Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Folha de S. Paulo

03/02/2009

ACORDO ORTOGRÁFICO
Paulo Ferreira da Cunha, Fernando Macedo, Kafft Kosta e André Ramos Tavares

Ortografia, lusofonia e direito

‘CAMÕES , Machado e Luandino são gigantes literários intocados pela nova ortografia da língua portuguesa, decidida pelos Estados da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Porém, de outros textos relevantes não se pode dizer o mesmo. É o caso das próprias Constituições, normas máximas desses países, que terão de ser ‘recompostas’ em nova ortografia portuguesa, adaptando-se às normas legais que, em cada país, incorporaram o acordo comum. Caso curioso, parecendo que a supremacia da Constituição, ‘cantada em verso e prosa’, se curvará às determinações de uma lei quanto à sua própria grafia.

Uma lei a mudar as Constituições?

O Direito, que determina a mudança ortográfica, também é atingido por ela. Por ser, em essência, um fenômeno cultural, o Direito pode atuar sobre a língua, embora a ela não escape.

Há casos em que a própria Constituição trouxe para dentro de si a oficialização da língua portuguesa e das formas de expressão, como na Constituição brasileira. Ponto a que não chegaram os constituintes guineenses nem os angolanos, que nada disseram sobre o estatuto da língua portuguesa, sendo esta, porém, a língua oficial desses países. Em Portugal, a Constituição diz hoje simplesmente que a língua oficial é o português.

Compete a seus falantes (não só portugueses, mas todos os lusófonos) definir essa língua, em cada momento.

Efabulemos: poderia o Estado, numa provocação à literalidade de algumas Constituições, impor a mudança de uma vasta parte da ortografia portuguesa, desde que mantivesse a designação ‘língua portuguesa’? Uma língua pode ser imposta pelo Estado ou só deve por ele ser reconhecida?

O tema transpõe não apenas os murais do Direito, mas também os da linguística e da literatura. Na realidade, nenhum Estado pode impor uma nova língua a seu povo, mas apenas reconhecer e expressar-se naquela língua, adotada por esse mesmo povo. É o reconhecimento de uma identidade. O contrário só seria imaginável em conquistas imperialistas ou colonialistas que subjuguem outras culturas.

Uma reforma ortográfica, como está a ocorrer, não é uma reforma da língua. O acordo não muda a língua, muda apenas a sua forma escrita e, mesmo assim, moderadamente. Passa, portanto, nesse primeiro teste.

A língua é um elemento sociocultural vivo, em constante mutação, impassível de ser enclausurada, até mesmo pelo Direito. Sejam quais forem as regras linguísticas, sempre foram permitidas as liberdades poéticas; os neologismos continuarão a ser figuras presentes. A normatividade da língua tem limites; deve ser prática, não um dogma.

Além disso, a língua (no seu conjunto) contém, em si, a identidade de um povo. Seria indesculpável equívoco considerar a reforma, mesmo que ortográfica, uma banalidade formal qualquer. A indicação constitucional já é um forte indício da importância simbólica, política, cultural e ideológica da língua, para não falar da obviedade normativa de sua relevância: é um direito humano fundamental.

O problema não está, pois, no número de acentos ou hifens existentes ou na previsão normativa da língua em vigor. Está no atual contexto da reforma em vários países, no desleixo com que muitos Estados tratam a língua, um dos mais profundos valores culturais, que confere ao próprio Estado a sua base de sustentação.

Não se pense que o acordo vai se autoaplicar por milagre, sem o empenho profundo dos governos dos Estados lusófonos. E, se não houver esse empenho, a consequência será mais grave: porque então a norma cairá na semiaplicação, o pior limbo em que pode viver uma lei.

Na medida em que o próprio povo não é devidamente informado acerca da mudança ortográfica promovida pelo seu Estado, não pode compreender seu alcance cultural, o único que justifica a referida medida. A lusofonia consciente é ainda elitista. Aliás, a falta de percepção da nossa identidade e dos nossos laços é dos maiores problemas do comum dos cidadãos da lusofonia.

Em síntese, a uniformização, em si mesma considerada, é gráfica, exterior. Todavia, trata-se do início, de um primeiro passo, que pode favorecer a nossa afirmação como língua única, que realmente é. A variedade (que também é riqueza) da língua portuguesa está longe, muito longe, de se esgotar na ortografia.

