Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Folha de S. Paulo

23/12/2008 na edição 517


MEMÓRIA / MARK FELT
Folha de S. Paulo


Morre aos 95 Garganta Profunda, o algoz de Nixon


‘DO ‘NEW YORK TIMES’ – William Mark Felt, que era o número 2 do FBI quando
ajudou a derrubar o presidente Richard Nixon ao resistir ao acobertamento de
Watergate e tornar-se Garganta Profunda, a mais famosa fonte anônima na história
dos EUA, morreu anteontem. Tinha 95 anos e vivia em Santa Rosa, Califórnia.


Em 2005, Felt revelou que foi ele quem deu a Bob Woodward, do ‘Washington
Post’, informações cruciais sobre o caso Watergate, no início dos anos 70. Sua
decisão de revelar sua identidade, em artigo na ‘Vanity Fair’, pôs fim a mais de
30 anos de suspense -e surpreendeu até mesmo a Woodward e seu parceiro na
cobertura do caso Watergate, Carl Bernstein, que respeitavam a promessa de não
revelar quem era a fonte até sua morte.


Felt exerceu papel duplo na queda de Nixon. Como informante secreto, manteve
o assunto vivo na imprensa. Como diretor associado do Birô Federal de
Investigações, onde começou a trabalhar em 1942, combateu os esforços do
presidente para obstruir a investigação feita pelo FBI do arrombamento do
edifício Watergate.


Sem ele, talvez não tivesse havido Watergate -o escândalo de abuso do poder
presidenciais por Nixon, incluindo grampos de telefones, furtos e lavagem de
dinheiro.


Foi no início da década de 70, em uma visita à Casa Branca, que Felt conheceu
por acaso um tenente da Marinha que entregava mensagens sigilosas a funcionários
do Conselho Nacional de Segurança. O jovem era Bob Woodward, que, ambicioso,
pediu conselhos de carreira a Felt e deixou a Casa Branca com seu telefone.


Quando Edgard Hoover morreu, e seu braço direito, Clyde Tolson, se aposentou,
Felt imaginou que o caminho rumo ao poder estivesse livre. Mas Nixon o preteriu,
e, no verão americano de 1972, Felt fervia de ambição frustrada.


Algumas semanas depois, após o arrombamento no edifício Watergate, Woodward,
então jornalista novato, bateu à sua porta em busca de informações sobre o caso.
Felt decidiu cooperar e criou um sistema de técnicas de espionagem para manter
encontros secretos com Woodward em um estacionamento subterrâneo. O editor
Howard Simons, do ‘Post’, criou seu famoso pseudônimo, inspirado no filme
pornográfico ‘Garganta Profunda’, em voga na época.


Em junho de 1973, Felt foi forçado a deixar o FBI. Pouco depois, começou a
ser investigado por suspeita de vazar informações não ao ‘Washington Post’, mas
ao ‘New York Times’. Ele passou boa parte do meio da década de 70 depondo em
segredo ao Congresso sobre abusos de poder no FBI.


Milhões de pessoas o conheceram como a figura misteriosa que, no filme ‘Todos
os Homens do Presidente’ (1976), dá a Robert Redford (Woodward) a famosa pista:
‘Siga o dinheiro’. Felt nunca disse isso. É parte do mito em torno do Garganta
Profunda.


Tradução de CLARA ALLAIN’


 


MÍDIA & POLÍCIA
Mario Cesar Carvalho


O lixo da PF


‘NÃO ADIANTA o ministro da Justiça, Tarso Genro, tentar propagandear números
positivos sobre as ações da Polícia Federal, aquele blablablá de que aumentou o
número de operações e de prisões. O retrato da PF em 2008 foi galvanizado pela
Operação Satiagraha, que investiga o banqueiro Daniel Dantas, e essa imagem não
é boa para os policiais.


Na mais importante investigação do ano, num caso que junta eventuais crimes
financeiros e lavagem internacional de dinheiro, suspeita de corrupção e tráfico
de influência na ante-sala do presidente Lula, a PF fracassou.


O maior sintoma desse fracasso foi a decisão da cúpula da polícia de refazer
o inquérito depois de três anos de investigação. Refazer inquérito é coisa de
ditadura, de polícia pretoriana. Parece encomenda dos donos do poder para calar
desafetos ou evitar que a investigação chegue à ante-sala do presidente.


