Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Folha de S. Paulo

23/12/2008 na edição 517


MÍDIA & POLÍTICA
Letícia Sander


Documentos da ditadura descrevem ministro como um exímio atirador


‘Um dos principais auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o
ministro Franklin Martins (Comunicação Social) era visto pelos órgãos
repressivos da ditadura militar (1964-1985) como um dos líderes estudantis de
maior evidência, um indivíduo de ‘grande periculosidade’ que, ‘sempre armado,
não vacila em atirar’.


O texto, que provoca risos do hoje ministro, foi assinado por Newton Costa
(da Delegacia Especializada em Roubos e Furtos) em 4 de setembro de 1969 e
integra um calhamaço sobre sua atuação no período, em poder do Arquivo
Nacional.


Os documentos, aos quais a Folha teve acesso, incluem uma espécie de ficha do
extinto SNI (Serviço Nacional de Informações) datada de 1974, na qual ele é
acusado de ter participado de toda ordem de subversão, de assaltos contra bancos
e à residência de um deputado, a seqüestros e roubos.


Fatos, em sua maioria, negados pelo ministro. Do teor das acusações listadas,
Franklin confirma duas participações: foi ele quem, em 4 de setembro de 1969,
estava na direção do Volkswagen azul que bloqueou a passagem do carro do
embaixador norte-americano Charles Elbrick, ponto inicial de uma ação que virou
símbolo do combate à ditadura militar.


O ministro também confirma ter feito a ‘segurança’ da operação de assalto à
casa do então deputado Edgard Magalhães de Almeida, político ligado às artes que
tinha cerca de U$ 70 mil no cofre de casa, dinheiro que foi levado pelos
militantes na ação, descrita ainda hoje pelo ministro como de ‘expropriação’, e
não roubo.


‘Exímio atirador’, de acordo com os militares, Franklin é irônico ao se
referir à própria periculosidade. ‘É um conceito subjetivo’, diz, acrescentando:
‘De alta periculosidade eu acho que era o general que comandava o país naquele
momento’.


O ministro fez curso de guerrilha em Cuba, período em que foi treinado para o
uso de armamentos e explosivos, além de táticas de selva e condicionamento
físico. Hoje, ele reconhece que a luta armada não foi um instrumento eficaz no
combate à ditadura, mas não se arrepende disso.


‘Estava lutando contra um regime que, de arma na mão, derrubou o presidente
constitucional, fechou os sindicatos, instituiu a censura, acabou com os
partidos políticos, prendeu gente até dizer chega, tirou um grande número de
parlamentares do congresso, prendeu, torturou, matou…. não sei por que eu
teria uma relação de ‘eu só luto até certo ponto contra a ditadura’. Não’.
‘Felizmente’, acrescenta, ele diz que nunca teve de atirar em ninguém.


Ao ministro são atribuídos, num dos documentos, comentários desabonadores ao
atual presidente da República.


O texto, que constava dos arquivos do SNI, afirma que, num debate público
sobre ‘o socialismo e a crise na Polônia’, Franklin se destacou pelas críticas
ao sindicato Solidariedade. Ele teria expressado que, ‘a exemplo da Polônia, o
líder Lula deve perder a máscara’, comentário do qual Franklin não reconhece a
autoria.


O ministro, à época, foi contra a criação do PT. ‘Eu nunca fui do PT, nem
próximo. Ao contrário, tinha críticas, achava o PT muito esquerdista’, diz
Franklin hoje.


Para ele, os documentos têm valor histórico por revelarem ‘a mediocridade’,
além da ‘incapacidade de conviver com a crítica’ do regime.


O governo promete flexibilizar, a partir de 2009, o acesso a este tipo de
documentação de posse do Arquivo Nacional.’


 


TELECOMUNICAÇÕES
Folha de S. Paulo


Negócio fechado, Editorial


‘O GOVERNO LULA fez o que já se esperava. Atendeu aos interesses de uma das
empresas que mais doaram recursos para a campanha presidencial de 2006, a
Andrade Gutierrez, e criou um virtual oligopólio nos serviços de telefonia em
todos os Estados do país, com exceção de São Paulo.


Não foi fácil. Muita ‘vontade política’, para falar como o presidente, se fez
necessária para impor aos consumidores brasileiros a compra da operadora Brasil
Telecom pela Oi, que tem a Andrade Gutierrez como uma de suas principais
controladoras.


