Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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MONITOR DA IMPRENSA >

Ernesto Rodrigues

28/04/2009 na edição 535

‘A produção impecável, a fotografia profissional que aproveita todo o potencial cenográfico da casa visitada, a inserção inteligente e moderna de grafismos e de takes de detalhes que ilustram à perfeição os conceitos e explicações, a trilha e os efeitos sonoros adequados ao formato, a edição mais que afinada com a temperatura do veículo televisão, a dupla eficiente de apresentadores, os personagens bem-preparados para as entrevistas em forma de conversas informais e, claro, a importância do tema da sustentabilidade fazem, do programa Eco Prático, uma das melhores novidades da nova programação da TV Cultura.

Tantos acertos no formato – comparáveis aos de produções semelhantes da BBC na área comportamental – não isentam o programa de alguns reparos, principalmente do contingente nada desprezível de telespectadores que, longe de serem fervorosos adeptos da causa da sustentabilidade prontos para transformações radicais, são resistentes a ela, têm argumentos legítimos para dar outra dimensão às iniciativas individuais nessa área e, em vez de levar pitos bem-humorados, precisam ser conquistados pela causa.

No episódio gravado na confortável casa de três andares da família Ferreira, no bairro do Morumbi, o comportamento e o texto suave dos apresentadores Anelis Assumpção e Peri Pane não conseguiam esconder, na tentativa de ‘limpar os maus hábitos’ da casa, um mal-contido tom professoral e autoritário que pode ter espantado ou afugentado muitos telespectadores. Especialmente na hora em que a reluzente coleção de eletrodomésticos da casa foi tratada como uma quadrilha de bandidos comandados pelo forno de microondas, apresentado por Peri como ‘chefe da quadrilha’ de gastadores de energia.

Paradoxalmente, a revelação dos detalhes da quase mansão – do imenso closet onde Malan Ferreira mal conseguia contar o número de pares de calçados à cozinha de filme de Hollywood – certamente deixou outro contingente de telespectadores mais próximo do deslumbramento com a casa de sonho de consumo do que das severas lições de sustentabilidade. E se pensarmos que, ao final da visita que prometia ‘mudar tudo’ e deixar a família ‘muito mais eco’, nenhum dos quatro ocupantes da casa – mãe, dois filhos e empregada Ceci – deixou de lado nenhum eletrodoméstico e a transformação mais radical foi a de acabar com uma infiltração e trocar a janela do quarto de Ceci, o paradoxo entre o discurso dos apresentadores e o resultado prático de sua incursão ficou ainda maior.

Se o objetivo dos realizadores era o de disseminar mais – e de maneira profunda e consolidada – o comportamento sustentável entre os telespectadores, o Eco Prático corre o risco de servir mais – e talvez somente – aos que já estão pra lá de convencidos pela proposta do programa. E que já preferem macarrão integral, hortas orgânicas, sacolas de pano e outras alternativas saudadas pelos apresentadores. A saída para obter um alcance e um impacto maior desta bela produção de televisão talvez fosse considerar todas as implicações de uma frase que o próprio programa usou no episódio com a família Ferreira: ‘Sustentabilidade e bem-estar andam de mãos dadas’.

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Um pé no estúdio, outro na academia, 24 de abril

A proposta do Roda Viva era perguntar e obter respostas do historiador Carlos Guilherme Mota sobre quem somos nós, os brasileiros, e que futuro nós temos como nação. Apesar da postura comunicativa típica dos bons professores, da linguagem corporal envolvente e da atenção aos entrevistadores, Mota fez questão de justificar os muitos preâmbulos e ressalvas que comprometeram a objetividade de suas respostas com uma provocação: ‘Não sou sociólogo. Se fosse, responderia taxativamente’.

Na prática, em boa parte do programa, o fato é que ele acabou se rendendo à tentação de um colóquio acadêmico – às vezes inalcançável para a maioria absoluta dos telespectadores – com o ex-governador Cláudio Lembo, um dos entrevistadores. Nesses momentos, as citações nem sempre foram compreensíveis como as que ele fez de frases de Raymundo Faoro (‘As principais idéias da Revolução Francesa não atravessaram o Atlântico’) e de Caio Prado Jr. (‘Toda a história do Brasil sempre foi um negócio’).

