Sábado, 17 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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Folha de S. Paulo

05/05/2009 na edição 536

LEI DE IMPRENSA
Editorial

Direito à informação

‘DEFESAS fundamentadas da liberdade de expressão e do direito à informação foram apresentadas na quinta-feira, na sessão do Supremo Tribunal Federal que decidiu, por maioria de votos, pela incompatibilidade total entre a Lei de Imprensa, de 1967, e a Carta de 1988. Unânimes na sustentação desses princípios básicos, os ministros do STF divergiram, entretanto, num aspecto essencial.

Cumpria optar entre a abolição completa da lei atual -editada no regime militar- e a manutenção de alguns de seus artigos, sobre os quais não pesa o espírito autoritário que caracterizava o diploma em seu conjunto. Assim formulada, a questão envolve alguma minúcia técnica, mas suas repercussões práticas se revestem de grande relevância.

Aparentemente, qualquer lei específica sobre o assunto tenderia a conflitar com a plena garantia dos direitos à expressão e à informação. A esta visão se inclinaram alguns ministros do Supremo. Outros membros da corte admitiram, em tese, a possibilidade de uma lei específica.

Mesmo assim, 7 dos 11 ministros julgaram mais indicado abolir toda a lei. Tanto seus aspectos mais repressivos -os quais, depurados na própria atividade do direito, já haviam deixado de vigorar- como os mecanismos isentos desse caráter fariam parte de um conjunto único, que seria incorreto desmembrar.

Resultou minoritária a tese de que certos artigos do diploma deveriam ser mantidos. Seria esta, na verdade, a decisão mais apta a garantir o pleno direito à informação. Embora a Constituição o assegure plenamente, na legislação civil e penal há dispositivos capazes de inspirar empecilhos a esse princípio, em especial quando casos duvidosos são julgados em primeira instância.

Já se registraram, nessa esfera judicial, decisões em favor do recolhimento de biografias publicadas, supostamente por conterem material ofensivo à memória de personalidades reais. A censura prévia e a intimidação judicial sobre publicações menores e independentes -ou sobre indivíduos que, cada vez mais, se valem da internet para fazer jornalismo e emitir suas opiniões- tornam-se assim um risco.

Na falta do núcleo não autoritário da lei, decisões relativas às várias formas de manifestação da imprensa estão entregues, a partir de agora, a interpretações fragmentárias e por vezes intempestivas de juízes singulares. Uma das principais fontes de incerteza, decerto, será a ausência de parâmetros para o direito de resposta -o que vai afetar não só empresas jornalísticas, mas sobretudo o cidadão que se sentir ofendido por uma publicação.

Grandes companhias de comunicação podem, sem dúvida, prosseguir na defesa do direito à informação, apelando a instâncias superiores, onde o princípio encontra abrigo sólido. Mas só por meio de uma lei de imprensa estariam os órgãos de comunicação regionais, os sites isolados da internet e os cidadãos em geral mais bem protegidos das ameaças, que nunca cessam.

Cabe agora ao Congresso abreviar o perigoso vácuo que se abre com a decisão do STF, elaborando uma nova lei de imprensa, plenamente democrática.’

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

‘Lost in São Paulo’

‘Blair Underwood, 44, interpreta um piloto de guerra traumatizado na série ‘Em Terapia’. Ele procura ajuda do terapeuta protagonista, mas morre, ainda na primeira temporada, ao tentar voltar a voar. Afastado da produção, o ator veio ao Brasil na semana passada divulgar a segunda temporada, que estreia em junho na HBO. O personagem, no entanto, não ressuscita. Mas então o que ele veio falar da nova fase? ‘Bom, não sei muito porque meu personagem morreu’, disse. Em São Paulo, Underwood (que fez um namorado de Miranda em ‘Sex and The City’) contou que queria conhecer o Rio, mas foi alertado que era perigoso. ‘Acho que vou pegar uma bicicleta e vou mesmo assim’, brincou. (Fernanda Ezabella)

Histórias de Jó e de Buda inspiram nova novela das seis

A trama da próxima novela das seis da Globo, no ar a partir de setembro, será inspirada nas histórias de Jó e de Buda.

Com o título provisório de ‘Pelo Avesso’, a novela está sendo escrita por Thelma Guedes e Duca Rachid, sob supervisão de João Emanuel Carneiro. A direção será de Ricardo Waddington. O único nome confirmado no elenco é o de Paola de Oliveira. Ela será a vilã.