Havia a lei. Foi alterada. Era preciso dinheiro público. Foi concedido.
Surgiram focos de resistência entre os membros da agência que regula o setor, a
Anatel. Nomeou-se uma personalidade sem experiência na área para aprovar a
fusão. O Tribunal de Contas da União estranhou o negócio. Opiniões foram mudadas
-em questão de 24 horas.


Os interessados tinham pressa. Se a compra não fosse aprovada até hoje, a Oi
teria de pagar uma multa contratual de R$ 490 milhões à Brasil Telecom. O
ministro das Comunicações, Hélio Costa, resolveu então levar ao pé da letra as
suas atribuições. Comunicou-se. E foi assim que, depois de uma conversa com o
ministro do TCU que resistia à operação, dificuldades de última hora foram
superadas.


A Oi se livrou assim do incômodo de pagar R$ 490 milhões e pode celebrar o
que, mesmo a olho nu, parece ter constituído um excelente negócio.


Já o contribuinte brasileiro não recebe maiores satisfações pelo fato de que
muito mais dinheiro foi injetado pelo BNDES e pelo Banco do Brasil para
possibilitar a transação. Do BNDES vieram R$ 2,6 bilhões. Do Banco do Brasil, R$
4,3 bilhões. Fundos de pensão de estatais também foram convocados a participar
da transação, cujo valor total se estima em R$ 12,5 bilhões.


Isso tudo ocorre num momento de aguda necessidade de crédito nos mais
variados setores produtivos. O novo conglomerado não criará novos empregos, pelo
que consta. Ao contrário, nessa área, tudo se resume a seu compromisso de não
realizar demissões até abril de 2011.


Qual a justificativa do governo Lula para se envolver escancaradamente no
negócio? Argumentou-se que, num mercado onde predominam empresas estrangeiras,
seria estratégica a presença de uma grande operadora nacional de
telecomunicações.


Todavia, uma surpresa estava reservada para esse último capítulo. Descobre-se
agora que não existem mais impedimentos a que a nova empresa seja vendida a
grupos estrangeiros.


Fecha-se, assim, o ciclo de uma espetacular sucessão de casuísmos,
acomodações de interesses e jogadas clandestinas -na qual, diga-se de passagem,
também a oposição parlamentar participou, quando chamada a intervir.


O negócio está feito. Apesar da complexidade dos detalhes, não é difícil
resumi-lo ao essencial. É um caso de compra e venda. Nada mais que isso.’


 


JORNALISMO & INTERNET
Carlos Heitor Cony


O algodão em Melbourne


‘Com o advento da internet, ele pensou que ficaria livre de uma das coisas
que mais o chateavam: a leitura dos jornais. Por motivos profissionais, era
obrigado a ler diariamente pelo menos quatro deles, além de revistas semanais e
mensais. Estava cheio.


No início, tudo foi maravilha. Abria o computador e acessava o que mais lhe
interessava naquele dia e naquela circunstância. Aos poucos, antes de acessar o
que lhe interessava, era acessado por um número cada vez maior de mensagens, na
sua maioria de estranhos ou de firmas e instituições que comunicavam um universo
de informações que nada tinham a ver com ele.


Em certa época, ficou preso num cubículo e tinha por única distração o
exemplar de um jornal ali deixado por inquilino anterior. Leu tudo, desde a
previsão do tempo para aquele dia do passado, a votação de um projeto na Câmara
sobre o salário das merendeiras escolares do Piauí, até a cotação do algodão
tipo B293 na Bolsa de Melbourne.


Jurou ódio aos jornais, mas precisava deles. Exultou quando soube que a
internet era maior e melhor do que qualquer coisa impressa em papel. Quando
criança, gostava dos jornais porque, depois que o pai os lia, ele juntava os
exemplares e uma vez por semana os vendia no açougue do Seu Couto. Ganhava um
tostão por quilo, preço de um picolé na sorveteria Pingüim, a mais sortida de
Vila Isabel. A Saúde Pública proibiu que a carne fosse embrulhada em jornais
-ele perdeu a sua primeira fonte de renda.


Foi em frente. Hoje, quando abre o computador, recebe informações mais fartas
e variadas, não apenas do algodão em Melbourne mas das homenagens que um
vereador de Nilópolis fez por merecer de seus pares por motivo do nascimento de
sua primeira neta.’