Culpar o delegado Protógenes Queiroz, como fez a direção da PF, não ajuda a
melhorar o estado das coisas. Parece óbvio que delegados não devam ser
messiânicos, voluntariosos ou trabalhar com um conceito tão elástico de
legalidade que raspa no ilegal. Mas como a PF não sabia que um delegado com essa
trinca de predicados tocava a mais delicada investigação do país?


O resultado dessa combinação é um inquérito esquálido em fatos e adiposo em
adjetivos. O silêncio do Ministério Público diante de tantos indícios de
irregularidades da PF mostra que os fiscais do poder cochilam justamente no
momento em que mais se precisa deles.


Dentro da PF, a palavra mais delicada a que se referem ao inquérito de
Protógenes é lixo. É conversa corrente entre delegados que boa parte das provas
devem ser anuladas pelas instâncias superiores da Justiça por causa das
ilegalidades.


A PF das grandes operações é uma das boas novas da República brasileira nos
últimos anos (o marketing exagerado e as escorregadas são o preço a pagar por
uma polícia mais ativa). Pela primeira vez na história, banqueiros, empresários
e juízes foram presos em investigações com um nível de qualidade que não é a
regra. Pela primeira vez o país passou a ter policiais que investigam gente de
dinheiro com um objetivo que não é a propina.


É essa polícia mais republicana e mais técnica que saiu ferida na Satiagraha.
A baixa qualidade da investigação mostra que a PF ainda não tem um padrão de
qualidade, só para usar uma imagem cara à Globo. Uma polícia errática, com
investigações cuja qualidade varia conforme o titular de plantão, é atalho para
a impunidade.


Não adianta depois tentar culpar o Supremo, com a fantasia recorrente de que
os ministros protegem poderosos. O que se espera da polícia são investigações de
qualidade, não teorias conspiratórias.


MARIO CESAR CARVALHO é repórter especial da Folha.’


 


TELECOMUNICAÇÕES
Humberto Medina


Conselheiro da Anatel vê riscos ao setor com a BrT-Oi


‘O conselheiro Plínio de Aguiar Júnior, voto vencido na Anatel (Agência
Nacional de Telecomunicações) na deliberação que aprovou a compra da Brasil
Telecom pela Oi, alertou para os riscos à competição que a criação da nova
empresa causará. Em sua análise, ele disse que o setor de telecomunicações pode
ficar ‘comprometido’, em especial o segmento de oferta de serviços de acesso à
internet em alta velocidade.


Em seu voto, Aguiar Júnior, que foi indicação do PT para a agência, disse que
aprovaria a operação, desde que com condicionantes propostas por ele, que
obrigassem a nova empresa a abrir a sua rede (fios de cobre e fibras óticas)
para outros competidores, proposta que não foi aceita pelos outros três
conselheiros. Com esse condicionante derrubado, votou contra a anuência
prévia.


‘Sem que haja fortes condicionamentos que propiciem imediata abertura da
infra-estrutura de acesso local à competição, o futuro das telecomunicações
brasileiras [na região de atuação da Oi-Brasil Telecom] fica comprometido, em
especial o desenvolvimento da banda larga e, conseqüentemente, da inclusão
digital, caso um mesmo grupo econômico explore as concessões nas duas regiões’,
escreveu Aguiar Júnior em seu voto.


‘Dessa forma, com relação à anuência prévia ora analisada, considerando que a
operação envolve riscos à competição e que há necessidade de transferência de
parte dos ganhos de escala e escopo para a sociedade, concordo com sua
aprovação, desde que os condicionantes a serem impostos pela Anatel à requerente
[Oi], que apresentarei a seguir, sejam adicionados aos propostos pela
conselheira relatora [Emília Ribeiro]’, escreveu.


Condicionante


O principal condicionante proposto pelo conselheiro derrotado foi a obrigação
de as concessionárias criarem unidades independentes do resto da empresa para
tratar oferta da sua rede de fios para outras empresas. Pela proposta derrotada,
a Oi-Brasil Telecom teria que fazer uma oferta pública de desagregação de
rede.


Na versão que acabou aprovada pela agência, foram estabelecidas outras
condicionantes, acordadas entre os demais conselheiros -Emília Ribeiro
(relatora), Antônio Bedran e Ronaldo Sardenberg (presidente). Não foi aprovado
nenhum condicionante mais forte em relação a como a Oi-Brasil Telecom dará
acesso a sua para outras empresas.


