Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

MONITOR DA IMPRENSA > ‘THE WASHINGTON POST’

Família Graham, sinônimo do ‘Post’ e de Washington

Por Robert Barnes e David A. Fahrenthold em 15/08/2013 na edição 759

Tradução de Jô Amado, edição de Larriza Thurler e informações de Robert Barnes e David A. Fahrenthold [“The Grahams: A family synonymous with The Post and with Washington”, The Washington Post, 6/8/13]

Começou por uma venda devido a uma falência, em 1933, quando um empresário republicano, e confidente do presidente, se reinventou a si próprio como diretor de um jornal na capital da nação. Terminou com o anúncio de que seus descendentes haviam vendido o jornal a um mago da internet que vive no estado de Washington, do outro lado do país.

Nesse meio tempo, o Washington Post e a família coletivamente conhecida como os Grahams tornaram-se inseparáveis, indistinguíveis. Foram a realeza do jornalismo ao redor do mundo, mas continuavam sendo nitidamente de Washington, como o policial fazendo a ronda. (O que, por sinal, um deles foi.) De Eugene Meyer para Philip L. Graham, para Katharine Graham, para Donald Graham, para Katharine Weymouth, foi sempre uma questão de saber quando passar o poder de uma geração para a seguinte, e não se isso iria ocorrer.

Até segunda-feira (5/8). A família Graham – um ícone de Washington e do jornalismo, devido ao jornal que dirigia – havia tomado uma decisão assombrosa. O Post, segundo disseram, ficaria melhor sem eles. “Nós adoramos o jornal, aquilo que ele defendia e as pessoas que o fizeram”, dizia uma carta de Donald Graham, presidente e CEO da Washington Post Co. “Mas o motivo de sermos os donos sempre foi o de que supostamente isso era bom para o Post.” E acrescentou: “Nós tínhamos certeza de que o jornal iria sobreviver enquanto nossa propriedade, mas queríamos que fizesse mais do que isso. Queríamos que fosse bem-sucedido.”

A grande mudança

Foi o mesmo que aconteceu há 80 anos, quando Meyer, nascido na Califórnia, enviou um representante à ex-sede do Post, na E Street. Sua proposta levou o jornal falido por 825 mil dólares e seu nome não foi divulgado como novo dono por 12 dias. Ele redigiu o anúncio da venda e manifestou suas intenções: “Será conduzido como um jornal independente, comprometido com os principais interesses do povo de Washington e vizinhança e espera contar com seu interesse e apoio.”

Em 1915, quando tinha 40 anos, dizia-se que a fortuna de Meyer era de 50 a 60 milhões de dólares. Quando comprou o Post, tinha 57 anos e havia recentemente presidido a diretoria do Banco Central [Federal Reserve]. No texto que escreveu, ele enfatizava o termo “independente” para dissipar os boatos de que o jornal seria um porta-voz do Partido Republicano. Ele disse que o Post seria guiado por sete princípios e o último deles dizia: “O jornal não será aliado de qualquer interesse em particular e será justo, livre e saudável em sua avaliação geral dos assuntos e dos homens públicos.” Meyer despejou sua fortuna no Post e era um animador entusiástico. Dizia-se que tentou vender uma assinatura ao taxista em que estava antes de sair do carro.

Mas a grande mudança chegou ao Post 21 anos após a compra, quando Meyer e seu genro, Philip L. Graham, compraram seu concorrente diário, o Washington Times-Herald. “Para o Post, isso significou duplicar a circulação, um monopólio da imprensa matutina e, num período de cinco anos, a compra do jornal The Star, tradicional líder em publicidade, em Washington”, diz o repórter do jornal Chalmers Roberts numa reportagem que escreveu sobre o Post.