Cada identidade nacional revela suas facetas próprias, estampadas na história de sua língua, podendo falar-se em direitos à língua portuguesa, e não em um direito universal à língua portuguesa. O direito universal é à livre comunicação, o que inclui a diversidade mencionada. O real problema, o mais fundo, é insolúvel, a não ser com a conscientização das autoridades e com muito intercâmbio. Provando-se, sociologicamente, que as novas medidas facilitarão o contato entre os povos e a circulação da leitura, serão muito bem-vindas.

Ninguém morrerá por contar com menos sinais gráficos. E ainda será capaz de ler melhor o(s) Outro(s).

PAULO FERREIRA DA CUNHA, professor catedrático e diretor do Instituto Jurídico Interdisciplinar da Faculdade de Direito da Universidade do Porto (Portugal).

FERNANDO MACEDO, professor de direito constitucional e direitos humanos na Universidade Lusíada de Angola.

KAFFT KOSTA, professor de direito e juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça em Guiné-Bissau.

ANDRÉ RAMOS TAVARES, professor de direito constitucional da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e do Mackenzie e diretor do Instituto Brasileiro de Estudos Constitucionais.’

 

 

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

Globo constrói no Rio casa de vidro para Ana Maria Braga

‘Ana Maria Braga ganhará um ‘presente’ da Globo em sua volta das férias, amanhã. A emissora, finalmente, decidiu construir uma casa cenográfica para o ‘Mais Você’ no Projac, complexo de estúdios da emissora no Rio de Janeiro.

O projeto era para 2008. Mas a direção da Globo, temerosa de que Ana Maria desistisse de morar no Rio e voltasse para São Paulo, resolveu esperar a apresentadora consolidar a mudança de cidade.

Orçada em cerca de R$ 1,5 milhão, a casa, quase toda de vidro, já está saindo do papel. No programa de amanhã, Ana Maria mostrará as obras, que devem terminar em abril.

A casa terá sala, cozinha e um camarim, da própria Ana Maria, também cenográfico -poderá ser usado no programa, como se fosse um quarto.

O ‘imóvel’ ocupará parte da antiga cidade cenográfica do ‘Sítio do Picapau Amarelo’. Será rodeado de árvores e terá um lago. A ideia é cercá-lo com plantas frutíferas e uma horta.

Mesmo com a casa nova, o atual estúdio do ‘Mais Você’ não será desativado. A Globo vai aguardar o resultado da casa de vidro no ar.

Além do novo cenário, a Globo investirá em games e realities para fortalecer o ‘Mais Você’ no Ibope em 2009. Uma das apostas será um jogo que valerá um emprego. Durante uma semana, um grupo de seis ou mais pessoas disputará um game. O vencedor levará o emprego na empresa patrocinadora.

Haverá também um novo quadro com estudantes de jornalismo. O ‘Agora Vai’, game de namoros, já está garantido (volta em abril ou maio). Já o reality entre chefs, o ‘Super Chef’, ainda é dúvida.

INDIANO FASHION

O visual de Raj, o indiano interpretado por Rodrigo Lombardi (foto) em ‘Caminho das Índias’, destoa da vestimenta de seus compatriotas. Nada de batas. Ele gosta é de paletós impecáveis e lenços. A figurinista Emília Duncan confessa que Raj ‘é pura inspiração’, não existe nos escritórios da Índia. ‘Ele é uma releitura do executivo indiano contemporâneo, antenado’, diz. Raj veste calças que os indianos ricos usavam para jogar pólo. Seus paletós são inspirados nos looks dos marajás. Os lenços são britânicos. Enfim, Raj é fashion.

A MODERNINHA DAS SEIS

Fernanda Paes Leme (foto), 25, aparecerá com esse corte de cabelo na moda em ‘Paraíso’, próxima novela das seis da Globo. A trama se passa numa pequena cidade do Mato Grosso, mas a personagem de Fernanda, Maria Rosa, é uma economista recém-formada no Rio. ‘É por isso que estou com esse cabelo mais moderno. Estava com os cabelos longos, cacheados, mas tive que radicalizar para ficar diferente das meninas da cidade, que falam mal da Maria Rosa’, conta.