 


FSP CONSULTA LEITORES
Folha de S. Paulo


Círculo de leitores apresenta críticas e sugestões à Folha


‘O leitor da Folha quer um jornal que seja ao mesmo tempo sintético e
analítico, prático e interpretativo, com mais precisão e mais opinião.


Por oito meses, de março a novembro deste ano, a Folha ouviu as avaliações e
impressões sobre o jornal de 60 assinantes, que participaram do projeto ‘Círculo
de Leitores’.


Eles foram convidados a opinar em seis encontros com editores -quatro em São
Paulo, um no Rio e um em Brasília. Informais, as reuniões buscaram avaliar
edições, recolher críticas e levantar idéias.


Os participantes esperam que o jornal exerça uma espécie de vigilância sobre
os poderes públicos -publique denúncias de corrupção, cobre promessas de
candidatos, fiscalize a situação das grandes cidades-, mas que também os ajude a
desempenhar melhor suas tarefas diárias -traga roteiros culturais completos,
dicas de compras, boas reportagens em saúde, entre outros tópicos.


Um bom jornal, dizem, precisa agir nessas duas frentes, evitando o que eles
chamam de exageros.


O noticiário de política, por exemplo, deve selecionar os casos realmente
importantes e acompanhá-los. ‘A gente se perde em tantos escândalos’, afirmou
uma leitora. ‘E depois as denúncias desaparecem, você nem fica sabendo no que
deu’, criticou um participante.


No aspecto mais prático, a Folha deve ajudar seus leitores a fazer as
melhores escolhas -do restaurante ideal para ir com a namorada às aplicações
mais seguras em meio à crise financeira.


‘O jornal fala muitas vezes das ruas esburacadas, mas se esquece de colocar
um telefone da prefeitura no qual o cidadão possa reclamar’, observou um dos
leitores.


Em comparação com TV e internet, os leitores apontam o jornal como um meio
mais criterioso, de apuração rigorosa e capaz de fazer análises
aprofundadas.


‘A Folha aglutina esse mar de informações numa sequência lógica’, definiu um
assinante. Mas não basta registrar: o jornal precisa explicar, contextualizar.
‘Não adiantam manchetes de ‘dólar sobe’, ‘dólar desce’, porque isso a gente já
sabe de ver na TV; o jornal precisa ajudar a entender a economia’, disse um
professor.


A Folha, na comparação com seus concorrentes, é elogiada por ser apartidária,
crítica aos governos, de leitura fácil e por ter diagramação agradável.


E o que irrita os leitores? As reclamações mais recorrentes foram sobre
‘propagandas em excesso’, falta de espaço para mais cartas de leitores e erros
de português. A experiência do ‘Círculo de Leitores’ será repetida em 2009. Os
convidados são selecionados pelo Datafolha, segundo dados representativos do
perfil do assinante.’


 


TELEVISÃO
Rafael Cariello


Cotas dividem canais e produtoras


‘Uma janela para outras culturas ou um espelho do país? Políticos, produtores
e profissionais de TV se viram envolvidos em 2008 num debate acerca do papel da
televisão brasileira, sobre a medida em que essas duas características devem ser
combinadas e se cabe ao Estado regular o conteúdo do que o telespectador
verá.


A decisão deve ficar para o ano que vem, mas um projeto de lei que cria cotas
para produções nacionais e independentes na TV por assinatura provocou a
discussão nos últimos meses, estimulada mais por motivos econômicos do que
culturais.


O debate sobre cotas vem embalado por um projeto de lei mais amplo, que
libera as operadoras de telefonia para atuar no mercado de TV por assinatura (PL
29), originalmente proposto pelo deputado federal Paulo Bornhausen (DEM-SC),
ainda em 2007.


O projeto ganhou acréscimos de outros parlamentares e foi relatado na
Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática pelo deputado Jorge
Bittar (PT-RJ). Há duas semanas, recebeu apoio explícito do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva. Durante cerimônia de lançamento do Fundo Setorial do
Audiovisual, no Rio, ele prometeu empenho do governo na sua aprovação.


Segundo o relatório de Bittar, entre outras determinações de programação
mínima, as programadoras de TV paga deveriam reservar 10% do tempo total
veiculado em horário nobre para produções nacionais e independentes de séries,
filmes e documentários.


