Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MONITOR DA IMPRENSA > TV CULTURA

Ernesto Rodrigues

02/03/2010 na edição 579

‘Uma telespectadora de Carapicuíba (SP) enviou um email dizendo-se contrariada com a exibição de comerciais nos intervalos da programação da TV Cultura, mas resignou-se com o fim dos ‘bons tempos’, concluindo que a emissora ‘já teria fechado’ se não pudesse contar com a receita dos anunciantes. Tal resignação, no entanto, dá lugar à indignação quando a telespectadora protesta contra a atual quantidade do que ela chama de programas repetidos.

Chamemos essa prática de repetição, reprise, reapresentação ou de horário alternativo, não há como discordar da telespectadora quando nos vemos diante de uma grade noturna na qual, na prática, apenas os programas jornalísticos – Jornal da Cultura e Metrópolis – têm sido inéditos e, pela própria razão de ser, ao vivo.

Mais grave ainda que a falta de conteúdos inéditos – principalmente no caso do Programa Novo (sem trocadilho) – é, no entanto, a omissão ou insuficiência de inserções informativas (em vídeo ou em áudio) que deem, ao telespectador, condições de descobrir, com um mínimo de rapidez, que está diante de um programa já exibido ou antigo. E de decidir, soberanamente, se quer continuar assistindo esse programa.

Não há sentimento mais danoso à chamada relação de fidelidade do telespectador com uma emissora do que o de estar sendo enganado ou desrespeitado, seja quando há uma falta de clareza quanto ao ineditismo ou quando, de forma deliberada, a emissora não revela ou esconde a idade às vezes pra lá de avançada de um determinado conteúdo.

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Um clássico contra o elitismo, 24 de fevereiro

Nem sempre o previsível é sinônimo de repetição chata, redundância ou de algo (ou alguém) ultrapassado e anacrônico. Foi o caso do Roda Viva de 22 de fevereiro, com o pianista e maestro João Carlos Martins.

Sua emocionante história pessoal e profissional, assim como sua atual empreitada pela formação de público e de jovens instrumentistas de música clássica, por já terem sido tema de livros e de documentários, não são exatamente uma novidade para determinados públicos.

Para um expressivo contingente de telespectadores, no entanto, o Roda Viva foi uma bela oportunidade para que mais brasileiros conhecessem, se impressionassem e se inspirassem na figura e na história de João Carlos Martins. E, mesmo para quem já conhecia o maestro, a entrevista acabou sendo mais uma chance de reflexão sobre superação pessoal, políticas culturais, cidadania, responsabilidade social e, claro, música. Todas as músicas, aliás.

De quebra, o maestro deixou, do alto da façanha de já ter sido um intérprete consagrado de mais de 400 obras de J.S. Bach, algumas lições para quem gosta de plantar cancelas elitistas, passaportes culturais e impedimentos acadêmicos no território livre da música.

Com a ajuda de um teclado, ele temperou suas respostas com trechos não apenas de Bach, Mozart e Bethoven, mas também de Piazzola e de Ennio Morricone. Nada mais apropriado para uma entrevista de televisão com um músico profissional.

No final, Martins fez uma sugestão que serve tanto para os músicos clássicos como para quem produz conteúdo para emissoras de TV públicas no Brasil: propôs que os profissionais dediquem pelo menos 20% de seu tempo para iniciativas voltadas à formação de público.

Vale para a Sala São Paulo e para qualquer controle remoto de TV aberta.

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Sinal de novos tempos, 23 de fevereiro

A propósito das recentes colunas e transcrições de emails relacionados ao ‘desaparecimento’ do sinal da TV Cultura e de seus conteúdos da programação de outras emissoras do país, recebi do presidente da Fundação Padre Anchieta, Paulo Markun, um email que considero esclarecedor sobre a questão. A transcrição:

‘A TV Cultura tem concessão e retransmissão dentro do Estado de São Paulo – e leva sua programação de qualidade a centenas de municípios. Mas vai além: fora dos limites da terra paulista, muitas emissoras educativo-culturais, geralmente ligadas aos governos estaduais, retransmitem, pelo menos em parte, nossa programação. É assim em Minas, é assim na Bahia, por exemplo.

A TV Cultura distribui ainda seu sinal por satélite para ser captado em 20 milhões de antenas parabólicas analógicas e digitais espalhadas pelo país e se faz presente nas operadoras de TV a cabo e por assinatura em DTH como Sky, Telefônica, Nossa TV e Oi TV.

Durante muitos anos, a Cultura e a TVE do Rio serviram de provedoras de conteúdo para outras emissoras estaduais. O surgimento da Empresa Brasileira de Comunicação e sua ferramenta principal, a TV Brasil, com orçamento e vocação para uma presença nacional, mudaram esse panorama. A TVE foi incorporada pela EBC que posicionou-se como cabeça de uma rede verticalizada à semelhança das organizadas pelas emissoras comerciais. E a TV Cultura decidiu por um caminho distinto, que não promove a concorrência, nem admite submissão.

Como resultado dessa nova postura, a atitude paternalista vem sendo substituída por acordos pontuais e flexíveis com emissoras educativas ou comerciais, em pacotes ajustados às necessidades de cada uma, sem interesse, obrigação ou ônus da Cultura em ser ‘cabeça de rede’.

