Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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MONITOR DA IMPRENSA > PROFISSÃO PERIGO

Fotógrafo libertado no Afeganistão

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 07/11/2006 na edição 406

Na sexta-feira (3/11), o hospital da Emergency em Lash Kargah, no Afeganistão, informou que, na estrada para Kandahar, poderia ser encontrado o fotojornalista Gabriele Torsello – solto por seus raptores 23 dias depois de seqüestrado. Ele tinha sido aprisionado nessa mesma estrada no dia 12 de outubro.

Fato é que Gabriele passou essas mais de três semanas acorrentado num cubículo sem luz, vendo seus algozes duas vezes por dia, quando lhe era levada à guisa de comida uma lavagem com um pouco de batata e uma fatia de pão – até a água de beber era escassa. Ficava sempre só com seus medos e a pensar: por que ele? Não entendia; em seu trabalho, se sentia seguro. Mas voltava para Cabul quando cinco homens pararam o ônibus em que estava e o prenderam.

Sobre sua libertação, o governo italiano é reticente. Fala-se à boca pequena que tanto no Iraque quanto no Afeganistão os italianos são conhecidos como bons pagadores de reféns e informações que supostamente possam proteger os militares que estão lá em operação. Assim como teria pagado o resgate para a libertação da jornalista Giuliana Sgrena, do Il Manifesto, também o fez agora. Todos sabem off the records desses pagamentos: os militares, a polícia judiciária, os intermediários, sempre estão presentes como chacais nas negociações de seqüestro.

A Farnesina (o Itamaraty italiano) entregou as negociações ao Servizo per le Informazioni e la Sicurezza Militare – o serviço secreto italiano. O objetivo era desfazer-se dos chacais, pagar o resgate somente uma vez e às pessoas certas. Para se ter uma idéia de como funciona esse comércio: no sábado, 28/10, era oferecida por 15 mil dólares a foto de uma pessoa decapitada como sendo de Gabriele. Tratava-se de um pobre tradutor afegão.

Não podia ser diferente, o contingente de alpinos italianos acantonado em Cabul é como um cego armado até os dentes que, para dar um passo fora do quartel, conta com as informações do serviço secreto, pois é este quem dá um monte de dinheiro aos senhores da guerra e aos chefes tribais para que tudo corra bem. Grande parte da opinião pública é contrária ao pagamento de resgates, pois torna o próprio país refém desses ‘meio bandidos’. Todavia, é fácil minimizar sobre o sangue dos outros quando não se está sangrando.

Violência irracional

Em suas primeiras declarações, Gabriele conta que se sentia tonto quando percebeu que estava livre, sem as correntes que o prendiam e podendo ver a luz do dia, que lhe fora negada durante o cativeiro. Não entendia bem o que estava acontecendo, andando sozinho no acostamento da estrada, pensava que seria morto a qualquer momento. Havia passado um pesadelo de três semanas com a morte que o rondava. Pensava que aquela liberdade fosse uma armadilha, vinha-lhe à mente o arrependimento de não ter dedicado mais tempo às pessoas que ama. Nesse momento, apareceu uma camionete e dela saltaram alguns homens sorridentes; eram italianos como ele, e um disse aos gritos: ‘Estamos aqui para te levar para casa!’. O fotógrafo explodiu em lágrimas, aquelas que havia contido durante o tempo de prisão.

Alegra-se sua família, faz-se festa em Alessano, sua cidade natal, onde os habitantes festejam ao redor de seus pais. Gabriele, como primeira providência, envia SMS ao pai: ‘Mais uma vez você me deixou sem palavras, meu querido amor e pai…’ A matéria publicada pelo jornal la Repubblica tem o seguinte fecho: ‘A odisséia do último jornalista italiano raptado em zona de guerra se conclui assim da melhor forma…’

Será que é isso mesmo? Será que ao fato é lícito aplicar-se o título da obra de Shakespeare All’well that ends well (tudo está bem quando termina bem)? Não se deve esquecer que Gabriele Torsello não foi ao Afeganistão fazer a guerra, muito pelo contrário, fora registrar e denunciar ao mundo as mazelas que a guerra está provocando ao país desde a invasão soviética (1979/89), passando pela feroz guerra civil-religiosa e finalmente, desde 2001, a invasão de tropas estrangeiras, com desculpa de combate ao terrorismo. O que pode estar bem para quem, exercendo a profissão de informar, é alvo de violência irracional e gratuita que lhe permanecerá indelével?

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Jornalista

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