Uma liderança no empresariado

Graham, que tinha sido escrivão na Suprema Corte, era brilhante e carismático e tinha grandes ambições e problemas sérios. Tronou-se diretor do jornal aos 31 anos de idade e Meyer deu um jeito de que tivesse mais ações da empresa do que sua própria filha Katharine, a quem ele explicou que “nenhum homem deve ficar numa posição de trabalhar para sua mulher”. A senhora Graham não se opôs. “Eu via que fazia, cada vez mais, o papel da rabiola da pipa dele e quanto mais eu ficava na sombra, mais isso se tornava uma realidade”, escreveu Katharine Graham em sua autobiografia Personal History, que ganhou um prêmio Pulitzer.

Philip Graham lutou contra uma doença mental e acabou suicidando-se em 1963. Sua viúva, de 47 anos, teve que enfrentar uma decisão: vender o jornal ou dirigi-lo por si própria. Foi o início de uma longa carreira para Katharine Graham que coincidiu – e acabou simbolizando – duas poderosas tendências. A primeira era o papel das mulheres como líderes na vida norte-americana. A segunda era a ascensão da elite permanente de Washington, uma órbita de não eleitos que cresceu com a capital federal e exerceu um poder suave nos que detinham o poder bruto.

Katharine Graham não só se tornou uma liderança no empresariado americano como um centro de conexão e influência na sociedade de Washington. Quando escreveu seu best-seller autobiográfico, a escritora Nora Ephron destacou, numa resenha: “A história de sua trajetória, de filha para esposa, para viúva, para mulher, é paralela, num grau surpreendente, à história das mulheres neste século.”

Agente de polícia

O legado de Katharine Graham ao Post foi definido pela escolha que fez do editor, Benjamin C. Bradlee, e por uma série de crises jornalísticas. Em 1971, um juiz havia determinado que o New York Times parasse de publicar reportagens sobre os Papéis do Pentágono, uma história secreta oficial da guerra do Vietnã. O Post conseguiu um exemplar. “Assustada e tensa, dei um trago grande e disse ‘Vamos em frente, vamos em frente. Vamos. Vamos publicar’,” ela se lembra de ter dito.

Ela ficou mais conhecida pelo apoio que deu a Ben Bradlee e aos dois repórteres, Bob Woodward e Carl Bernstein, durante a série de reportagens sobre a invasão de Watergate. Aquela história, que tinha sido motivo de zombaria pelos repórteres mais badalados – do Post e de outros veículos – levou à renúncia do presidente Richard M. Nixon e tornou-se a mais famosa da história do jornalismo dos Estados Unidos. “Era um pequeno grupo de pessoas, da editoria Metropolitana, contra o mundo. Só que nós tínhamos o apoio de Ben Bradlee e Katharine Graham”, disse Leonard Downie Jr., que era editor daquela editoria durante o caso Watergate e foi editor-executivo do jornal de 1991 a 2008.

Mais tarde, em1975, Katharine Graham enfrentou uma greve do sindicato dos gráficos, um período tenso em que as máquinas foram quebradas e a edição tinha que ser levada de helicóptero para outras gráficas. Em 1979, Donald E. Graham, com 33 anos, tornou-se a geração seguinte a dirigir o Post. “Hoje, como no resto de minha vida, minha mãe me encarregou de fazer algo que nada tem de fácil”, disse. Donald Graham fazia frequentemente piadas sobre como tinha conseguido seu trabalho, mas deu duro para superar o que tinha sido uma vida de privilégios. Serviu no Vietnã e aprendeu tudo o que era possível sobre o Post. Trabalhou como repórter e editor, vendedor de publicidade, supervisor de produção e em muitos outros papéis nas equipes administrativa e editorial do Post. Mas antes de tudo isso, ele foi um agente de polícia porque, assim como sua mãe, queria “ficar mais familiarizado com a cidade, com seus cidadãos e seus problemas”.

Histórias sobre a influência em Washington

Enquanto Katharine Graham era majestosa, Donald Graham era um publisher de pé-no-chão e tinha melhores fontes na cidade do que a maioria dos repórteres do seu jornal. Tinha orgulho de saber o nome de praticamente todas as pessoas que trabalhavam no prédio. “Eu detestava entrar no elevador com Don porque tenho uma memória terrível para nomes”, disse Leonard Downie. “Ele sabia o nome de todo mundo, do nono andar até o segundo subsolo.”