Como no livro de Jó, do Antigo Testamento da Bíblia, o protagonista será um homem que perde todas as suas riquezas. E, como Buda, ele irá despertar e conhecer o verdadeiro mundo.

‘É a história de um homem, Gustavo, que sofre uma humilhação muito grande quando criança, por ser muito pobre. Ele promete se tornar uma pessoa rica e nunca mais ser humilhado por ninguém. Ganha dinheiro a qualquer custo, se torna uma pessoa triste’, conta Thelma Guedes, que dividiu com Duca Rachid a autoria do remake de ‘O Profeta’ (2006), último grande sucesso das 18h.

Segundo Thelma, Alcino, o melhor amigo de infância de Gustavo, descobre que tem uma grave doença e, antes de morrer, resolve ajudá-lo a voltar a ser feliz.

‘Alcino arma para Gustavo perder tudo o que tem. De repente, Gustavo se vê em um deserto, sem dinheiro, sem ninguém. É até dado como morto. Mas Rose, a protagonista, uma faxineira, irá reapresentar o mundo para Gustavo’, revela a autora. ‘Alcino representa Deus na história de Jó.’

QUER CASAR COM ELE?

O rapaz da foto atende por Filippo (o SBT não revela o sobrenome). Tem 26 anos, é italiano e… está disponível. Será um dos três participantes de ‘Só Falta Esposa’, reality show que o SBT exibe no segundo semestre. Os outros dois são um empresário de 51 e um personal trainer de 39. As interessadas devem se inscrever no site do SBT. Sessenta serão escolhidas. Atualmente, o SBT grava ‘Só Falta Marido’, em que três mulheres são disputadas por 60 homens. ‘A gente está sendo muito rigoroso na seleção. Queremos pessoas a fim de relacionamento mesmo’, avisa o diretor Michael Ukstin.

PROMESSA

Autor de ‘Viver a Vida’, próxima novela das oito da Globo, Manoel Carlos está entusiasmado com Rafaela Fischer, filha de Vera. ‘Para mim ela é uma revelação. Seu teste foi excelente’, diz. Além de Rafaela, Letícia Spiller e Lolita Rodrigues são as novidades no elenco da trama, que estreia em setembro. Lolita fará a mãe de José Mayer, que se casa com Helena, modelo interpretada por Taís Araújo.

PROFUNDEZAS

O ‘Domingão do Faustão’ de hoje exibe imagens submarinas captadas a 666 m de profundidade por Lawrence Wahba e Cristian Dimitrius. A Globo diz que é a segunda TV do mundo a conseguir tal façanha. A dupla mergulhou no mar de Honduras a bordo de um submarino caseiro, construído pelo americano Karl Stanley. Filmou tubarões pré-históricos, um polvo que nada com as orelhas e lagostas albinas.’

 

Audrey Furlaneto

Eu já vi esse filme!

‘Maria Elysia Moreira, 29, passou abril com sensação de ‘déjà vu’, aquela de já ter visto a mesma cena antes. Era assim, diz ela, sempre que ligava a TV num dos canais de filmes e séries de que tanto gosta -ela paga mais de R$ 300, entre TV e internet, para ter um dos pacotes mais completos da Net.

Decidida a ‘entender’ a sensação, iniciou uma lista da programação dos canais e descobriu: ‘Mudava da Fox para a TNT, e era o mesmo filme passando. Contei pelo menos oito vezes ‘Closer’, perdi as contas de ‘Mais Velozes Mais Furiosos’, e por aí vai’.

De fato, seria fácil perder as contas em ‘Mais Velozes Mais Furiosos’. Foi o filme mais reprisado da TV paga em abril: passou 29 vezes, quase preenchendo o calendário mensal.

A lista segue: ‘Acampamento do Papai’ e ‘Tá Dando Onda’ foram exibidos 21 vezes cada um; ‘Johnny e a Bomba’, 20 vezes; ‘Charlie e Eu’; 18 vezes; ‘Como Comer Minhocas Fritas’ e ‘O Homem da Casa’, 17 vezes. Há também ‘Querida, Encolhi as Crianças’ (sim, é aquele blockbuster de 1989) com 11 exibições ou ‘Apollo 13’, de 1995, dez vezes na programação do mês. Enfim, dos 2.667 títulos que os 28 canais voltados para filmes na TV paga programaram para abril, 55% (mais de 1.400 longas) foram ao ar mais de uma vez -de acordo com os cálculos da Folha.