Na quinta, durante a entrevista coletiva na qual a Anatel anunciou a anuência
prévia, Ribeiro explicou, ao ser questionada sobre o tema, que a agência tratará
do assunto em outra oportunidade, dentro da revisão geral das regras do
setor.


Os três votos vencedores acabaram concordando em uma série de outros
condicionantes (15 no total). Entre os mais importantes, estão a obrigatoriedade
de oferecer acesso à internet em alta velocidade em todos os municípios da área
de atuação e a manutenção dos empregos da empresa até 25 de abril de 2011.


No voto vencedor, acabou passando uma versão mais amena da proposta do
conselheiro Plínio de Aguiar Júnior: a criação de uma gerência separada para uso
de rede.’


 


Ricardo Feltrin


Tele lançará TV por satélite para classes C e D


‘Um dia depois de a Anatel ter oficializado a fusão Oi/Brasil Telecom, a nova
empresa já prepara o lançamento de seu primeiro produto de alcance nacional: uma
TV por satélite destinada às classes C e D, com operação em todos os
Estados.


O lançamento da nova operadora do chamado DTH (abreviação de direct to home,
ou ‘do satélite para sua casa’) vai ocorrer ainda no primeiro semestre de 2009.
Procurada, a assessoria da Oi informa que a Oi tem de fato ‘interesse’ na
transmissão, uma vez que pediu e obteve da Anatel licença para operar a
transmissão DHT. A aprovação ocorreu em setembro último.


Como o grupo Oi/Brasil Telecom não tem satélite próprio, a nova operadora
deve começar usando o satélite da rival Telefônica. Segundo apurou a reportagem,
é o mesmo satélite que vem sendo alvo de piratas virtuais desde o início do ano,
conforme a Folha revelou no dia 16.


O sistema de criptografia usado nas transmissões desse satélite da
Telefônica, chamado Nagra, deve ser substituído tanto pela Telefônica como pela
Oi/ Telemar nos próximos meses. O sistema escolhido para a segurança das
transmissões será o NDS.’


 


Folha de S. Paulo


Portugal Telecom diz que foca manutenção da liderança da Vivo


‘DA REUTERS – A Portugal Telecom está focada em fazer, junto com a
Telefónica, com que a Vivo, maior empresa brasileira de telefonia celular em
número de clientes, mantenha a liderança.


Bava afirmou que a Portugal Telecom tem ‘uma relação extraordinária em termos
operacionais’ com a Telefónica na Vivo. Ele disse que a liderança será
consolidada ‘não só em clientes, mas também em participação de receitas’.


A Telefónica detém 10,49% da Portugal Telecom. Ambas dividem o controle da
Vivo. A parceria teve arranhões quando a espanhola apoiou a oferta hostil da
Sonaecom de compra da Portugal Telecom em 2007, que acabou por fracassar.’


 


MÍDIA & HUMOR
Raquel Cozer


‘Casseta’ tinha humor mais adolescente


‘Se não faltasse mulher no curso de engenharia da UFRJ, não haveria
‘Casseta’.


Em 1978, como nos anos anteriores, garotas eram um artigo raro naqueles
corredores do Fundão. E apenas uma entre as inflamadas publicações estudantis do
lugar registrou a dimensão do problema. ‘O que querem os rapazes da
engenharia?’, estampou, em setembro, uma certa ‘Casseta Popular’.


A campanha por mais mulheres na faculdade, movida pelos alunos Helio de La
Peña, Marcelo Madureira e Beto Silva, foi infrutífera. Tampouco teve resultado a
tentativa de lançar um candidato a papa -após a percepção de que a morte de
papas tinha virado moda, com a adesão quase simultânea de Paulo 6º e João Paulo
1º.


Aquelas idéias, no entanto, deram margem para a ‘Casseta Popular’ superar os
limites do campus e alcançar público na zona sul do Rio. Surgia ali o braço mais
antigo e, digamos, menos sofisticado do Casseta & Planeta -a outra parte da
história começaria seis anos depois, com a criação do ‘Planeta Diário’ de Hubert
e Reinaldo.


Os melhores momentos desses primórdios da trupe foram organizados pelo
jornalista Arthur Dapieve e estão reunidos, agora, na ‘Antologia Casseta
Popular’, que sai pela Desiderata, mesma editora que lançou ‘O Planeta Diário –
O Melhor do Maior Jornal do Planeta’.