Enquanto durou o diálogo de especialistas alheios às câmeras de tv, nem Mota nem seus entrevistadores se preocuparam em explicar o que significam a ‘sociedade estamental escravista’ que, para ele, ainda somos, a lumpen-burguesia e o lumpen- proletariado que estão, segundo ele, aparelhando a máquina do estado brasileiro, os jacobinos brasileiros que ele e Cláudio Lembo tentaram identificar durante todo o programa, o ‘iberismo’ que ele quis evitar, a ‘revolução burguesa’ que ele disse não ter havido por aqui, a falta de respeito aos contratos no Brasil e como a ‘sociedade do espetáculo’ e o marketing estão nos impedindo de enxergar a continuidade e a permanência da luta de classes.

Entre os entrevistadores, o jornalista Oscar Pilagallo foi o que mais tentou contribuir para que o debate descesse do panteão da academia e tratasse de questões mais polêmicas, atuais e compreensíveis para o tipo de telespectador predominante do Roda Viva, ao insistir que Mota analisasse mais detalhadamente o governo Lula, ao pedir a opinião do entrevistado sobre o viés marxista de alguns livros didáticos adotados na rede pública de ensino e ao questionar o professor quando ele sugeriu que os oligarcas da República Velha eram mais sérios, responsáveis e progressistas que os atuais.

Houve momentos, claro, em que a conversa foi mais democrática. Como quando Mota disse que Fernando Henrique e Lula não cabem na classificação de neoliberal e neopopulista, respectivamente. Ou quando ele falou do coronelismo eletrônico, do silêncio da universidade brasileira, da ‘democracia traída’, dos partidos políticos invertebrados e do um vulcão social que, segundo ele, ainda arde sob nossos pés. Mas não sobrou muito tempo para aprofundar esses temas.

Tanto não sobrou que quando Carlos Guilherme Mota foi polêmico – ao defender o MST e dizer que sustentabilidade é uma maneira de novos yuppies administrarem o mesmo capitalismo de sempre – o programa já estava no final. Uma pena.

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Não vi e gostei, 23 de abril

O colunista Marcelo Coelho, a julgar pelo conteúdo de seu artigo ‘TV Cultura, passado e futuro’, publicado na Ilustrada de 22 de abril, parece fazer parte da honrada legião de formadores de opinião de São Paulo que gostam muito da TV Cultura e detestam as emissoras comerciais, mesmo não assistindo muito nem à TV Cultura nem às outras. Alguém poderá dizer que Marcelo tem mais o que fazer, como outros intelectuais que, também fãs da TV Cultura, não se importam com o que ele qualificou, no artigo, de ‘desertos de audiência’ da emissora.

Também como outros integrantes da elite cultural paulistana – que, de forma legítima e bem-intencionada, ajudaram a construir e consolidar o grande prestígio cultural e institucional da TV Cultura – Marcelo, mesmo dizendo que não é nostálgico, praticamente só se refere à programação infantil ou educativa que marcou sua distante infância e aos antológicos ‘Castelo Rá-Tim-Bum’ e ‘Confissões de Adolescente’, programas que não o pegaram na juventude.

Do que passa hoje na tela da TV Cultura, ele só citou, elogiando, as vinhetas de menos de um minuto de duração do professor Pasquale Cipro Neto sobre a reforma ortográfica. Infelizmente, Marcelo não parece conhecer a nova – e ótima – temporada do ‘Nossa Língua’, programa semanal comandado pelo mesmo professor Pasquale, com a excepcional participação do jovem humorista Felipe Reis.

Ainda assim, baseado na convicção de que ‘o problema de investir na Cultura é, sem dúvida, o caráter inquantificável de seu retorno, seja em votos, seja em audiência’, Marcelo sugere que a discussão sobre audiência não é tão importante e pergunta: ‘Como falar que algo seja do interesse público quando o público simplesmente não assiste ao que deveria interessá-lo? Há muitas respostas a essa questão’.

Cabe perguntar: quem define o que é (de) interesse público? Desistimos todos, então, do desafio diário de ampliar, sem perda de qualidade, a audiência e o impacto social da programação da TV Cultura?

Abençoamos automaticamente, sem ao menos assistir, tudo o que passa – e da maneira que passa – na tela da emissora? Continuamos nos ‘desertos de audiência’, longe dos milhões de cidadãos contribuintes paulistas que, ao contrário dos fãs socialmente mais favorecidos da emissora, só têm a televisão aberta como veículo de entretenimento e informação?