O canal campeão em reprises é o HBO Family, que teve pelo menos 228 reprises no mês (veja a metodologia do levantamento abaixo). Procurada pela Folha ao longo de 15 dias, a emissora, que também ocupa segundo e terceiro lugares no ranking com o braço HBO Plus e seu principal HBO, não quis comentar os números.

Para Marcello Coltro, vice-presidente de vendas da MGM, canal que aparece em quarto lugar entre as reprises, uma das premissas da TV paga é repetir. O motivo: oferecer mais horários de um mesmo filme para o telespectador. ‘Existe uma grande oferta de canais de TV por assinatura e, portanto, a repetição é necessária para buscar a audiência que flutua em diferentes canais, horários e dias da semana’, explica. ‘Os canais devem promover e transmitir seus filmes com mais frequência, uma vez que o espectador escolhe sua programação no ‘zapping’ do controle remoto.’

Pacote de reprises

Além disso, as emissoras devem atender às ‘janelas’ previstas em contrato com os estúdios que vendem os filmes. Funciona assim: antes de chegarem à TV paga, os títulos passam pela ‘janela’ exclusiva dos cinemas; em seguida, há outras ‘janelas’, como locadoras de vídeo, pay-per-view e os chamados canais premium, que conseguem comprar longas com exclusividade por determinado período.

Os canais básicos, como MGM, TNT, Fox, entre outros, obtêm os filmes depois e sem exclusividade: todos compram e suas ‘janelas’ podem coincidir -o que explica ‘Mais Velozes Mais Furiosos’, por exemplo, 29 vezes em seis canais ao mesmo tempo. Para completar, os filmes são vendidos em pacotes: compra-se uma estreia e leva-se também títulos de acervo, com ‘janelas’ previstas em contrato.

‘Um estúdio pode vender 20 filmes dele, 20 de coprodutores e 50 reprises. O comprador precisa desses filmes para preencher a programação’, afirma Helios Alvarez, diretor do A&E no Brasil, que foi diretor, durante 35 anos, da Columbia Pictures para a América Latina.

Para a diretora de programação da Fox no país, Kátia Murgel, não há desequilíbrio na relação entre estreias e reprises. ‘A exibição dos filmes em vários horários é uma maneira de privilegiar o telespectador. A TV fechada pretende fazer com que ele não saia prejudicado em nenhum momento, caso não tenha conseguido assistir a um determinado filme’, afirma.’

 

***

‘TV promete variedade, mas não entrega’

‘Se para os diretores de programação dos canais reprisar significa oferecer mais oportunidades para a audiência, para o telespectador há outra questão: reprises preenchem horários que poderiam ser ocupados por títulos novos.

‘Eu só vejo mudança de horários, não dos filmes’, diz a fisioterapeuta Vanessa Russell, 29, assinante da Net. ‘Se você está pagando um serviço para ter opções e variedade, você fica decepcionado porque mais repete do que estreia. Tem filmes que vejo há cinco meses! Estão só rodando de horário’, diz. ‘Vi a estreia de ‘P.S. Eu te Amo’, por exemplo, e, agora, minha impressão é de que nunca saiu da programação.’

Para a colunista de TV da Folha, Bia Abramo, ‘a TV paga promete uma variedade na programação que, na verdade, não entrega’. ‘O espectador, que não paga barato pela assinatura, se sente lesado e, de fato, está sendo. Driblar os contratos estritos de exibição e contornar uma suposta limitação de repertório não são problemas a serem repassados ao consumidor, mas sim para serem resolvidos pelos executivos da TV por assinatura’, avalia.

‘Mesmo que, sim, faça sentido que a TV por assinatura possa e talvez até mesmo deva oferecer várias opções de horário para um mesmo filme, isso não justifica esses números absurdos -quem precisa de 29 horários diferentes para ver uma coisa do tipo ‘Mais Velozes e Mais Furiosos’?’’

 

Bia Abramo

Leitura como sonho

‘DE BOAS intenções didáticas, o caminho da má dramaturgia está cheio. Quando a gente ouve dizer que vai estrear uma série, destinada a adolescentes, que tem como fio condutor obras da literatura brasileira e portuguesa do repertório do ensino médio (e, portanto, do vestibular), é natural que se desconfie que aí vem bomba. Já imaginamos aquelas adaptações canhestras que acabam servindo como substitutos preguiçosos à leitura dos livros (ou ilustram os famigerados resumos), ou as tentativas mais ou menos ridículas de atualizar obras literárias, em linguagem e trilha sonora pretensamente modernas, para torná-las mais palatáveis aos leitores renitentes.