INVESTIGATIVO

Roberto Cabrini terá um programa na Record. O nome, ‘Repórter Record’, é velho, mas o conteúdo será diferente: grandes reportagens, principalmente sobre assuntos policiais. O ‘Repórter Record’, antes às segundas com Celso Freitas, foi substituído pela série ‘A Lei e o Crime’. Deverá voltar às quartas, até março.

SAFRA 1

A Globo, oficialmente, ainda não confirma nenhum programa novo na grade que lançará em abril. Mas já há movimentações em torno de vários projetos. Os autores e diretores de ‘Decamerão’, especial estrelado por Lázaro Ramos no final de ano, já receberam encomenda de mais quatro episódios. ‘Aline’ também poderá vingar.

SAFRA 2

Também está na boca do forno da Globo o projeto ‘Tudo Outra Vez’, sobre casamentos modernos. Favorito mesmo a uma vaga na programação é um projeto de seriado policial, com Murilo Benício. Mas a emissora ainda fará pesquisas e estudos para definir, até o final de fevereiro, o que haverá de novo em sua grade de 2009.

DOIDA DEMAIS

Em ‘Os Normais 2’, filme que a Globo termina de rodar nesta semana, Cláudia Raia ficará entalada numa banheira. Mas isso não tem nada a ver com os quilinhos que a atriz ganhou em ‘A Favorita’. Cláudia viverá uma mulher que tentará apimentar a relação de Vani (Fernanda Torres) e Rui (Luís Fernando Guimarães).’

 

 

 

***

Íris Abravanel brinca de fazer novela

‘É árdua a missão de eleger a pior novela do momento. A disputa está acirradíssima entre ‘Três Irmãs’, a das sete da Globo, ‘Os Mutantes’ (Record) e ‘Revelação’ (SBT). E há ‘Chamas da Vida’ (Record), que está longe de ser boa, mas não chega a ser tão ruim. E ‘Negócio da China’, a das seis da Globo, que deve ser tratada como ‘hors-concours’, uma vez que foi idealizada para as 19h, é escrita por alguém (Miguel Falabella) que admite não saber falar com o telespectador das 18h e está sem mocinho desde que Fábio Assunção abandonou a canoa.

Pelo que se viu até agora, ‘Revelação’ é a pior das piores. A novela é ruim como um todo. Mas, justiça seja feita, o pior de ‘Revelação’ não é o texto de Íris Abravanel -que é ruim, fique claro! É a (falta de) direção.

Só para ter uma ideia da tosquice, no capítulo de quarta passada uma atriz se movimentou para o lado para falar algo ao ator que faz seu pai. Seu rosto simplesmente foi cortado, ficou fora do enquadramento. A atriz interpretava tão mal (aliás, isso é regra no elenco) que pode ter sido um engano. Teriam exibido o ensaio.

‘Revelação’ é uma síntese de clichês folhetinescos ambientada numa cidade com o nada sutil nome de Tirânia, ‘metáfora’ do Brasil. Mal comparando, lembra a estrutura das novelas de Benedito Ruy Barbosa.

A impressão que se tem é a de que Íris Abravanel, mulher de Silvio Santos, de tanto ver o marido brincar com a programação do SBT, resolveu ela mesma escrever uma novela, juntando seus conhecimentos de telespectadora com um pouco de ‘repertório pessoal’ e uns enigmas (que sacada!).

Dona Íris, como se sabe, é evangélica e militante das obras sociais. Pois ‘Revelação’ tem uma personagem que vive a praticar o bem e a dizer frases como ‘Que Deus abençoe o seu dia!’. E uma socialite que se ‘entrega de corpo e alma’ (ah, os diálogos sempre têm um clichezinho como esse) a uma obra social típica de socialite.

A novela é cheia de mistérios -tanto que a autora teve de explicar no seu blog por que a mocinha não tem família. Um personagem, justo o detentor da tal ‘revelação’, só aparece de perfil, só tem voz. Outra, Maria dos Ventos, também fundamental para o esclarecimento da trama, vive numa gruta, maltrapilha, invisível. Recita supostas metáforas entre uma cena e outra, sem qualquer critério de inserção (ah, ‘Revelação’ é zero em roteiro). No memorável capítulo de quarta, ela surgiu num bosque. ‘A esperança’, foi tudo o que disse. ‘Lost’?

É por isso que ‘Revelação’ se sobressai entre ‘Os Mutantes’ (que se caracteriza pela repetição de situações e diálogos) e ‘Três Irmãs’, uma novela cinzenta sobre uma praia azul, ou seja, uma novela sem história.’