Não há como exagerar ao dizer como os empregados eram próximos dos patrões. Quando os repórteres pegavam o cheque para o almoço ou jantar, logo se ouvia: “Os Grahams estão pagando.”

O quinto membro da família a dirigir o jornal foi Katharine Weymouth, sobrinha de Donald e advogada, formada em Harvard e Stanford. Katharine Weymouth assumiu como publisher em 7 de fevereiro de 2008. Ao anunciá-la, Donald Graham disse: “A proporção de êxito que tivemos com publishers chamadas Katharine tem sido excepcional.”

Katharine Weymouth cresceu em Nova York, filha de Lally Weymouth, filha de Katharine Graham. As histórias de que se lembra ter ouvido sobre a família Graham envolvem sua influência em Washington: Phil Graham ajudando Lyndon B. Johnson a entrar para a chapa do Partido Democrata em 1960; Ronald Reagan aparecendo nas festas de aniversário de sua avó.

O escândalo dos “salões”

Katharine Weymouth herdou um negócio muito diferente daquele que haviam recebido Donald e Katharine Graham. Os jornais matutinos sempre haviam funcionado, por toda parte, como quase-monopólios, ganhando dinheiro suficiente para manter proprietários e jornalistas afastados dos detalhes sinistros de lucro e déficit. Mas a internet havia comprometido esse modelo, em Washington, como por todo lado. “O aumento na receita digital não se compara, nem de longe, com as perdas na receita publicitária. É esse o problema”, disse Leonard Downie. Ele lembrou ter ouvido preocupações sobre essa tendência muito antes de Katharine Weymouth assumir como publisher. “Ela não acompanhou essa mudança. A mudança começou muito antes dela.” Na mesma reunião anual em que fora anunciada a promoção de Katharine Weymouth, a empresa revelou uma nova rodada de rescisões de contratos para funcionários da redação e disse que iria fechar uma de suas duas gráficas.

Durante o mandato de Katharine Weymouth como publisher, os problemas do Post – e de outros jornais – se agravaram. A circulação caiu de 638 mil exemplares nos dias úteis para cerca de 450 mil nos primeiros seis meses de 2013. A divisão de jornais da empresa arrecadou 801 milhões de dólares no primeiro ano de Katharine Weymouth como publisher e 582 milhões de dólares em 2012 – uma queda de mais de 25%.

O início do mandato de Katharine Weymouth também foi afetado pelo escândalo dos propostos “salões”, nos quais o Post iria conectar empresas que pagassem juros altos a autoridades governamentais. Em 2012, ela substituiu o primeiro editor que contratara para comandar a redação, Marcus Brauchli, pelo editor do Boston Globe, Martin Baron.

O legado do Washington Post

Katharine Weymouth disse que ela e Donald Graham haviam decidido conjuntamente que o Post precisava de um novo dono que se parecesse mais com seu bisavô: suficientemente rico para comprar o jornal e voltar a torná-lo uma empresa privada. “O que eu disse a Don foi que se o jornalismo é a missão – e é – então, você pode argumentar que a empresa [The Washington Post Co.] já não é o melhor lugar para sediar o Post”, disse Katharine Weymouth na segunda-feira.

Teria ela avaliado se sua avó, Katharine Graham, teria concordado? “Isso nem foi cogitado. Ela não está mais aqui”, disse Katharine Weymouth. “Os tempos mudaram e precisamos fazer o que acharmos que é melhor para o Post.” Ela irá continuar como publisher e se descreveu como “muito emocionada”. Porém, pela primeira vez em 80 anos, o controle definitivo sobre o jornal não estará com sua família. “O legado da família Graham não é tão importante quanto o legado do Washington Post”, disse Katharine Weymouth.

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Robert Barnes e David A. Fahrenthold, do Washington Post

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