Mas quando vemos que a série vai ser dirigida pelos caras que fizeram um dos grandes hits brasileiros do YouTube, o ‘Tapa na Pantera’, podemos desconfiar que daí vem coisa melhor. E bem melhor: ‘Tudo o que É Sólido Pode Derreter’, da dupla Rafael Gomes e Esmir Filho, até agora, é das melhores estreias em TV aberta do ano.

O grande trunfo de ‘Tudo…’ é que seus criadores desviaram inteligentemente do típico -outra das pragas que acometem produções para jovens é aquela em que, para representar, uma faixa etária fosse obrigatório buscar a média estatística e não as singularidades. A protagonista Thereza, por exemplo, é uma menina de classe média, mãe psicóloga, pai lojista, mas para por aí a possibilidade de enquadrá-la numa categoria sociológica (ou, pior, publicitária). Estuda numa escola pública decente, gosta de ler, enfrenta seus conflitos com uma certa serenidade e muito espírito investigativo, tem amigas legais, outras, nem tanto. Por ora, ela não está envolvida com ‘as’ grandes questões dramáticas da adolescência, daquelas que alarmam os pais e dão chamada de capa em revista teen, mas com perguntas existenciais mais sutis -Quero que alguém me diga o que fazer? Sou do bem ou sou do mal? Devo tentar fugir de mim mesma ou ficar e enfrentar?- e de respostas menos prontas.

A cada episódio, entra, como matéria de sonho e elemento, ora perturbador, ora esclarecedor, algo do livro que a classe está lendo na aula de literatura. Pode ser uma frase, uma situação, um personagem, um tema -será determinado pela sensibilidade e inteligência dessa excelente personagem que é Thereza, para quem a leitura é natural e intimamente imbricada com a vida.

A série, exibida pela TV Cultura às sextas, às 19h30, já vai pelo seu quinto episódio, mas estão todos disponíveis, na íntegra, no site.’

 

Fernanda Ezabella

Série neozelandesa faz paródias musicais

‘O casal dança juntinho, o engravatado suspira emburrado e a fã olha apaixonada os músicos que embalam os personagens.

A cena poderia ser de um show, se isso fosse possível dentro de um elevador. É assim que levam a vida os neozelandeses do Flight of the Conchords, que tentam o sucesso em Nova York, no seriado de mesmo nome que chega à segunda temporada na HBO Plus, na próxima quinta-feira.

Os atores Bret McKenzie e Jemaine Clement são, antes, uma dupla de músicos que, no momento, está em turnê pelos Estados Unidos, com shows esgotados. Tem discos pela SubPop e até um Grammy de melhor álbum de comédia -categoria para músicas que fazem paródia de outros gêneros.

Formada em Wellington há 10 anos, a banda criou o seriado depois, rejeitado por emissoras da Nova Zelândia, mas aceito nos EUA. E o estilo paródico caiu bem num seriado de TV, cujas histórias vêm intercaladas por videoclipes.

Além da dupla, que batalha para dar certo em solo americano, o seriado conta com uma fã fiel e apaixonada, Mel, que vive perseguindo os dois. Tem também o agente da gravadora, Murray, que faz a dupla tocar no elevador da empresa e que canta uma ‘ópera’ no primeiro episódio da nova temporada.

Mas o destaque desta segunda fase fica por conta do quinto episódio, dirigido pelo cineasta francês Michel Gondry, famoso pelos videoclipes de Björk e por filmes como ‘Rebobine, Por Favor’. Os dois clipes do programa podem ser vistos no You Tube (http://tiny.cc/flight e http://tiny.cc/flight2), assim como quase todos da série. Tem paródia de David Bowie (http://tiny.cc/bowie), uma bossa afrancesada (http://tiny.cc/bossa) e uma electro music bem fashion (http://tiny.cc/eletro).