 

 

 

CINEMA
Sylvia Colombo

Oscar movimenta mercado editorial

‘No enredo de ‘O Leitor’, romance do alemão Bernhard Schlink, publicado em 1995, cuja adaptação cinematográfica concorrerá a cinco Oscars neste ano -incluindo melhor filme- , o protagonista abandona a família e distancia-se da profissão para se dedicar à leitura.

Não o faz numa busca por enriquecimento intelectual pessoal, mas para gravar, em voz alta, obras das quais gosta em fitas cassete que envia à mulher que ama -uma ex-oficial nazista analfabeta, que se encontra presa numa cadeia.

Entre os temas que tornam ‘O Leitor’ uma das produções mais interessantes da corrida pelas estatuetas, o questionamento sobre o quanto a literatura pode fazer com que a vida de alguém seja mais ou menos feliz é o mais envolvente.

Reflexões como esta podem, certamente, ser motivadas por um filme. Mas nada como um mergulho na obra literária que lhe deu origem para desdobrar e aprofundar ideias mais abstratas do que aquelas reveladas pelas imagens na tela.

Por conta disso, vale a pena conferir a lista dos livros que inspiraram os principais concorrentes a prêmios neste ano (leia quadro ao lado).

Entre eles, há títulos de considerável qualidade, como o próprio ‘O Leitor’ e o conto de Scott Fitzgerald que inspirou ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’, que está na coletânea ‘Seis Contos da Era do Jazz e Outras Histórias’, reeditada agora pela José Olympio, acompanhada de oportuna tarja com o logo oficial da produção -candidata a 13 Oscars, entre eles, filme, ator e direção.

Para os editores ouvidos pela Folha, a publicação de livros que ‘pegam carona’ em filmes de grande repercussão pode ser um filão bastante rentável. Mas a maioria concorda que a regra vale apenas para os bons textos. Em geral, um ótimo filme não consegue salvar um mau livro.

‘O leitor iniciado frequenta livrarias, lê resenhas nos jornais e por esses meios escolhe os livros que vai comprar. Mas um público mais amplo, que não segue esse caminho, pode ser atraído a ler por conta da grande divulgação de um lançamento no cinema’, diz Maria Amelia Mello, da José Olympio.

Já Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, acredita que cada caso é uma história diferente, mas, em geral, as vendas de um livro aumentam se este já tiver, por si só, uma boa trajetória. ‘O que vendia bem antes, sozinho, melhora com o filme. O usual é que os títulos já com potencial tenham seu desempenho incrementado depois que a adaptação para o cinema chega às telas’, diz.

E dá o exemplo de ‘O Menino do Pijama Listrado’, romance juvenil de John Boyne, que não teve muita divulgação pela imprensa, mas que vendeu bastante, na base do boca-a-boca.

Após a estreia do filme, ainda que com resenhas negativas nos jornais, a obra entrou nas listas de mais vendidos.

A Companhia das Letras prepara uma reedição de ‘Sua Resposta Vale um Bilhão’, romance do indiano Vikas Swarup que deu origem à ‘Quem Quer Ser um Milionário?’, filme de Danny Boyle que está entre os queridinhos da premiação, indicado a dez Oscars, entre eles, os de melhor filme e diretor.

Responsável pela publicação de ‘O Leitor’ no Brasil, Luciana Villas Boas, da Record, acha que nem toda versão cinematográfica beneficia um livro. ‘Em geral, o lançamento de um bom filme, com distribuição forte, conta positivamente para as vendas de um livro. Mas o filme tem que ser bom e forte, e o livro, mais ainda’, diz.

Impacto midiático

Roberto Feith, da Objetiva, não crê que bons filmes possam salvar livros ruins. ‘Um grande filme ajuda a vender o livro no qual foi baseado, da mesma forma que um grande livro ajuda a atrair interesse no filme no qual foi inspirado. O fator fundamental para definir se um ajuda o outro, é, naturalmente, a qualidade, de um e do outro.’

A Objetiva/Alfaguara acaba de lançar ‘Foi Apenas um Sonho’, no qual o filme homônimo, com Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, foi baseado. ‘O romance de Richard Yates é extraordinário, mas totalmente desconhecido aqui. Com o filme concorrendo ao Oscar, com grandes atores, há a possibilidade de uma ampliação no número de leitores do livro, que dificilmente seria alcançada sem o impacto midiático do filme.’ ‘Foi Apenas um Sonho’ está indicado a três Oscars.’

