 214 emails referentes às entrevistas de Mendes e Protógenes – e independentemente do intenso debate político que os dois programas deflagraram na Internet – o Roda Viva continua sendo o programa que mais levou os telespectadores a fazerem contato com o ombudsman.

Confira a estatística, sem as duas entrevistas citadas:

Os mais comentados (*)

RODA VIVA 3912,5%
JORNAL DA CULTURA 289,0%
OMBUDSMAN 247,7%
PROGRAMAÇÃO 237,4%
INFANTIL 165,1%
PROBLEMAS DE SINAL 154,8%
MISSA DE APARECIDA 123,8%
TROCA-TROCA DE HORÁRIOS 123,8%
CAFÉ FILOSÓFICO 92,9%
CLÁSSICOS 92,9%

(*) – Sem considerar as entrevistas de Gilmar Mendes e Protógenes Queiroz

 

Os mais criticados

RODA VIVA GILMAR MENDES & PROTÓGENES 21462,2%
RODA VIVA 32 9,3%
JORNAL DA CULTURA 19 5,5%
OMBUDSMAN 14 4,1%
MISSA DE APARECIDA 12 3,5%
PROGRAMAÇÃO INFANTIL 9 2,6%
PUBLICIDADE 8 2,3%
METRÓPOLIS 3 2,3%
PROGRAMAÇÃO 3 2,3%
DIFICULDADE DE CONTATO 3 2,3%

 

Os mais criticados (*)

RODA VIVA 32 9,3%
JORNAL DA CULTURA 19 5,5%
OMBUDSMAN 14 4,1%
MISSA DE APARECIDA 12 3,5%
PROGRAMAÇÃO INFANTIL 9 2,6%
PUBLICIDADE 8 2,3%
METRÓPOLIS 3 2,3%
PROGRAMAÇÃO 3 2,3%
DIFICULDADE DE CONTATO 3 2,3%

(*) – Sem considerar as entrevistas de Gilmar Mendes e Protógenes Queiroz

 

Os mais elogiados

PROGRAMAÇÃO 11 23,9%
OMBUDSMAN 7 15,2%
PROVOCAÇÕES 6 13,0%
JORNAL DA CULTURA 4 8,7%
CLÁSSICOS 3 6,5%
MANOS E MINAS 3 6,5%
ESPECIAIS CULTURA 2 4,3%
INFANTIL 2 4,3%
PÉ NA RUA 2 4,3%
RODA VIVA 2 4,3%

 

Sugestões

FILMES 6 16,2%
PROGRAMAÇÃO 6 16,2%
CAFÉ FILOSÓFICO 3 8,1%
JORNAL DA CULTURA 3 8,1%
PAUTAS JORNALÍSTICAS 3 8,1%
CLÁSSICOS 2 5,4%
INVESTIMENTO 2 5,4%
MUSICAL 2 5,4%
CINE BRASIL 1 2,7%
VOLTA COMENTÁRIO GERAL 1 2,7%

 

Pedidos de contato

SR. BRASIL 5 12,8%
PEDIDOS DE EMPREGO 4 10,3%
DESEJO DE COMPRAR DVDS 3 7,7%
OMBUDSMAN 3 7,7%
PEDIDOS DE REPRISES 3 7,7%
RODA VIVA 3 7,7%
GRANDES MOMENTOS DO ESPORTE 2 5,1%
NOSSA LÍNGUA 2 5,1%
MANOS E MINAS 2 5,1%
MÓBILE 2 5,1%

 

Problemas técnicos

SINAL RUIM OU INEXISTENTE 13 65,0%
RÁDIO CULTURA 3 15,0%
ALTA DEFINIÇÃO 2 10,0%
CLOSE CAPTION 2 10,0%

 

Horários

TROCA-TROCA DE HORÁRIOS (QUEIXAS) 12 36,4%
CAFÉ FILOSÓFICO (MUITO TARDE) 5 15,2%
CLÁSSICOS (MUITO TARDE) 3 9,1%
INFANTIL 3 9,1%
MAIS CEDO 3 9,1%
DIVERCINE 2 6,1%
MAIS TARDE 1 3,0%
ENSAIO 1 3,0%
JORNAL DA CULTURA 1 3,0%
LETRA LIVRE 1 3,0%

 

***

Fronteiras culturais

A’Uwe, 14 de janeiro

A propósito da edição do ‘A’Uwe’ exibida no dia 14 de janeiro, fiz o seguinte comentário na análise interna de ontem:

Não há dúvidas de que a série ‘Vídeo nas Aldeias’, que vem sendo exibida pelo ‘A’Uwe’, deve ser assistida na perspectiva de conhecermos o que já foi descrito como ‘o processo de apropriação dos meios audiovisuais pelos índios até a recente produção de autoria indígena’.

Mas a exibição do episódio ‘Kiarãsâ yõ sâti, o amendoim da cutia’, no programa de 14 janeiro, mostrando o cotidiano da aldeia Panara durante a colheita do amendoim, tinha uma sequência que, considerando o veículo e o horário de exibição – início da noite, com telespectadores remanescentes do horário infantil – merecia não uma censura ou qualquer tipo de corte, mas uma cuidadosa contextualização, ou através do apresentador Marcos Palmeira ou com um a narração em off.

É que, para mostrar um dos costumes da aldeia – o de fazer cortes nas pernas das mulheres com dentes de paca ‘para que eles fiquem com as coxas grossas’ – os realizadores do documentário filmaram o momento em que uma jovem índia, nua e aos gritos, reagia à tentativa de um grupo de índios que a imobilizavam pelos braços e pernas de riscar seu peito em carne viva. Um ritual que assemelhava-se, assutadoramente, a uma sessão de tortura.

O documentário mostra que a índia reagiu muito e que os homens acabaram não conseguindo ‘riscá-la’. Mas o desconforto que a cena causou – para não citar eventuais efeitos traumáticos no público infantil – sugere um cuidado maior dos responsáveis do programa na exibição de manifestações culturais tão drasticamente diferentes como esse ritual. Principalmente em uma emissora na qual até personagens mais agressivos, pouco edificantes ou assustadores de desenho animado costumam merecer severa condenação de parte dos telespectadores.

Transcrevo abaixo a resposta imediata que recebi de Laine Milan, da direção do programa:

Caro Ernesto,

Provavelmente você tenha razão – e tenha me faltado distanciamento em relação a eventuais cortes no documentário ‘O Amendoim da Cotia’. Havia cenas, neste mesmo documentário, que conseguimos cortar, num acordo com os realizadores. Cenas que expunham certa ironia sobre a sexualidade, principalmente a feminina.

É preciso, de qualquer forma, ter muito cuidado na interpretação do universo indígena, permeado por crenças e mitos. Temos nos guiado pela certeza de que é fundamental olhar esses documentários sem ‘pré-conceitos’ – e sem julgamento.

De qualquer forma, sua observação é importante, pois faz um link com nosso público. Grata, mais uma vez.

Laine Milan’

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