FLIGHT OF THE CONCHORDS

Quando: quinta-feira, às 22h

Onde: HBO Plus

Classificação: 18 anos’

 

GRIPE SUÍNA
Peter Burke

Pânico moral

‘Uma das desvantagens da globalização, no sentido de eficiência ampliada das comunicações, é que não só as mensagens como as doenças podem se espalhar mais rápido do que no passado, e a atual epidemia de gripe suína exemplifica esse fato muito bem.

A epidemia é claramente uma ameaça real. Mesmo assim, existe o perigo de que as pessoas reajam de maneira excessiva a ela, ou reajam de maneira errada, o que poderia resultar em pânico coletivo. Pânicos coletivos -ou ‘pânicos morais’, como alguns sociólogos os denominam- são um fenômeno comum, talvez até comum demais.

Ocasionalmente o perigo é imaginário, como na onda de pânicos relacionados a bruxas que se espalhou pela Europa nos séculos 16 e 17 e resultou na morte de milhares de pessoas inocentes.

Na China, em 1768, por exemplo, surgiu um grande pânico causado por boatos de que pessoas sem moradia estariam roubando as almas das pessoas comuns, e foi necessária uma intervenção do governo para acalmar a situação.

Na metade de 1789, quando a Revolução Francesa estava começando, um boato (hoje conhecido como ‘La Grande Peur’, ou ‘o grande medo’) se espalhou pelas regiões rurais do país. De acordo com o boato, salteadores estavam se preparando para atacar aldeias e roubar sua comida, como parte de um complô da aristocracia contra o povo.

Em consequência, os camponeses se armaram e alguns deles decidiram atacar as casas dos nobres, em uma espécie de golpe preventivo.

Já em outras ocasiões o perigo é real, e não imaginário, mas os boatos servem para amplificá-lo, como no caso da praga que se abateu sobre a Europa em 1348 e retornou em diversas ocasiões -em Milão e outras cidades do norte da Itália em 1630, em Londres em 1665 e assim por diante.

Bodes expiatórios

Na esfera econômica, um pânico pode bastar para produzir os efeitos cuja possibilidade desperta o medo das pessoas, para começar.

Um exemplo vívido -e que oferece paralelos desconfortáveis com relação à situação presente- é o do pânico financeiro que tomou os EUA em 1873.

A crise surgiu depois de um surto de gripe equina e do colapso de um grande banco (o Jay Cooke & Co.) e resultou em uma depressão econômica que durou alguns anos.

Em casos de pânico coletivo, é comum que surja uma busca por bodes expiatórios. Em outras palavras, grupos ou até mesmo indivíduos são culpados por situações que resultam, ao menos em parte, de debilidades do sistema econômico, social ou político.

Não há nada de surpreendente nisso: indivíduos são visíveis, enquanto sistemas trabalham por efeito de uma ‘mão invisível’. Como resultado, histórias sobre complôs são tema recorrente nos pânicos.

Esses complôs são em geral atribuídos a grupos que já foram descritos como ‘demônios folclóricos’.

Em outras palavras, pessoas que são alvo de preconceitos em determinadas culturas -os católicos (em culturas protestantes), os judeus, os jesuítas, os aristocratas, os banqueiros (de olhos azuis ou de olhos castanhos), os maçons ou os comunistas. São grupos suspeitos de conspirar para envenenar, infectar, queimar, sequestrar ou empobrecer as pessoas comuns ou para promover um golpe de Estado ou uma revolução.

A praga que atingiu Milão em 1630 e tem parte importante em ‘Os Noivos’ [‘I Promessi Sposi’], o grande romance de Alessandro Manzoni, foi atribuída por alguns aos chamados ‘untori’, um grupo que espalhava um unguento mortífero pela cidade.

Histórias sobre vilões que envenenam os reservatórios de água ou satanistas que torturam e matam crianças estão em circulação há muitos séculos (pelo menos desde o século 14).

Nesse contexto, não parece irracionável falar em surtos de paranoia coletiva, desde que não descartemos os pânicos como completamente irracionais, patológicos ou absurdos.

Pode haver bons motivos para uma atmosfera de pânico ou incerteza que leve à difusão de rumores desse tipo.

Medo das bruxas

Os pânicos podem representar reação excessiva, mas são reação a um problema real. As bruxas não existiam (ou ao menos não tinham os poderes de causar o mal que lhes eram atribuídos), mas o medo de bruxas expressava tensões sociais reais.

Nunca existiram ladrões de almas, mas os rumores sobre eles expressavam ansiedade da parte das pessoas domiciliadas quanto ao número de pessoas que levavam uma existência nômade nas estradas chinesas.