Além dessa, há uma série de diferentes cotas que se somariam no efeito final.
O objetivo é garantir não só a veiculação de produtos nacionais, mas também de
material que seja produzido por empresas distintas das próprias programadoras e
transmissoras (ou seja, feito pelos chamados produtores independentes).


Numa mesma ‘empacotadora’ de TV a cabo -aquela de quem o telespectador compra
o serviço, como a Net ou a TVA- há várias programadoras, que determinam o
conteúdo de um conjunto de canais. A HBO, por exemplo, é a programadora de uma
série de canais que trazem o seu nome ou o nome Cinemax. Se aprovada, as cotas
deverão ser cumpridas por cada uma dessas programadoras, e não pelo conjunto de
canais ofertados numa assinatura de TV a cabo.


Instrumento ineficaz


A proposta é atacada pela ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura).
Seu presidente, Alexandre Annenberg, diz não se opor a uma maior presença de
conteúdo nacional na programação, mas afirma que as cotas não são o melhor
instrumento para chegar a esse resultado com qualidade.


‘É um instrumento ineficaz’, ele diz, ‘que praticamente estabelece uma
reserva de mercado’. ‘A primeira conseqüência -e isso é algo que já vimos
acontecer no passado, quando tivemos reserva de mercado para produtos de
informática- é que o produtor deixa de se preocupar com a qualidade e com o
preço do produto.’


Se for imposta uma cota mínima de programação nacional, as programadoras
podem ter que responder com uma de duas soluções, ele diz. ‘Podemos ter que
diminuir o número de canais estrangeiros ou ter que veicular conteúdo nacional
de qualidade discutível.’


Para Fernando Dias, presidente da Associação Brasileira de Produtoras
Independentes de TV, não há risco de falta de bom conteúdo. Sua associação, ele
diz, reúne 115 produtoras independentes que já exportam programação para outros
países, como Canadá e Japão, que nem chegam a ser conhecidas no Brasil.


‘Os grandes mercados do mundo já criaram formas de preservar e estimular a
produção local; o Brasil é a exceção’, ele diz, afirmando que as cotas são
importantes para incentivar um mercado que pode criar mais renda e emprego.


Não há igualdade de competição entre brasileiros e estrangeiros hoje, afirma
Dias, porque os produtos norte-americanos fazem economia de escala e são
vendidos a preços baratos no mundo todo.


Também o apresentador Marcelo Tas defende as cotas, embora diga que elas não
são suficientes como política pública para a TV no país. ‘Temos que parar de ser
ingênuos, de falar que não precisa proteger a produção brasileira. Isso é de uma
ignorância comovente. Para existir, os americanos, franceses e alemães também
protegem seus mercados.’


‘A gente precisa se ver’, diz Tas. ‘Essa é a função da arte, do cinema, da
comunicação.’ Ele afirma ver uma ‘burrice empresarial’ na TV brasileira, que não
percebe que já é o produto nacional que mais atrai público e que tem a melhor
qualidade. ‘A emissora líder [Globo] é a que mais está atenta a isso. Se você
investe em audiovisual com produtos com que o público se identifique, ele vai
atrás.’


A opinião é oposta à de Marcos Bitelli, especialista em direito da
comunicação e consultor da associação que representa as programadoras
internacionais. Ele defende que o consumidor não terá benefícios com as cotas
para TV paga, que terminará por ter limitado o seu direito de acesso a
diferentes conteúdos.


‘Quem assina a TV paga procura uma alternativa à TV aberta’, ele diz. ‘Não é
uma uniformidade de programação o que se espera da TV por assinatura. O acesso à
diversidade cultural é que a caracteriza -ali você vai encontrar canal italiano,
francês, inglês etc., e escolher o que quer assistir. Imagine uma lei exigindo
coisa semelhante na internet’, compara.’


 


***
Projeto ainda pode sofrer modificações


‘O relatório produzido pelo deputado Jorge Bittar (PT-RJ) que estabelece uma
série de cotas visando estimular a produção de conteúdo nacional e independente
na TV paga ainda pode sofrer alterações.


No dia 4 deste mês, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou apoio ao
texto: ‘A emenda 29 está pronta, está acordada, acertada, e nós já queremos
colocá-la em votação na semana que vem’.


Como o projeto havia saído da comissão em que Bittar é relator e sido
encaminhado para outra comissão da Câmara, a votação em plenário só seria
possível se houvesse acordo entre as lideranças partidárias que lhe dessem
regime de urgência. O acordo não ocorreu.