Se o Estado de São Paulo investe mais de R$ 80 milhões/ano, com esforço, para produzir ou comprar os programas exibidos por sua TV pública, por que outros Estados, interessados nesses programas, devem recebê-los graciosamente? Por que não ajudam a custeá-los, na medida de suas possibilidades?

Mesmo sem integrar a rede liderada pela TV Brasil, temos quatro de nossoss melhores programas -’Roda Viva’, ‘Viola Minha Viola’, ‘Cocoricó’ e ‘Vila Sésamo’- exibidos há quase dois anos pela emissora federal e afiliadas, com base num contrato de retransmissão que aporta recursos importantes para sua própria manutenção e aperfeiçoamento.

Recentemente, a Rede Minas adquiriu um pacote anual de dez programas pelo valor mensal equivalente ao custo de produção de um único episódio de um desses produtos. Negociações semelhantes acontecem com as TVs Educativas do Rio Grande do Sul e do Paraná, a TV Brasil Central (GO) e outras emissoras.

A TV Cultura, portanto, não abandonou seu projeto de rede, apenas adaptou-o à nova realidade. Uma nova realidade que permite estimular ainda a produção local das emissoras regionais em parceria com a TV Cultura. E, claro, queremos também aumentar nossa visibilidade com as novas tecnologias.

Alguns programas da TV Cultura estão disponíveis na Web e outros podem ser acessados na telefonia móvel com as operadoras Claro e Vivo. Todas essas ações têm um objetivo: garantir a oferta de uma programação de qualidade com educação, cultura, informação e formação crítica para o exercício da cidadania. Essa é a principal marca da TV Cultura com seus 40 anos de vida.

Paulo Markun

Presidente da Fundação Padre Anchieta’.

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Uma resposta e muitos silêncios, 22 de fevereiro

E continua a longa temporada de queixas, sugestões e pedidos de explicação de telespectadores que não tiveram resposta alguma por parte dos responsáveis pelos conteúdos de vários programas da TV Cultura. Antes de, teimosamente, transcrever mais uma leva, faço questão de destacar a honrosa exceção protagonizada pelo editor-chefe do programa Cartão Verde, Vladir Lemos, que respondeu imediatamente a uma queixa publicada aqui na última sexta-feira, dia 19, sob o título ‘Esportivas’. No caso, era um telespectador contrariado com a impossibilidade de participar, por telefone, de uma promoção do programa. A resposta de Vladir:

Caro Ernesto Rodrigues

Conversei com a pessoa que cuidou das ligações no dia citado pelo nosso telespectador. Nossos procedimentos foram os de sempre. Temos, realmente, uma única linha disponível. Mas é a primeira vez que recebo uma reclamação de alguém dizendo que o telefone, tempo depois, chamou e não foi atendido. Caso queira me passar o endereço eletrônico do telespectador citado, faço questão de entrar em contato com ele.

Abraço

Vladir Lemos

Agora, mais alguns emails de telespectadores cujo conteúdo este ombudsman considera representativo e pertinente:

A súplica de um sem-assinatura

‘Há uns meses atrás, no horário das 20h, tinha como opção o Cultura Discovery. Como não possuo assinatura, esses documentários vinham para me suprir essa carência no horário no qual fico refém de coisas futeis. E não era o único a assistir. Onde trabalho, de 10 pessoas, seis assistiam. Gostaria de saber se esses documentários voltarão à Cultura. E por qual motivo algo muito bom foi tirado sem mais nem menos da grade de programação.’

(Geraldo Ferreira, Santo André, SP)

Fã e crítica

‘Primeiramente, gostaria de parabenizar a emissora pelos 40 anos. Gostaria também de manifestar apoio à sua ánalise do documentário ‘Diários de Sintra’. Juro que tentei assistí-lo, mas a falta de enredo e ausência de legendas me fizeram desistir. Fiquei profundamente decepcionada e intrigada de ver como um tema tão interessante se tornou algo tão mal construído. Acredito que, como tv educativa, a emissora tem como função principal informar, promover o debate e incentivar também experimentação. Gostaria também de saber quando o programa Divercine voltará a ser exibido na minha região? E por que os capítulos da série ‘Tudo que é sólido pode derreter’ são sempre exibidos aqui fora da ordem? Aproveito a oportunidade para implorar que seja feita a 2ª temporada.’

(Janaína Santos, Nova Lima, MG)

Utópicas

‘Acabo de assistir Ricardo Goldenberg, que no Café Filosófico tratou da ‘A utopia do autoconhecimento’. No geral, as reflexões foram bem pontuadas e localizadas no pensamento e referências apresentadas pelo psicanalista. No entanto, quando foi tratar da questão dos efeitos do racismo sobre os sujeitos, me pareceu apresentar elementos muitos empobrecidos sobre a complexidade desse tema arenoso. Quando tratou de todos os elementos que convocavam exemplo, trouxe questões enfrentadas, por ele, tanto pessoalmente ou como especialista. Quando percebeu que era igualmente necessária a exemplificação da questão do racismo como vitimização lucrativa para os negros, trouxe uma elaboração hipotética e grave que não explicitou como sendo verídica ou uma construção retórica. Penso que o espaço do Café Filosófico precisa explorar, em profundidade, o sofrimento psíquico gerado pela experiência do racismo e segregação sistemáticos, incluídas as experiências judias e as limpezas étnicas correlatas mundo afora.’

(Milton Alves Santos, São Paulo, SP)’

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