Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MONITOR DA IMPRENSA > IMPRENSA MEXICANA

Excélsior de cara nova e futuro incerto

Por Wladir Dupont em 03/04/2006 na edição 375

Com toda certeza a nova geração de leitores mexicanos aceita as mudanças com naturalidade, até as aplaude, mas o que restou da velha geração, ao redor de 15 mil assinantes ainda fiéis ao jornal, deve ter ficado meio chocada com a cara nova do diário Excélsior, em circulação há 89 anos e que já foi um dos dez grandes veículos da América Latina. Não sobrou nada do velho jornal – nem gráfica nem editorialmente.

Nos últimos quatro anos, afundado numa desesperadora crise financeira, com perda acelerada de leitores, publicidade e sobretudo credibilidade, o jornal e a cooperativa que o administrava procuravam, para sair do buraco, um capitalista disposto a investir pesado numa empresa à beira da falência. Este mecenas surgiu dois meses atrás na pessoa do poderoso empresário local Olegário Vázquez Raña, que finalmente bateu o martelo em 55 milhões de dólares, passivo incluído, prometendo uma ampla reformulação editorial e gráfico-visual.

Há pouco mais de uma semana, apoiado por uma campanha com cartazes em paradas de ônibus da Cidade do México sob o lema ‘Cambiemos el discurso’ (Vamos mudar o discurso), o jornal estreou sua nova paginação numa edição dominical que aboliu e borrou de forma avassaladora qualquer resquício dos velhos tempos, até mesmo o clássico logotipo.

Concorrência forte. E criativa

Em curto e grosso editorial, os novos donos garantem, porém, que não se trata só de uma mudança de imagem: assumem um novo compromisso com os leitores ao transformar o jornal num ‘espaço aberto à diversidade cultural e ideológica, oferecendo uma informação completa, precisa, contextualizada, objetiva, útil, livre de amarras, e respeitosa da intimidade e a honra das pessoas. No Excélsior acreditamos que esse jornalismo é necessário e possível, que se pode mudar o discurso’.

Tudo isso, obviamente, como dizem os mexicanos, ‘está por verse’ – em bom português o nosso popular ‘vamos esperar para ver’. Só o tempo e alguns ameaçadores fatores mercadológicos, entre eles o veloz desdobramento informático (informação online e blogs), dirão se o Excélsior e sua nova equipe de redação e do departamento comercial poderão recuperar leitores e atrair anunciantes. E este desafio se dá num campo no qual a concorrência (Reforma, El Universal, La Jornada, entre outros) é forte e criativa, não deixando brechas para assaltos vindos do outro lado da rua. E mais: em termos gráficos-visuais, o novo Excélsior pouco oferece de diferente dos demais jornais do país.

Imagem como prioridade

De fato, por conta dos padrões gráficos já fixados pela internet, o jornal é bastante parecido aos da concorrência, com profusão de fotos grandes, mapinhas, estatísticas, boxes, enfim, o joguinho visual típico da imprensa dos dias atuais, no mundo inteiro, em certo detrimento de espaços dedicados a textos com análises mais profundas dos fatos e tendências. Exageros que parecem já haver sido detectados e podem, portanto, ser eliminados adiante.

Embora todo cadernizado e colorido, como manda o figurino vigente, o novo Excélsior se esforça para apresentar aos leitores uma equipe editorial de bom nível, com ênfase numa mistura de novos e veteranos jornalistas. Entre os novos, por exemplo, estão o colunista econômico David Páramo, já conhecido do público por suas claras e incisivas intervenções na TV, o analista de assuntos internacionais León Krause e o comentarista de futebol David Failteson, também egresso da TV.

Entre os veteranos, o destaque é para o crítico cultural Humberto Musacchio, que deixou o Reforma para aventurar-se no Excélsior, repetindo, às segundas-feiras, sua ferina e certeira coluna sobre as glórias e misérias das conflitivas igrejinhas literárias mexicanas. Outros colunistas de renome reforçam o campo da análise política nacional, como é o caso de Leo Zuckerman, José Antonio Crespo, Jorge Fernández Menéndez, e o escritor René Avilés Fabila.

Por toda sua histórica e batalhadora trajetória, e em solidariedade aos dolorosos tempos iniciados em julho de 1976, quando o então presidente Luís Echeverría, furioso com a linha editorial crítica, mandou capangas invadir o jornal e dele expulsar o diretor de redação Julio Scherer e equipe, o Excélsior merece levantar a cabeça e de novo ocupar seu lugar dentro do bom jornalismo mexicano. Coisa que dependerá em boa parte dos novos leitores, cada vez mais deslumbrados com ilustrações feéricas e pouca reflexão. Terão tempo, gosto e paciência para garimpar bons textos em meio ao mosaico multicolorido que é hoje uma sombra do jornalão cinzento – e competente – do passado?

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Jornalista e escritor brasileiro radicado na Cidade do México

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