Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

MONITOR DA IMPRENSA > 11 DE SETEMBRO

Estudo sugere submissão de jornais ao governo Bush

Por Leticia Nunes (edição), com Larriza Thurler em 06/07/2010 na edição 597

Estudo divulgado na semana passada sobre a cobertura dos quatro maiores jornais nos EUA revelou que, logo após os ataques terroristas de setembro de 2001, houve uma mudança dramática na cobertura de táticas de interrogatório. Alunos do Centro de Imprensa, Política e Políticas Públicas Joan Shorenstein, da Universidade de Harvard, analisaram artigos do USA Today, New York Times, Wall Street Journal e Los Angeles Times e concluíram que, mais de 70 anos antes dos ataques, a lei americana e os maiores jornais do país classificavam a técnica de afogamento simulado como tortura. No entanto, depois das revelações, em 2004, de que os EUA teriam usado a técnica com suspeitos de atividade terrorista, a mídia parece ter suavizado sua classificação.

De acordo com a pesquisa, o New York Times classificou o afogamento simulado como tortura em 44 de 54 artigos que mencionaram a prática entre 1931 a 1999. Em contrapartida, o diário considerou a prática tortura ou implicou que fosse tortura em apenas dois de 143 artigos publicados entre 2002 e 2008. O Los Angeles Times afirmou que a técnica era tortura em 26 de 27 matérias de 1931 a 1999, e em três de 63 artigos analisados de 2002 a 2008. O Wall Street Journal caracterizou a prática como tortura em apenas uma de 63 matérias no mesmo período, e o USA Today nunca chamou o afogamento simulado de tortura.

Curiosamente, quando se trata de outros países que não os EUA, os jornais estão mais inclinados a considerar a prática como tortura. No NYTimes, 28 de 33 artigos sobre o uso de afogamento simulado por países estrangeiros diziam se tratar de tortura; no Los Angeles Times, 21 de 23 artigos faziam o mesmo. Para alguns pesquisadores, o estudo sugere que as maiores organizações de mídia do país foram submissas à administração do então presidente George W. Bush depois dos ataques terroristas de 2001.

Imprecisão

Segundo Bill Keller, editor-executivo do New York Times, o estudo é tendencioso e impreciso por focar no uso do termo politicamente correto nas matérias e não no conteúdo e na quantidade de artigos sobre o tema. ‘Aqueles que defendem a prática de afogamento simulado – inclusive da adminstração Bush – não a consideram como tortura. No entanto, descrevemos brilhantemente a prática e observamos que ela é denunciada por organizações de direitos humanos como forma de tortura. Ninguém que lesse a cobertura do jornal ficaria sem saber da amplitude da prática ou a confundiria com algo benigno (usamos normalmente a palavra ‘brutal’)’, afirmou.

O editor de padrões do NYTimes, Phil Corbett, explicou que não há uma regra oficial sobre quando ou como usar o termo ‘tortura’. ‘Em geral, quando se escreve sobre temas polêmicos, controversos e com teor político, tentamos ser precisos e neutros’, disse. No entanto, alguns críticos, como Greg Sargent, blogueiro do Washington Post, escreveu recentemente que o NYTimes escolheu sim um lado nas disputas política e jurídica. ‘Ninguém está dizendo que o NYTimes deveria ter adotado o papel de juiz e júri e ter proclamado culpada a administração Bush. O ponto é que, ao não usar a palavra ‘tortura’, tomou partido de Bush’, afirmou.

Outros jornais, além do NYTimes, publicaram matérias debatendo a classificação da prática como tortura. Muitos colunistas e editores defenderam se tratar de ‘uma forma de tortura’. Para Cameron W. Barr, editor nacional de segurança do Washington Post, depois de o uso do termo ‘tortura’ ter se tornado polêmico, o jornal optou por não usá-lo para classificar a prática de afogamento simulado ou de outras técnicas de interrogatório autorizadas pelo governo Bush. ‘Mas geralmente citamos outros descrevendo a prática como tortura’, disse. Informações de Brian Stelter [New York Times, 2/7/10].

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