Quando o texto voltar à Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e
Informática, onde foi relatado por Bittar, no ano que vem, o deputado não estará
mais lá, já que assumirá a Secretaria de Habitação na nova administração
municipal carioca.


Ele diz que deixa o projeto substitutivo pronto. ‘Não tenho garantias formais
de que votarão o substitutivo, mas tenho garantias políticas.’’


 


Audrey Furlaneto


‘Aline’ vai à TV em versão para a ‘família brasileira’


‘Aline está deitada no divã. O analista se aproxima para perguntar: ‘Qual é a
sua média de sexo atualmente?’. Ela diz: ‘Três vezes por semana’. ‘É uma média
normal’, afirma o analista. Ela continua: ‘Três vezes por semana com o Otto.
Três vezes por semana com o Pedro. Três vezes por semana com os dois’.


A relação de Aline com o sexo, entretanto, termina aí. Ela não dará sequer um
beijo na boca no especial da Globo, que vai ao ar no dia 30. Inspirado na
tirinha ‘Aline’, do quadrinista da Folha Adão Iturrusgarai, o programa homônimo
da emissora será uma versão, digamos, careta da libertina personagem das tiras
-ou, como classifica o diretor Maurício Farias, para ‘todas as famílias
brasileiras’.


‘Não queremos fazer uma Aline mais careta. Queremos uma Aline engraçada,
irreverente. O fato de não ter um beijo me parece coerente com essa
irreverência’, avalia o diretor. Se, nas tirinhas, Aline circula nua entre os
dois namorados Otto e Pedro, na televisão, vivida por Maria Flor, ela aparecerá
vez ou outra na cama com os rapazes (Bernardo Marinho será Otto; Pedro Neschling
fará Pedro), mas sempre no ‘antes e depois’, devidamente coberta, ‘sem ser
agressivo ou sexualmente explícito’.


‘Há uma influência evidente dos quadrinhos no especial, mas estamos
trabalhando dentro de um universo mais realista, com um humor mais delicado’,
diz Farias. ‘Existem coisas que numa tira são hilárias como, por exemplo, um
sujeito dar uma surra noutro com um bastão de beisebol. Isso num especial de TV
não é nada engraçado.’


Fiel ao ‘espírito’


Os atores concordam. ‘A gente é fiel ao espírito’, afirma Bernardo Marinho,
20. ‘Mas não pode ter nu, bunda e maconha o tempo inteiro.’ Para Maria Flor, 25,
a nudez e as cenas de sexo do desenho ganham um ‘ar cômico’ porque são
‘estáticas’. ‘Em movimento, na televisão, não ia ter essa comédia.’ O mais velho
dos três atores, Pedro Neschling, 26, avisa: ‘Quem espera uma putaria vai se
decepcionar’. A Aline da Globo não é ‘uma devoradora de homens com dois
garanhões’. ‘Se fosse fazer a Aline [idêntica à das tirinhas], seria um pornô
para o [canal] Sexy Hot’, diz Neschling.


Todo gravado em São Paulo, o especial usou como locações o parque Ibirapuera,
um apartamento apertado, além do salão de festas e do terraço do edifício
Planalto, no centro da cidade, onde os três protagonistas imitam os passos da
coreografia que aparece em ‘Bande à Part’ (1964), de Godard. O filme foi um dos
recomendados pelo diretor aos atores como preparação para os papéis: ‘Maria,
Pedro e Bernardo são ótimos atores, mas são jovens’, diz Farias. Clássicos como
‘Uma Mulher é uma Mulher’ (1961), também de Godard, ‘Jules e Jim’ (1962), de
Truffaut, foram vistos pelo elenco, além de longas mais recentes, como ‘Os
Sonhadores’ (2003), de Bertolucci.


‘Minha Aline vai pelo caminho de Jeanne Moreau [protagonista de ‘Jules e
Jim’]’, avalia Maria Flor. ‘Ela é mais louquinha, intensa, livre.’ Já o Otto
criado por Marinho é ‘sensível e intelectualizado’, enquanto Pedro, segundo
Neschling, é ‘um cara que vende o almoço pra pagar a janta’. Para os fãs das
tirinhas, aliás, ainda é preciso lembrar outra diferença: a minissaia preta e a
camiseta azul da Aline dos desenhos passaram longe do figurino de Maria Flor. Na
TV, Aline, que não beija na boca, usará salto alto, vez ou outra, meia arrastão
e microvestidos fashion.


