Domingo, 19 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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MONITOR DA IMPRENSA >

Estúdio exige que imprensa não divulgue dados roubados

Por lgarcia em 17/12/2014 na edição 829

A Sony Pictures Entertainment advertiu organizações jornalísticas americanas para que não mais divulguem os dados corporativos vazados por crackers que invadiram seus sistemas. Em uma carta enviada a diversos órgãos de imprensa, incluindo o New York Times, o advogado da companhia, David Boies, caracterizou os documentos como “informação roubada” e pediu que todo o material que chegasse à imprensa e agências de notícias fosse destruído. “Caso o pedido não seja respeitado”, dizia um trecho da carta, “a Sony não terá escolha senão responsabilizá-lo por quaisquer danos ou perdas resultantes do uso ou divulgação de dados”.

A ação da Sony chega 20 dias depois que os primeiros crackers invadiram seus sistemas e divulgaram uma série de dados confidenciais, incluindo informações sobre salários pagos a atores, negociações comerciais e trocas de e-mails entre diretores, produtores e estrelas de Hollywood, como George Clooney. Muitos veículos publicaram as mensagens, incluindo os sites Gawker, Mashable, BuzzFeed e Daily Beast, a revista New York, o jornal New York Post e até mesmo o canal de TV CNN. (Obviamente, o conteúdo foi replicado em diversos países, inclusive em grandes veículos brasileiros).

Suposta retaliação 

Suspeita-se que a invasão tenha sido encomendada pelo governo da Coréia do Norte em retaliação à comédia A Entrevista, cuja trama envolve uma tentativa de assassinar o líder norte-coreano Kim Jong-un. O governo, no entanto, nega qualquer participação no roubo de documentos.

Os crackers, que pertencem a um grupo que se identifica como “Guardiões da Paz”, prometeram expor mais dados caso a Sony mantenha o lançamento do filme em pauta e chegaram a fazer ameaças com referências aos ataques de 11 de setembro de 2001.

Mordaça

O advogado Kurt Opsahl, da ONG Electronic Frontier Foundation, declarou duvidar que os veículos de comunicação possam ser obrigados a não publicar o material da Sony, ainda que o mesmo tenha sido obtido de forma ilegal. “É lamentável que o sistema da Sony tenha sido invadido e que o controle sobre sua informação interna tenha sido perdido”, afirmou Opsahl. “Mas a solução não é amordaçar a imprensa”.

Curiosamente, a Sony é a única grande companhia ligada a estúdios de cinema que não possui um braço no nicho dos noticiários (como é o caso da Warner com o TMZ e da Disney com a ABC).

A Sony também buscou o apoio de outros estúdios, mas não obteve o resultado esperado. Muitos se recusam a comentar o assunto até mesmo por temer estar fazendo publicidade indireta para a concorrente. De fato, poucos figurões da indústria apoiaram a Sony abertamente; foram eles: Douglas Wick (ex-produtor dos estúdios Sony); Judd Apatow (produtor de comédias como O virgem de 40 anos); Seth Grahame-Smith (roteirista e autor do livro Orgulho e preconceito e zumbis); Philip Lord (diretor do filme Uma aventura Lego); e Aaron Sorkin (roteirista de séries como The West Wing).

Questão ética

Jacob Weisberg, presidente e editor-chefe do grupo Slate, publicou um artigo comentando a delicada posição da Sony. Weisberg diz que a decisão de não publicar o material crackeado deveria ser baseada na ética e no respeito do direito de livre expressão, e não em pressão legal. Ele crê que agências de notícias devem, sim, cobrir a invasão aos sistemas da Sony, mas que o foco deveria ser no porquê dos acontecimentos e na fonte dos ataques, não na exploração do conteúdo do material confidencial.

Weisberg também fez um paralelo ao episódio do WikiLeaks e às divulgações feitas por Edward Snowden. “A diferença [entre um caso e outro] é o assunto de interesse público. No caso Snowden, os e-mails roubados revelaram abusos de poder. As divulgações expuseram práticas que até mesmo o presidente Obama admitiu como deploráveis uma vez que o assunto veio à tona. E, neste caso, os jornalistas do Guardian, do New York Times e do Washington Post levaram a sério a obrigação de equilibrar o interesse público com o potencial das informações de provocar danos às pessoas e risco à segurança nacional”, escreveu. “Já na situação da Sony, é difícil enxergar qualquer interesse público. Os e-mails roubados são mais comparáveis às fotos nuas de Jennifer Lawrence. É claro que as pessoas queriam ver as fotos. Mas, nesse caso, até mesmo a imprensa-marrom reconheceu que não havia justificativa para a violação maciça de privacidade que o episódio implicava”, concluiu. 

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