Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MONITOR DA IMPRENSA > CASO KELLY

Greg Dike, o santo da BBC

17/02/2004 na edição 264

Bagehot, pseudônimo histórico de um colunista da revista britânica The Economist, publicou artigo na edição de 5 de fevereiro no qual defende uma tese controvertida: as circunstâncias que tornaram popular o ex-diretor-geral Greg Dyke contêm as sementes da ruína da BBC. Bagehot analisou o interminável drama da emissora, que teve início com acusações do repórter Andrew Gilligan ao relatório do governo Blair sobre as armas do Iraque, passou pelo suicídio do cientista David Kelly, fonte de Gilligan, e que terminou por fragilizar a BBC após a conclusão do inquérito da Justiça, que responsabilizou a corporação pela crise.

Para Bagehot, os antigos diretores-gerais da BBC não representaram o papel de herói ou vítima do establishment, mas Greg Dyke o fez: conseguiu apoio popular e dos ex-colegas de emissora – na mesma intensidade em que desagradou o governo e lorde Hutton, que liderou o inquérito sobre o Caso Kelly. Segundo o autor, estas vantagens explicam por que Dike ajudou a transformar o que deveria ter sido uma vitória do governo em derrota parcial.

No dia em que o relatório de lorde Hutton sobre o Caso Kelly livrou o governo e culpou a BBC, Gavyn Davies, presidente do conselho de governors da corporação, renunciou. No dia seguinte, os conselheiros remanescentes demitiram Dyke. Sintomaticamente, ele não saiu em silêncio, diz Bagehot. Após ter anunciado sua partida na hora do almoço, passou o resto do dia excursionando pelos escritórios da BBC, aproveitando a devoção genuína que angariou em sua gestão de quatro anos. Fora do prédio da BBC, milhares de funcionários cantavam e sacudiam faixas exigindo sua recontratação; dentro, dinheiro era arrecadado para um anúncio de página inteira no Daily Telegraph, deplorando o tratamento brutal que lhe fora dado. Segundo as manchetes de jornal, a BBC estava ‘em choque’ e ‘em perigo’, vulnerável como nunca sob a sanha de um governo vingativo.

Ao decidir tão conclusivamente contra a alegação da BBC de que o governo exagerou no dossiê sobre as armas do Iraque, lorde Hutton certamente mexeu no coração da cultura de liberdade da corporação. O governo sabe muito bem que punir a emissora pública pode resultar politicamente fatal. Ministros, tocados pela repercussão do relatório, fizeram fila não apenas para declarar seu amor à BBC, mas também para elogiar Greg Dyke. ‘O que eles e os seguidores de Dike não observaram é que no sucesso do ex-diretor-geral estavam as sementes da ruína da corporação’, afirma o autor do artigo.

Quando Dyke tomou posse há quatro anos tinha posição forte. Afinal, substituíra John Birt, um dos diretores-gerais mais eficientes da BBC, mas também um dos mais detestados. Lorde Birt assumiu quando a corporação estava em perigo real (em oposição a artificial) por parte de um hostil governo conservador. Sua reação foi conter a tendência anarquista da emissora. O ‘birtismo’ funcionou, mas não foi muito divertido.

Quando Dyke chegou, conta Bagehot, a BBC estava não apenas salva, mas nadando em dinheiro, graças à taxa paga pelo público para ter aparelho de TV e aos lucros do uso eficiente das novas tecnologias. Dyke rapidamente mudou a BBC. Seu mantra era ‘cortar as besteiras e deixar acontecer’. De acordo com Jane Root, controladora da BBC2, ele remexeu no comportamento de 26 mil pessoas. Delegou aos gerentes poder de decisão, enquanto seu estilo informal contrastava com o do rígido, tímido Birt. Competitivo até a raiz dos cabelos, tinha na ITV um concorrente enfraquecido pela prolongada seca de anunciantes, pelo colapso de seu serviço digital e pela fusão com outras empresas. Pela primeira vez a BBC venceu a rival nas batalhas de audiência, enquanto seu site na internet virava referência mundial de jornalismo online.

Apoio e demissão

O expansionismo da BBC foi visto pelos rivais comerciais como profundamente injusto. Na convenção da Royal Television Society em Cambridge, no outono europeu, a maioria dos delegados concordou com a proposição: ‘A BBC está fora de fora de controle’.

Quando a emissora se viu em guerra com o governo no bojo das acusações de Gilligan, a estrutura de gerência delegada de Dyke mostrou-se incapaz de responder à crise. O próprio Dyke falhou. Seu cérebro político era menos desenvolvido do que seu senso de negócios – uma falha fatal para o chefão da BBC, que é também seu editor-chefe, afirma Bagehot. Para ele, Dyke pode ter sido um contraponto bem-vindo ao supercontrolador Birt, mas o pêndulo tinha inclinado demais no sentido oposto.

Algo de bom ainda pode resultar deste mau momento da BBC, imagina Bagehot. Mas ele acredita que o próprio sistema de governança, cujos executores mostraram-se incapazes de um olhar objetivo sobre a corporação, provavelmente sofrerá revisão.

É improvável, contudo, que o governo entregue a BBC à Ofcom, a nova super-reguladora das comunicações: a BBC é grande e peculiar demais. Alem do mais, isso poderia soar como um ato de vingança. O provável é que se tente pôr mais distância entre a BBC e seus governors – o Inquérito Hutton mostrou que, no presente, eles se vêem mais como os campeões da BBC do que como seus fiscais, porque falharam na investigação que conduziu à briga com o governo. Uma governança melhor fortaleceria a BBC, e não o contrário.

No que se refere ao jornalismo da BBC, a ficção de um diretor-geral como editor-chefe deve cessar, decreta Bagehot. A BBC é uma organização vasta demais para que seu executivo principal supervisione eficazmente a maior operação de notícias do mundo: ‘Ela necessita de um editor-chefe dedicado, que dê responsabilidade aos editores dos programas, que os apóie quando trabalham direito e os demita quando não.’

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