 

 

 

HQ
Paul Gravett

Terapia em quadrinhos

‘Art Spiegelman, em 1979: ‘É difícil para mim me concentrar sobre o tema, porque é tão doloroso. Mas sinto que é importante, para mim, que eu encare esses demônios’.

Criar uma história em quadrinhos acabou saindo mais barato que terapia para superar a sobrevivência de seus pais ao Holocausto e sua própria sobrevivência à vida familiar.

‘Maus – A História Completa’ lhe tomou quase uma década, mas transformou a maneira como as pessoas viam as histórias em quadrinhos, ou ‘graphic novels’. Também transformou Spiegelman de cartunista de vanguarda quase desconhecido em celebridade ganhadora do Prêmio Pulitzer.

‘Breakdowns’ (Colapsos, Random House, 72 págs., US$ 27,50, R$ 63) é a reimpressão de um livro de capa dura lançado em 1977, que coleciona e amplia 13 faixas anteriores a ‘Maus’. Seu título sugere tanto as crises mentais do autor quanto os esboços preliminares de uma HQ.

Entre eles está um protótipo de ‘Maus’ criado quando Art Spiegelman tinha 24 anos para a ‘Funny Aminals’, uma revista underground que subvertia a inocência tradicional do gênero. Os ratos judeus, os gatos nazistas, um diagrama recortável e a voz distinta de seu pai, todos estavam ali em forma embrionária.

Muitos outros trabalhos anteriores em ‘Breakdowns’ revelam a propensão de Spiegelman pela experimentação, a teorização e as citações -desde colagens recortadas em ‘Malpractice Suite’ até um cruzamento de Picasso com Chandler em ‘Ace Hole, Midget Detective’. Adiantados em relação a seu tempo, esses exercícios bem informados não tiveram seu significado captado pela maioria dos pares de Spiegelman. Hoje podem ser vistos como antecessores da vanguarda atual.

Da mesma maneira como nossas memórias são fluidas, as 22 vinhetas autobiográficas de Art Spiegelman mudam no tempo e de estilo, recriando momentos que o formaram e o deformaram.

Da infância vêm as alegrias de descobrir as histórias em quadrinhos, mais crucialmente ‘Mad’, de Harvey Kurtzmann, e da criação de suas próprias; as aulas de inadequação no playground e no beisebol, os pesadelos implantados por ter ‘Alice no País das Maravilhas’ e as neuroses transmitidas sutilmente por seus pais.

Tudo isso é entremeado com cenas de sua vida adulta.

Neurótico, gênio ou as duas coisas, Spiegelman continua a ser analista impiedoso de si mesmo e do meio de comunicação que adora, embora suas histórias em quadrinhos ofereçam pouco alívio -ou resolução- a ele ou a nós.

A íntegra deste texto saiu no ‘Independent’. Tradução de Clara Allain.’

 

 

 

LUTO
Boyd Tonkin

Sem Updike, América encolhe

‘Alguns anos atrás, quando os EUA começaram a celebrar os heróis que haviam vencido a Segunda Guerra e que estavam desaparecendo rapidamente, comentaristas começaram a falar da ‘grande geração’ que realizara tanto e que não poderia ser substituída.

Aquilo que era dito das forças militares também se aplicava às batalhas menos ruidosas da ficção.

No entreguerras, antes e depois de 1930, nasceu um grupo de romancistas que mapearia a história pública e a secreta dos EUA com habilidade, verve e tenacidade que têm poucos paralelos na literatura moderna.

Desse grupo incomparável de pares, Saul Bellow e Norman Mailer já deixaram o palco.

Agora John Updike, mais jovem, mas não menos dotado, também se foi. Nos últimos 18 meses, Updike tinha lançado não apenas um romance novo (‘As Viúvas de Eastwick’, sequência de um de seus trabalhos mais amados), mas também um volume tipicamente eclético de ensaios críticos.

A chamada ‘grande geração’ de romancistas aderia a uma ética de trabalho rigorosa que deixava no chinelo os displicentes literatos europeus.

Ao mesmo tempo em que voltavam um olhar severo sobre as deficiências de sua própria sociedade, Updike e seus contemporâneos trabalhavam em estilo muito americano.