Os salteadores não estavam mais ativos na França no verão de 1789 do que em outras ocasiões, mas os boatos sobre sua ação e sobre a conexão entre salteadores e a aristocracia nos dizem algo sobre os problemas e os temores dos camponeses franceses da época.

Não havia complôs para espalhar a praga, quer em Milão em 1630 ou em Londres em 1665, mas a praga mesma era um perigo muito real.

Caminho do meio

Será possível encontrar um caminho intermediário entre ignorar ameaças reais e sucumbir a pânicos coletivos? Os meios de comunicação têm papel importante a desempenhar, quanto a isso.

Os rumores que transmitem e amplificam os pânicos são muitas vezes reações à falta de informações confiáveis.

Se podemos afirmar que um pânico se assemelha a uma doença coletiva, o remédio -ou ainda melhor, o profilático- está no jornalismo responsável, quer na televisão, no rádio ou nos jornais.

PETER BURKE é historiador inglês, autor de ‘O Que É História Cultural?’ (ed. Zahar). Ele escreve regularmente na seção ‘Autores’, do Mais!.

Tradução de Paulo Migliacci.’

 

Leonardo Fróes

O beijo da morte

‘No cenário horripilante do ano da peste em Londres, 1665, o beijo da morte é um dos momentos de maior pavor teatral. Um homem já contaminado, que parece estar delirante ou bêbado, sem mais nem menos agarra uma mulher na rua, beijando-a à força na boca para contaminá-la também.

O episódio é dado por verídico e se intercala a muitos outros igualmente patéticos, mas nunca saberemos ao certo se ele foi inventado ou se de fato corresponde a uma visão real.

O repórter pioneiro que o narra em ‘Um Diário do Ano da Peste’, Daniel Defoe (1660-1731), tinha apenas cinco anos de idade quando a desgraça se abateu sobre Londres.

(Há uma boa tradução brasileira de ‘Um Diário do Ano da Peste’, por Eduardo San Martin, publicada em 2002 pela editora Artes e Ofícios.) Além disso, como repórter romanceador ou ficcionista dos fatos, Daniel Defoe mistura boletins semanais de óbitos e outros dados precisos sobre a calamidade a blocos de uma prosa envolvente, porque direta e voltada para a ação, sobre casos que o narrador diz ter ouvido contar. O ‘Diário’ foi escrito e publicado em 1722, mais de meio século depois da Grande Peste (bubônica), e esses casos assim, mesmo que tivessem base real, já estariam muito adulterados pelo passar do tempo.

Ao fazer sua reportagem retrospectiva da história, o jornalista tarimbado, que durante uma década redigiu praticamente sozinho todas as edições de seu pequeno e influente jornal, ‘The Review’, pesquisou não só estatísticas como também muitos folhetos contemporâneos da peste, que a sumariavam no calor da hora.

Ratos de porão

Trazida por ratos nos porões dos navios que atracavam em Londres e disseminada por pulgas dos cães e gatos que os comiam, a epidemia chegou ao auge no verão de 1665, matando no decorrer desse ano, segundo os cálculos do narrador do ‘Diário’, cerca de 100 mil pessoas.

Se inovou em sua época, pela maneira sutil como emendava o ficcional com o vivido, Daniel Defoe também se antecipou ao futuro no manejo de um estilo que é corrente hoje, quando a convergência cada vez mais estreita entre literatura e jornalismo tem determinado a criação de tantos produtos tecnicamente semelhantes ao ‘Diário da Peste’.

Sem ornamentar suas frases, sem exibir erudição, sem se demorar em excursos, traços peculiares à prosa setecentista, Defoe mantém o leitor sempre ligado na sucessão de quadros de horror que recompõe com eficácia.

Tudo começa com um certo disse-me-disse de que a peste vinha chegando. Em breve se evidenciam os primeiros casos, e a mortandade dispara.

Ruas, depois quarteirões inteiros se esvaziam. As casas onde há doentes, às vezes toda a família, são lacradas pela polícia e vigiadas dia e noite, para impedir que os pesteados fujam.

Proíbem-se bailes, bebidas e diversões públicas, mas, quando as coisas se agravam, ninguém mais garante a lei, porque até mesmo os tribunais são fechados. O caos, por fim, se instala em toda a cidade. Londres estava inchada quando a peste chegou. Com a queda da efêmera república inglesa e a restauração da monarquia, cinco anos antes, ‘as famílias arruinadas do partido do rei’ tinham voltado do exílio, assim como voltavam soldados, sem eira nem beira, da recente guerra com a Holanda.