ALINE


Quando: 30 de dezembro, depois de ‘A Favorita’


Onde: TV Globo


Classificação: não informada’


 


Bia Abramo


Nova novela do SBT já nasce velha


‘UMA DAS inovações de ‘Revelação’ merece entrar para o panteão da
teledramaturgia brasileira. Em vez de atribuir a tarefa de manipular os destinos
e desatinos dos personagens a um vilão qualquer, a novela criou o Oculto -isso
mesmo, como nome próprio. Vale a pena recorrer à sua caracterização tal como
está no próprio site da novela: ‘Personagem que interfere em todas as grandes
decisões da trama, sempre aparece em silhueta, sem que se veja seu rosto. Seu
único interlocutor é Ermírio, com quem se comunica por telefone, de um
escritório no topo de edifício de vista deslumbrante, em alguma grande metrópole
não muito bem definida’.


Bem à maneira do SBT, escancara-se de início a artificialidade da trama.
Chegamos, afinal, à quintessência da novela. Os adornos de uma certa
representação sociológica do país que a novela, e esta não é exceção, pretende
aderir à história não são mais que isso: ornamentos, firulas e enrolação. O que
importa mesmo é isso aí: destinos predeterminados, trajetórias pessoais
truncadas por uma força maior, a vontade, o livre-arbítrio e a racionalidade
impotentes.


Temos, portanto, uma cidade imaginária, Tirânia, como ‘microcosmo’ da
sociedade brasileira. Teremos, nessa cidade, o embate entre o magnânimo
proprietário rural e patriarca de uma extensa família, incluindo o filho dos
empregados, e o novo poder, representado por um prefeito sem escrúpulos e
ambicioso. O agregado Lucas é o protagonista jovem e do bem, financiado por seu
benfeitor Ermírio para ser o novo cacique local.


Futuro cacique e agregado obediente, sim, mas esclarecido. No primeiro
capítulo, Lucas já aparece defendendo sua tese em uma vetusta universidade (ou
um prédio que parece com uma) portuguesa, engrolando algo sobre os benefícios da
iniciativa privada para a sociedade.


Agora, pergunta-se: para quê mesmo tudo isso? Se não vai haver meio de
driblar o ‘Oculto’? Se toda a trama se resolverá, ao final, por uma ‘revelação’
inesperada, o que dará sentido a tudo? Se o sujeito vai estudar na Europa e
desfaz o casamento com o grande amor da sua vida por causa de uma foto em que a
moça aparece com outro cara? Ou se a moça do casal não consegue contar para o
cara que está grávida? Ora…


Não há muitas particularidades em esta novela ser feita ou não pelo SBT, a
não ser um aspecto geral de produção mais precário e defeitos técnicos mais
graves. O impasse, digamos, teórico é o mesmo. Não se sabe muito bem mais para
quê ou para quem se faz uma novela, além de botá-la na rinha da audiência.’


 


FOTOGRAFIA
Cristiano Mascaro


Ave Leica


‘Não sei como acontece com outros artistas, os pintores com seus pincéis, os
escultores com seus cinzéis, os gravadores com suas goivas .


No entanto posso assegurar que nós, fotógrafos, desenvolvemos uma enorme e
saudável relação de afeto com nossas câmeras fotográficas.


Certamente porque elas estão permanentemente por perto, ao alcance de nossas
mãos.


Não podemos nos afastar. Estão sobre a mesa de trabalho, dentro da mochila,
na bolsa a tiracolo e quase sempre bem pertinho, colada em nossos rostos ou
pendurada no pescoço, roçando no coração.


E, se porventura, for uma Leica, é caso de paixão. Não é para menos.


Foram essas câmeras miúdas, que cabem na palma de nossas mãos, que libertaram
os fotógrafos pioneiros -Cartier-Bresson, inclusive- da ditadura dos
equipamentos enormes, obrigatoriamente apoiados em um pesado tripé.


Daí, descobriram a rua. Podiam caminhar livremente pelas calçadas e
fotografar ao mesmo tempo, surgindo assim o que talvez tenha sido uma de suas
maiores descobertas: registrar a vida como ela é.


Não somente os grandes acontecimentos, as guerras e as catástrofes naturais,
mas sobretudo a vida cotidiana, revelando e tornando grandiosas as miudezas do
dia-a-dia.