Nunca desperdiçavam seu tempo, trabalhavam com prazer e davam conta do recado.

Durante os próximos dias e semanas, muitos críticos escreverão sobre Updike e o descreverão como o flagelo da classe média suburbana americana.

Não há dúvida de que sua prosa imaculada, delicadamente modulada, penetrou fundo nas hipocrisias sexuais, nos antolhos intelectuais, na domesticidade sufocante desde a era de Dwight Eisenhower até (quase) a de Barack Obama.

Mas esse profissional incansável, descendente de colonos holandeses, conhecia e sentia o mundo de ambição e insegurança que dissecou com tanta maestria. A magnífica tetralogia sobre o Coelho [‘Coelho Cai’, ‘Coelho Corre’, ‘Coelho Cresce’ e ‘Coelho em Crise’], por exemplo, vê seus personagens e seus lugares de dentro para fora.

É claro que a sátira e a crítica eram parte do objetivo de Updike, mas sua história interna da vida americana no pós-guerra também ecoa com o puro e simples prazer da observação precisa. Ele sempre está semiapaixonado pelas vítimas de sua pena penetrante.

A versatilidade e a virtuosidade parecem nunca tê-lo abandonado. Como sabem até pessoas que nunca o leram, ele escrevia com confiança acrobática sobre sexo -mas escrevia igualmente bem sobre arte, negócios, moda e interiores.

E, numa fase posterior de sua carreira, optou por abrir suas asas mais longe. Em romances como ‘Brazil’ e ‘Terrorista’, nós o vimos lançar-se em investidas ousadas sobre ambientes e temas que dificilmente poderiam estar mais distantes do adultério e da raiva contida atrás da cerca de mourões brancos da residência suburbana americana.

Quando romancistas produzem copiosamente, o veredicto da posteridade pode ser injustamente rigoroso. Os palpiteiros tendem a apontar para as obras-primas incontestáveis (e os romances sobre o Coelho vão perdurar enquanto perdurar a cultura americana) e desprezar a massa das outras obras, vendo-a como nada mais que lastro, digno de um escritor peso médio.

Mas, como a nação de cujos costumes e ideais mutantes ele traçou a crônica tão poderosa, Updike se alimentava da pura e simples produtividade. A plenitude e a generosidade definiram seu talento, assim como definem o melhor ‘self’ de seu país. Sem Updike, a própria América parece ter encolhido um pouco.

Todos os livros citados acima foram publicados, no Brasil pela Companhia das Letras, que deverá lançar, em 2011, ‘As Viúvas de Eastwick’. A íntegra deste texto saiu no ‘Independent’. Tradução de Clara Allain.’

 

 

 

MARKETING
David Runciman

Jogatina de bola

‘Quando era mais moço, eu torcia por um time de futebol, que já não existe, o Wimbledon FC. A equipe jogava no Plough Lane, estádio pequeno e cambaio em uma parte feia do sul de Londres, e seu estilo de futebol era duro e robusto.

Isso desagradava os adversários, mas aquecia o coração dos torcedores, especialmente quando permitia que a equipe superasse times mais sofisticados e fastidiosos, que muitas vezes jogavam lá como se tivessem pregadores de roupa nos narizes.

Quando o Wimbledon foi convidado a integrar a Football League, em 1977, na quarta divisão na época, passei a me considerar torcedor e a fazer a longa jornada até o final da linha District, para assistir a partidas contra equipes como o Rochdale e o Darlington.

Após apenas duas temporadas na quarta divisão, o time conseguiu subir para a terceira, mas caiu de volta na temporada seguinte. O mesmo fenômeno se repetiu nas duas temporadas subsequentes, com ascenso seguido de descenso.

No começo dos anos 80, o Wimbledon, que atraía públicos regulares de apenas alguns milhares de torcedores e punha em campo uma equipe de jogadores sólidos, mas não espetaculares, parecia ter encontrado o seu lugar no futebol.

Mas então aconteceu algo completamente inesperado. O Wimbledon subiu em 1983, e isso foi seguido não por uma queda mas por novo ascenso; depois de duas temporadas reconhecendo o terreno na segunda divisão, o time subiu ainda uma vez, chegando à primeira divisão.

Subitamente, eu estava indo a Plough Lane para ver o Wimbledon enfrentar equipes como o Manchester United, o Arsenal e o Liverpool.

