Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

MONITOR DA IMPRENSA > REDES SOCIAIS

Facebook recebe críticas por experiência com usuários

Por lgarcia em 02/07/2014 na edição 805

Tradução: Fernanda Lizardo, edição de Leticia Nunes. Com informações de Alex Hern [“Facebook deliberately made people sad. This ought to be the final straw”, The Guardian, 30/6/14]; de Charlie Brooker [“Time for the emperors-in-waiting who run Facebook to just admit they're evil”, The Guardian, 30/6/14]; de Reed Albergotti [“Furor Erupts Over Facebook's Experiment on Users”, The Wall Street Journal, 30/6/14]; e de Sarah Gray [“Facebook’s creepy psychology experiment being investigated in the UK”, Salon, 2/7/14]

Durante uma semana de janeiro de 2012, o Facebook manipulou o feed de notícias de cerca de 700 mil usuários a fim de avaliar se o conteúdo exibido na rede social era capaz de afetar as emoções daqueles que o vissem. O experimento era parte de uma pesquisa em colaboração com as universidades de Cornell e da Califórnia, em São Francisco, e foi divulgado na PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), uma prestigiada revista científica.

O estudo examinou perfis do Facebook com o objetivo de descobrir se a exposição a emoções específicas era capaz de afetar o humor dos indivíduos. Para isso, alguns usuários tiveram 90% de todas as mensagens “positivas” removidas de seu feed de notícias durante uma semana. Em seguida, foi feita uma avaliação das postagens destes mesmos usuários – a maioria delas de cunho pessimista – e provou-se que, sim, era possível ser influenciado pelo que se lia nas redes sociais. Outros usuários passaram pela experiência contrária, tendo a maior parte das mensagens “negativas” excluídas de seu feed – e, desta forma, reagiram com postagens mais positivas.

A divulgação de experiência enfureceu usuários do Facebook. Adam Kramer, cientista de dados da rede social e responsável por liderar a pesquisa, explicou as motivações da empresa em um post divulgado em sua conta no dia 29 de junho: “Fizemos esta pesquisa porque nos preocupamos com o impacto emocional do Facebook sobre as pessoas que usam nosso produto. Sentimos que era importante investigar a preocupação comum de que ver os amigos postando conteúdo positivo poderia levar as pessoas a sentirem-se inferiores ou excluídas. Ao mesmo tempo, estávamos preocupados que a exposição à negatividade dos amigos pudesse levar as pessoas a evitar visitar o Facebook”.

“Nós não usamos a internet, ela nos usa”

A justificativa de Kramer, no entanto, não foi suficiente para acalmar os ânimos. Alex Hern, jornalista do diário britânico The Guardian que não tem conta no Facebook desde fevereiro deste ano, questionou a manipulação das emoções, justificando que, caso algum usuário que teve seu feed manipulado sofresse de depressão ou doença mental, este poderia ter seu estado consideravelmente piorado ao se deparar com um excesso de notícias negativas na rede.

Ele também discutiu o poder do Facebook em nossas vidas: “Acho que o que sentimos ao nos flagrarmos como ratos de laboratório do Facebook é uma profunda inquietação, pois nos damos conta de que algo que consideramos como pouco mais do que um meio de comunicação é na verdade muito mais poderoso”.

Charlie Brooker, também do Guardian, foi mais irônico em suas colocações. Disse que não é novidade que as grandes empresas da internet saibam tanto sobre seus usuários – “Nós não usamos a internet, ela nos usa”, afirmou – e fez chacota do estudo do Facebook. “Contágio emocional é aquilo que costumávamos chamar de empatia”, minimizou.

Reed Albergotti, do Wall Street Journal, lembrou que redes sociais como Facebook e Google+ fazem manipulação e coleta de dados desde seus primórdios, a fim de redirecionar sua publicidade da melhor forma – e nem sempre revelando de que maneira tais dados são armazenados ou utilizados. Mas destacou que manipular as emoções dos usuários ultrapassa os limites do bom senso.

Questões éticas

Embora os termos de serviço do Facebook (que obrigatoriamente devem ser aceitos no ato do cadastro) prevejam o uso de informações de seus usuários como convier à empresa, Kate Crawford, professora convidada do Centro de Mídia Cívica do MIT e pesquisadora na Microsoft Research, diz que é completamente inaceitável que o Facebook obrigue seus usuários a participar de pesquisas científicas e aponta que cientistas de dados necessitam discutir questões éticas durante sua formação.

Kramer defendeu a ética do projeto e justificou que o impacto real sobre os indivíduos estudados foi mínimo, apenas o suficiente para “detectá-lo estatisticamente”. Mas nem todo mundo concorda com isso. No mesmo post em que Kramer justificou a pesquisa, a usuária Kate LeFranc, de Newark, Delaware, comentou: “Agradeço por sua declaração, mas manipulação emocional é manipulação emocional, não importa o quão pequena seja a amostra afetada”.

Independentemente das discussões levantadas pelo estudo, o Gabinete do Comissário de Informação (ICO) britânico, órgão regulador de dados do Reino Unido, abriu uma investigação em conjunto com reguladores irlandeses e com a sede europeia do Facebook, em Dublin, para sondar se a empresa violou alguma lei de proteção de dados ao realizar a experiência. Caso o ICO comprove alguma irregularidade, poderá condenar o Facebook a pagar multas ou a modificar suas políticas de relacionamento com o usuário.

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