Hoje, tenho duas câmeras Leica que me acompanham em meus trabalhos, o que me
dá uma sensação de segurança, uma certeza de que tudo irá correr bem. Não me
desgrudo.


Mas sei que em um futuro muito próximo talvez tenha de abandoná-las. Essa
infernal tecnologia digital avança vertiginosamente, os meus filmes estão cada
vez mais raros e, dessa forma, já me vi obrigado a comprar um trambolho de 21,5
megapixels. É um horror!


Mal desenhado, pesa uma enormidade, tem exatos 22 botões para acessar suas
múltiplas funções, a maioria delas dispensáveis, além de uma alavanca de ‘liga’
e ‘desliga’.


Sem comentar que me obriga a carregar, quando viajo, uma quantidade
inacreditável de cabos, baterias, lap-tops, noves fora seu recurso mais
brochante: poder ver, imediatamente, o que acabei de fotografar.


Com minha Leica isso é impossível, felizmente. Dessa forma, não tenho a
certeza imediata de nada e, assim, posso me concentrar em meu trabalho como
nunca.


Sei que a cada disparo não poderei voltar atrás, o que me torna mais seletivo
e rigoroso -isto é, mais senhor do que estou fazendo. Opto pela incerteza, na
contramão daqueles que jamais trocariam o certo pelo incerto. Mas a fotografia
na qual acredito é assim mesmo.


É a expressão de uma atitude dramática, resultado de uma busca onde há mais
surpresas do que certezas.


Cartier-Bresson, Robert Capa, Eugene-Smith, Thomas Farpas, Pedro Martinelli e
tantos outros, todos com suas Leicas na linha de mira, não me deixariam mentir
ou exagerar.’


 


Marcos Flamínio Peres


Só um instante


‘O homem, a máquina: aquela que foi a oposição mais trágica do século 20 se
transformaria em uma simbiose perfeita por meio do fotógrafo francês Henri
Cartier-Bresson -que estaria fazendo cem anos- e sua mítica Leica. De um lado, o
olhar formado tanto na clássica tradição humanística quanto em seu momento de
maior ruptura -o surrealismo.


De outro, um aparelho que representou um notável avanço tecnológico, ao
libertar o fotógrafo da imobilidade do tripé -a máquina ‘ideal’, como diz na
entrevista abaixo o biógrafo Pierre Assouline, cujo ‘Cartier-Bresson – O Olhar
do Século’ (ed. L&PM, trad. Julia da Rosa Simões, 352 págs., R$ 56) está
sendo lançado no Brasil. Assouline lembra como essa conjunção de fatores
contraditórios em Cartier-Bresson -precisão, delírio e tecnologia- acabaria
desembocando na criação do fotojornalismo.


Para ele, está embutida aí a expressão que se tornaria um clichê: o ‘instante
decisivo’, que Cartier-Bresson -ou HCB, com era conhecido no meio- foi buscar em
um autor canônico da literatura francesa do século 17, o cardeal de Retz.
Assouline lembra que a própria experiência decisiva da vida de HCB, que
redefiniu sua relação com a fotografia, foi o período de três anos que passou
detido em um campo alemão. Perdeu não só a liberdade de ir e vir, mas,
sobretudo, a liberdade de fotografar.


Dias antes de ser pego, conta Assouline, ele enterrou sua Leica para que não
fosse confiscada pelos nazistas. A primeira coisa que fez ao se ver livre foi
desenterrá-la.


FOLHA – Como Cartier-Bresson conseguiu combinar influências tão opostas, como
a tendência ao devaneio inerente ao surrealismo e a precisão do fotojornalismo?


PIERRE ASSOULINE – Quando se é surrealista na juventude, permanece-se
surrealista por toda a vida. Você tem razão em sublinhar o antagonismo entre o
surrealismo e o espírito geométrico em Cartier-Bresson, mas ele conseguiu
resolver esse paradoxo por meio de suas fotos e de sua personalidade. Há uma
tendência ao fantástico, como nas fotos do México e da Espanha dos anos 1930.
Esse fantástico, que é a sua parte de loucura e anarquismo, irá ressurgir
regularmente em sua obra, mas não irá impedir o culto das linhas e das
perspectivas. Isso coexiste nele, e não se trata de esquizofrenia, mas do embate
entre o yin e o yang -e dessa tensão nasce sua energia.