Azarão

Mas, surpreendentemente, o Wimbledon se deu bem na primeira divisão e manteve seu posto entre os grandes times do país por inacreditáveis 14 temporadas. Em 1991, o time teve de se mudar para o estádio de Selhurst Park, dividido com o Crystal Palace, quando se tornou claro que Plough Lane não poderia ser adaptado.

Um ano mais tarde, o nome da primeira divisão passou a ser Premier League, e o dinheiro começou a fluir ainda mais para os grandes clubes, o que tornava a posição do Wimbledon, uma equipe que nem mesmo tinha estádio próprio, ainda mais precária.

E, como todos os times pequenos, teve que vender muitos de seus melhores jogadores.

Um desses era John Fashanu. Ele disputou a partida que capturava o absurdo essencial da história do Wimbledon, tanto para os torcedores do time quanto para seus rivais: a final da copa da Football Association de 1988, na qual enfrentaram o Liverpool, então o melhor time da Inglaterra, e o derrotaram por um a zero.

Nas temporadas seguintes, comecei a perder o interesse pelo Wimbledon e a assistir cada vez menos jogos.

Quando me perguntavam por que deixara de torcer por eles, às vezes respondia que não fazia muito sentido continuar torcendo depois que o time conquistou a copa da FA, mas percebia o quanto isso soava pedante e estúpido, e por isso desisti de explicar. Ainda assim, fiquei feliz por não ser um verdadeiro torcedor de futebol quando testemunhei o que aconteceu com o Wimbledon.

As novas realidades financeiras do futebol inglês -aqueles que já têm muito receberão ainda mais, e os demais terão de lutar pelas migalhas- finalmente se fizeram sentir na equipe na temporada de 1999/ 2000, quando o time foi rebaixado da Premier League.

Incapazes de obter licenças de construção ou financiamentos para a construção de um novo estádio para o time no sul de Londres, os proprietários surgiram com a radical proposta de transferir o time a outro lugar, no qual pudessem expandir sua base de torcedores e garantir o futuro do clube. Para indignação e consternação dos torcedores da equipe na região sul de Londres, o local escolhido foi Milton Keynes, uma cidade de rápido crescimento no centro da Inglaterra, que não contava com um time de futebol profissional.

Para surpresa de ninguém, assim que se tornou claro que a equipe estava planejando abandonar seus torcedores locais, a torcida desapareceu do estádio, e a situação financeira do Wimbledon se agravou ainda mais. Em 2003, o clube entrou em concordata.

No ano seguinte, mandando suas partidas no estádio nacional de hóquei sobre a grama de Milton Keynes, o time voltou a ser rebaixado, para a League One, antiga terceira divisão.

Àquela altura, o Wimbledon FC foi adquirido por um empresário musical morador de Milton Keynes, Pete Winkelman, que mudou o nome do time para MK Dons.

Em 2006, o MK Dons voltou a cair, para a League Two, a velha quarta divisão por meio da qual a equipe iniciara sua jornada no futebol profissional menos de 30 anos antes.

Nenhuma equipe da liga inglesa havia sido afastada de seus torcedores pelos proprietários, como ocorreu nesse caso, ainda que episódios semelhantes tenham se repetido inúmeras vezes nos EUA, onde times são transferidos para o outro lado do país por proprietários em busca de mercados novos e mais lucrativos.

Assim, a transferência do pequeno Wimbledon para uma cidade localizada a 110 quilômetros de distância parecia indicar a iminente americanização do futebol inglês, que colocaria lealdades tradicionais à mercê de empresários enxeridos para os quais um time é nome e nada mais.

Observando a situação, passados quatro anos, fica claro que os torcedores tinham motivos para preocupação, ainda que estivessem preocupados com a coisa errada. A transferência geográfica jamais foi uma opção séria para times de futebol inglês, porque não existem muitos locais do país em que não exista um time.

Mais que estilo de vida

Mesmo assim, apesar das dificuldades inerentes que afastar um time de futebol inglês de sua origem geográfica acarreta, os enxeridos chegaram.

Um ano antes que Winkelman adquirisse o Wimbledon, outro empresário de sucesso, Roman Abramovich, tomou o controle do vizinho Chelsea e iniciou o processo que faria do time uma potência do futebol internacional, tratando-o o tempo todo como uma espécie de brinquedinho pessoal.