Marcelo, infelizmente, não discute de forma mais ampla e detalhada, em seu artigo, a qualidade, o alcance ou o interesse público, qualquer que seja a definição que ele dê à expressão, da grade atual de programação da TV Cultura. São dezenas de programas dos núcleos de Arte e Cultura, Musical Jornalismo, Documentários, Educação, Infantil, Juvenil, Esporte e Aventura, Cidadania e Meio Ambiente. Por outro lado, mostrou, no final de seu texto, que sabe por onde começa esse debate crucial, ao dizer-se convicto de que ‘não existe nada inscrito de nascença, no DNA de um programa, que o faça público ou comercial’ e de que a função da TV pública deve ser a de ‘criar audiência’, em vez de apenas ‘ter’ ou ‘não ter’.

É mais que um bom começo, em uma discussão que costuma ser empobrecida pela política patidária, pelos conflitos corporativos, pela visão preconceituosa e elitista da televisão como veículo de comunicação de massa, pela demonização automática das complexas verdades do Ibope e pelo absurdo que é defender ou atacar um tipo de programação sem se sentir no dever de ao menos assistir um pouco mais de televisão.

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Diálogos possíveis 22 de abril

Qualquer pessoa que trabalhe em televisão, em qualquer lugar do planeta, sabe que uma boa abertura é fundamental. Nesse sentido, a abertura da série ‘Tudo o que é sólido pode derreter’ é um gol de placa. Livre dos espasmos de editite que costumam adornar quase tudo o que é endereçado aos jovens e sem as pirotecnias virtuais que se tornaram previsíveis e enfadonhas nesse tipo de programa, aquela sucessão de cenários e personagens que brotam de um livro, sob o olhar e o semblante reveladores da protagonista Thereza, deixam claro, desde o primeiro minuto, que o conteúdo é especial.

Outra qualidade que se percebe imediatamente é o investimento que a série fez na multiplicidade de cenários e locações, tanto em ambientes fixos como os da casa de Thereza e os das instalações da escola quanto nos episódicos, como a escola de natação, o laboratório de análises clínicas, as esquinas do centro de São Paulo, o gabinete dentário e o lago onde Thereza passeou de barco com o tio. Tudo feito, diga-se, com profissionalismo e competência em matéria de direção de fotografia, cenografia, iluminação, direção de arte e captação de áudio.

A julgar pelos três primeiros episódios, a série encara a proposta ‘ver a literatura de uma forma audiovisual inédita’ de forma realista. Não tem a arrogância professoral e o paternalismo estético e cultural que costumam ser mal-disfarçados em produções desse tipo e que acabam por afastar definitivamente o público jovem dos livros. Exemplo: já nas primeiras frases do primeiro episódio, Thereza diz, em sua narração, que ‘ninguém gosta de aula de literatura’.

Com cuidado e tentando ficar longe da chatice, a série procura o tempo todo provocar diálogos do universo literário – no caso, o das obras de Gil Vicente, Padre Antonio Vieira e Luiz de Camões – com o cotidiano de uma adolescente típica de São Paulo, sem abandonar, no entanto, o compromisso fundamental de contar uma história interessante para o telespectador adolescente.

Esse conceito se revela tanto na linguagem dos personagens (‘Bizarra essa história de achar sermão obra de arte’) quanto nos momentos em que o roteiro caminha sem depender da literatura, como na passagem em que o tio falecido de Thereza ensina: ‘A tristeza é como chicletes, Thereza. Você precisa mastigar até virar aquela massa sem graça e sem gosto. Depois a gente cospe’.

A edição ágil e moderna permite, sem confundir, inserções narrativas interessantes como as fantasias de Thereza, suas conversas com o tio falecido, a antecipação da imagem autoritária do pai do amigo Marcos e a bronca redentora do padre Antonio Vieira em Dalila, a colega exibicionista de Thereza, em plena sala de aula.

Não chega a ser um problema sério, mas, pelo menos para uma parte de seus telespectadores potenciais, a série ‘Tudo o que é sólido pode derreter’ devesse ter um volume maior de inserções de diálogo ou narrações do mundo de Thereza com as emoções e idéias do universo literário da língua portuguesa. Eles poderiam substituir ou enriquecer certos silêncios e patinadas de narrativa que, em alguns momentos dos três primeiros episódios, aproximaram a série de modelos que já se provaram distantes do apetite acelerado do público juvenil.’

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