FOLHA – A prisão em um campo na Segunda Guerra mudou seu olhar?


ASSOULINE – Sim, e por duas razões: a primeira foram as experiências da
miséria, da promiscuidade, da angústia, do tédio e da amizade que nasceu daí. A
segunda foi ter sido condenado a viver três anos sem sua máquina, o que o levou
a inventar uma teoria sobre tomadas sem a máquina -apenas mentalmente. Enfim, ao
longo desses três anos, em nenhum momento ele abandonou a idéia de fugir,
afirmando, desse modo, a marca essencial de seu caráter.


FOLHA – Como o sr. vê o fotojornalismo hoje? Ele é ainda praticado como
Cartier-Bresson o fazia?


ASSOULINE – Cada vez menos, mas, caso se queira, ainda é possível. Pode-se
passar seis meses em qualquer parte apenas com uma Leica e filme em
preto-e-branco e fazer coisas magníficas. O problema é que não existem mais
grandes revistas para publicar isso. É preciso queimar etapas e fazer
diretamente uma exposição e um álbum. Mas mesmo isso se torna cada vez mais
difícil e, quando ocorre, tem, na maior parte das vezes, uma ‘pegada’ artística,
enquanto Cartier-Bresson sempre se considerou um fotojornalista.


FOLHA – Em sua opinião, foi a invenção da Leica que propiciou o surgimento do
fotojornalismo?


ASSOULINE – Sim.


FOLHA – E por que optou por ver o mundo através das lentes de uma Leica -e,
não, por exemplo, através de uma Rolleiflex?


ASSOULINE – Ele dizia que, com uma Rolleiflex, fica-se prostrado diante do
objeto, enquanto com uma Leica a gente o ataca. Cartier-Bresson era antes de
tudo um ‘atacante’, mesmo tendo horror da agressão maior que é o flash. Ele
nasceu para a fotografia ao mesmo tempo em que surgia a Leica. Ela lhe convinha
à perfeição: pequena, discreta, leve. Ideal.


FOLHA – Como Cartier-Bresson reagiria hoje à câmera digital?


ASSOULINE – Reagiria mal. Ele era contra.


FOLHA – Ele era fascinado pelos EUA, sobretudo por Nova York. A América mudou
seu imaginário?


ASSOULINE – Os EUA não mudaram seu imaginário, ao menos não mais que os
demais países e menos que a Índia, por exemplo, onde viveu por três anos. Mas a
América o fascinava e ele lhe era extremamente grato. Pois foi lá onde recebeu
reconhecimento e consagração, quando montou sua primeira exposição em Nova York,
num momento em que ainda era desconhecido na Europa.


FOLHA – Cartier-Bresson conheceu vários países ‘exóticos’ -de um ponto de
vista europeu-, como Índia e Costa do Marfim. Ele não quis conhecer o
Brasil?


ASSOULINE – Como viajava muito, quando deixava de visitar algum país, sempre
lhe perguntavam se sentia desprezo, indiferença ou hostilidade. Mas o caso era
que uma vida só não lhe bastou para conhecer todos os lugares do mundo, ao menos
como ele o entendia -isto é, passando lá meses ou até anos. O Brasil
simplesmente não aconteceu -apenas isso-, assim como não aconteceu com Marrocos
e outros países. A ocasião não apareceu.


FOLHA – Neste ano comemora-se também o centenário de nascimento do
antropólogo Claude Lévi-Strauss. O sr. vê similaridade entre o olhar de ambos em
relação ao ‘outro’. Chegaram a se conhecer?


ASSOULINE – Cartier-Bresson e Lévi-Strauss são dois grandes burgueses
franceses, que receberam educações parecidas. Não acredito que seus caminhos
tenham se cruzado, mas tinham um ponto em comum: eram humanistas. Dois grandes
clássicos bem franceses.


FOLHA – Cartier-Bresson era um grande admirador de Marcel Proust. Qual era
sua ‘madeleine’ [referência à cena clássica de ‘Em Busca do Tempo Perdido’ em
que o narrador evoca seu passado ao tomar uma xícara de chá com madeleine]?


ASSOULINE – Sua ‘madeleine’ eram a faca de caça que levava no bolso e uma
estatueta trazida da África nos anos 1920, guardada em sua estante.


FOLHA – Para o sr., qual é sua foto mais importante? E para ele?


ASSOULINE – Não tenho a mínima idéia.’


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