Sem condições de saneamento, as zonas mais pobres forneciam a maior quantidade de cadáveres que os carroções levavam. Os ricos, aos primeiros alarmes, foram refugiar-se correndo nas propriedades rurais de que dispunham.

Mas os últimos fugitivos pobres da peste se refugiaram no mato, construindo toscas cabanas e sobrevivendo ao acaso, como depois irá fazer Robinson Crusoe, o personagem mais rico de Defoe.

Reconciliação

Apesar da devastação que causou, a Grande Peste, segundo seu narrador, teve um lado positivo, pois ‘a contemplação da morte próxima reconciliou entre si os homens de bons princípios’.

Apontando para as divergências, preconceitos e maus sentimentos que então se perpetuavam, ele diz que ‘outro ano de peste teria reconciliado estas diferenças’.

No ano seguinte, 1666, a peste não voltou, mas Londres foi assolada por seu devastador Grande Incêndio, que em menos de uma semana a reduziu pelo meio a cinzas.

LEONARDO FRÓES é poeta, tradutor e crítico.’

 

FOTOGRAFIA
Iara Crepaldi

A crise antes da crise

‘Em março de 2008, alguns meses antes de o mundo perceber o impacto da explosão da bolha imobiliária e o subsequente derretimento do mercado financeiro global, o fotógrafo americano Anthony Suau, 52, contratado da revista ‘Time’ e ganhador de dois Pulitzers (em 84 e 95), começou a registrar imagens do colapso iminente. O ensaio fotográfico, assim como a crise, estende-se até hoje.

Em fevereiro deste ano, uma das primeiras imagens dessa série foi premiada com o World Press Photo of the Year, o mais prestigiado prêmio fotojornalismo, e o que começou em subúrbios de pequenas cidades americanas se alastrou pelo resto do planeta.

A seguir, Suau apresenta com exclusividade o seu olhar sobre os primeiros sinais da crise.

1. Mad Max

Acompanhei o processo de desapropriação das casas em Cleveland (Ohio) e ganhei o World Press Photo de 2009 com a foto desse policial armado vasculhando uma propriedade vazia e saqueada à procura de invasores. Agora, muitos desses lares são habitados por viciados, traficantes e outros marginais. A região se tornou extremamente perigosa, e seus moradores se referem a ela como ‘Mad Max’.

2. A quebra, por fora

O clima do lado de fora da Bolsa de Valores de Nova York em 14 de março de 2008 era de choque. Aquele foi o dia da debandada em massa dos investidores do Bear Stearns e da queda acentuada das ações do que era o quinto maior banco de investimento dos EUA. Na sequência, o Federal Reserve (Banco Central dos EUA), com ajuda do J.P. Morgan, iria socorrer o Bear Stearns com US$ 30 bilhões, e a instituição acabaria sendo comprada pelo J.P. Morgan. Desde a Grande Depressão de 1930, o Fed não interferia para salvar um banco grande.

3. A quebra, por dentro

Em março de 2008, os investidores da Bolsa de Mercadorias de Chicago observavam atônitos a queda do índice S&P 500, que engloba as 500 principais empresas dos EUA. Na época, os mercados oscilavam cerca de cem pontos em um dia. Quando fiz esta foto, pensei: ‘Para onde estamos indo?’. Hoje, a resposta está em toda parte. A crise atingiu até a mina de ouro da avenida Madison, em Nova York. Dezenas de lojas luxuosas -de diamantes a alimentos- estão fechadas porque os proprietários não podem pagar os altos aluguéis.

4. Cesta básica

Pe ss oas aguardam na fila de comida gratuita em Cleveland, cena que também já é comum em Nova York. Começou com a população de baixa renda, e, agora, os voluntários veem, cada vez mais, diferentes classes sociais se alinharem à espera de alimentos.

5. Despejo

A família e os amigos de Marian Taylor foram ajudá-la no seu despejo.

A entrega do aviso de desapropriação era sempre tensa, carregada de emoções. Os policiais entravam nas casas com muita cautela, para garantir que os residentes estavam realmente saindo.

Às vezes, os moradores choravam em seus ombros. Às vezes, os ameaçavam com uma arma.’

 

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