Popular e cult


Embora fosse a origem do humor mais ‘babaca e adolescente’ (segundo Helio de
La Peña) da trupe, a ‘Casseta Popular’ era mais cult que popular naqueles
primeiros anos.


Tiradas infames como ‘onde você comprou essa camisa tinha pra homem?’, que
ainda freqüentam o repertório do Casseta & Planeta, conquistaram de cara um
público carente de um humor renovado naqueles anos de abertura política.


‘Até chegarmos às bancas, o que só ocorreu em 1986, éramos lidos por uma
elite da zona sul. Depois, o público ampliou’, diz Beto Silva. No meio tempo,
Bussunda e Claudio Manoel já tinham sido agregados.


‘O Bussunda [1962-2006] era um pirralho que vivia no meio da galera. Era
fisicamente uma figura, e uma figura muito espirituosa. Quando quisemos abordar
uma temática mais ampla, chamamos ele e o Claudio, que também circulava por
ali’, diz La Peña. Bussunda virou imediatamente o corpinho preferido da
‘Casseta’ -aparecia bancando a Luma de Oliveira, a Demi Moore, e em aulas de
como manter a barriga.


A temática mais ampla incluiu um aprofundamento na cobertura política. Dois
momentos marcam essa fase da ‘Casseta’, no auge da fama pré-Globo: as eleições
municipais de 1988 e as federais de 1989.


Em 1988, quando as eleições corriam mornas no Rio, a revista adotou o macaco
Tião, do zoológico do Rio, e iniciou uma campanha incisiva que levaria o animal
ao terceiro lugar naquele pleito, com 9,5% do total de votos para prefeito.


No ano seguinte, os cassetas iriam à rua pesquisar, por exemplo, ‘quem é o
candidato mais viado’ (categoria vencida por Fernando Gabeira) e ‘de qual
candidato você colaria numa prova’ (‘A carteira atrás do Brizola ficaria
apinhada de gente’, conclui a ‘Casseta’).


Paródias de jornais como ‘O Globo’ e a Folha faziam parte. ‘Zoações’ mais,
por assim dizer, pesadas ficaram de fora da antologia. La Peña especula: ‘Acho
que o Dapieve deixou de fora em deferência ao órgão de vocês…’’


 


IRMÃOS KARAMABLOCH


Ruy Castro


Bloch sobre Bloch


‘Natal de 1971. Adolpho Bloch entrou pela redação da ‘Manchete’ no fim da
tarde de segunda-feira. Trazia na mão uma caixa de 35 mm e um maço de laudas
datilografadas. Atirou-as à mesa de Justino Martins, diretor da revista, e
ordenou que ele desse aquela matéria em quatro páginas.


Era um enorme panegírico sobre um romancista nordestino, escrito pela mulher
dele, ainda não famosa. Estávamos a meia hora do fechamento da edição. A revista
ia atrasar, mas azeite, o patrão mandou. Justino me chamou e pediu que reduzisse
o texto à metade -era o que o espaço comportava.


Li o troço às pressas e apliquei-lhe a bic, fazendo xis em parágrafos
inteiros. Não havia tempo para passar a limpo. Com a matéria no tamanho, bolei
um título, assinei-o com o nome da autora e devolvi tudo a Justino. Dez minutos
depois, Adolpho reapareceu, brandindo o original rabiscado e nos chamando a
todos de porcos, lambões e incompetentes -isso era maneira de editar uma
matéria?


Levamos o sabão sem dar um pio. E não adiantava eu me acusar, porque Adolpho,
à beira da apoplexia, só ouvia a própria voz. Humilhados, tomamos entre nós uma
decisão heróica: não iríamos ao seu almoço de Natal no restaurante da
piscina.


Isso era pior do que se pedíssemos demissão coletiva. Adolpho passara fome na
Rússia e, se havia algo sagrado para ele, era a bóia dos funcionários. Dos
operários da gráfica às estrelas da redação da ‘Manchete’ -nós-, todos tinham de
comer bem, e o ano inteiro. No dia do almoço, sua ira já passara, e nossa
ausência em sua mesa doeu-lhe fundo. Bem feito.


Essa história não consta de ‘Os Irmãos Karamabloch’, belo livro de Arnaldo
Bloch sobre sua família. Mas as que ele conta me fizeram entender a crueldade e
o coração de Adolpho. Ambos descomunais.’


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