Desde então, quase todos os grandes times ingleses tiveram seu controle tomado por estrangeiros. Manchester United, Liverpool e Aston Villa são controlados por americanos.

No Arsenal, há uma disputa pelo controle entre o norte-americano Stan Kroenke e o magnata uzbeque Alisher Usmanov. O West Ham pertence a islandeses, ainda que no momento provavelmente esteja em mãos dos credores do sistema bancário falido da Islândia.

O Portsmouth parece pertencer ao russo Aleksandr Gaydamak (embora ninguém saiba ao certo). E, há pouco, o Manchester City foi adquirido pelo Abu Dhabi United Group for Investment and Development, o que o torna o time mais rico do mundo -ou ao menos o time com os mais ricos proprietários do mundo, o que pode não ser a mesma coisa.

Nenhum desses times precisou se mudar para seguir o dinheiro. Em lugar disso, o dinheiro foi até eles. O que esses novos proprietários parecem desejar do futebol inglês é uma participação em um negócio glamouroso e dinâmico, com vasto apelo mundial.

Isso significa que muitos times da Premier League se mudaram, nos últimos anos, sem que precisassem transferir suas instalações físicas: simplesmente se mudaram para a economia internacional, onde podem ser comercializados como marcas internacionais.

De fato, para fins de marketing, raízes locais são importantes: clubes como o Manchester City, com base de torcedores apaixonados, são ótimo veículo para proprietários com ambições que se estendem para além de Manchester.

Pois na TV parece melhor ter um estádio lotado de torcedores que parecem de fato envolvidos com o time do que um estádio no qual os torcedores começaram a tratar o time como uma espécie de acessório de estilo de vida, mais ou menos como os proprietários o fazem.

Isso, aliás, vem sendo um problema para o Chelsea e um dos motivos para que a equipe ainda não consiga se equiparar aos times mais tradicionais em termos de apelo internacional.

O setor financeiro internacional quer o pacote completo, quando se trata dos times de futebol: um senso de história, o rugido dos torcedores leais, a sensação de excitação.

O nome de maneira nenhuma é a essência da marca, e talvez seja algo dispensável ou ajustável.

Quando os novos proprietários do Manchester City começaram a alardear sua aquisição, usavam as camisas azuis do time, mas dotadas da inscrição Abu Dhabi, nas costas.

A verdade é que é mais provável que um time chamado Abu Dhabi United termine jogando em Manchester do que vermos o Manchester City jogando em Abu Dhabi.

O primeiro astro a ser recrutado com o dinheiro árabe, o brasileiro Robinho, adquirido do Real Madri pela quase inacreditável soma de 32,5 milhões, resumiu essa nova realidade ao declarar, na chegada a Manchester, o quanto estava satisfeito por ser parte do time do Chelsea.

Na verdade, não importa muito que os jogadores não saibam onde estão, desde que os torcedores estejam lá para recebê-los. O que esses novos proprietários desejam é um clube com senso claro de identidade, em torno da qual possam construir suas elaboradas fantasias pessoais.

Ou seja, os torcedores ainda valem alguma coisa.

Novo Wimbledon

É claro que a raiva não se dissipou na parte sul de Londres, mas em 2002 os torcedores mais radicais do Wimbledon FC criaram um novo time em seu lugar, o AFC Wimbledon, que também está em ascensão.

A equipe já passou por quatro níveis de ascenso e agora está só dois degraus abaixo do futebol profissional. Não é impossível que o MK Dons reproduza a ascensão espantosa do Wimbledon FC e chegue à Premier League. Isso ainda acontece, como demonstrou o Hull City ao subir quatro divisões em apenas cinco temporadas.

Equipes como a do MK Dons e a do Hull dependem do apoio local, de boa gestão e de muita sorte. Mas dificilmente se beneficiarão de sorte como a que o Manchester City desfruta.

Não sei como eu me sentiria quanto a essa perspectiva se torcesse pelo time. Essa ideia me parece desconfortavelmente próxima de um insulto àquilo que o futebol verdadeiro representa. Mas eu não sou um verdadeiro torcedor.

DAVID RUNCIMAN é professor de ciência política na Universidade de Cambridge. A íntegra deste texto saiu no ‘London Review of Books’.

Tradução de Paulo Migliacci.’

 

 

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