Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Homenagem ao ‘Charlie Hebdo’ divide escritores e jornalistas

Por Leticia Nunes em 08/05/2015 na edição 849
Capa do 'Charlie Hebdo' após o atentado de janeiro

Capa do ‘Charlie Hebdo’ após o atentado de janeiro

Provocou polêmica a homenagem concedida ao semanário francês Charlie Hebdo pelo PEN American Center, braço americano da International PEN, organização mundial de escritores que defende a liberdade de expressão. O jornal satírico foi alvo de um brutal ataque de extremistas islâmicos em janeiro de 2015.

A decisão de dar o “Prêmio de Coragem na Liberdade de Expressão” ao Charlie Hebdo incitou a ira de diversos escritores membros da associação, que se recusaram a participar da cerimônia de premiação, realizada em 5/5 em Nova York. Mais de 150 pessoas assinaram uma carta de protesto pela homenagem. Na mensagem, o ataque ao semanário satírico foi descrito como “revoltante e trágico”, porém seus autores diziam haver uma “diferença fundamental entre apoiar firmemente a expressão que viola o aceitável e recompensar tal expressão”.

Coincidentemente, a cerimônia ocorreu na mesma semana de um atentado a uma exibição de charges do profeta Maomé, no Texas; dois agressores armados foram mortos pela polícia na ocasião. Os jornalistas do Charlie Hebdo, no entanto, recusaram-se a reconhecer similaridades com o ataque à redação de Paris que matou oito de seus profissionais.

Desconforto

A romancista Rachel Kushner foi uma das que se recusaram a participar do evento da PEN, alegando não se sentir confortável com a postura de “intolerância cultural” do semanário francês.

A escritora americana Francine Prose também se manifestou: “Nossa função na apresentação de um prêmio é homenagear escritores e jornalistas que estão dizendo coisas que precisam ser ditas, que trabalham ativamente para nos contar a verdade sobre o mundo em que vivemos. Esta função tão importante requer perseverança e coragem. E isso não é exatamente o mesmo que desenhar caricaturas grosseiras e zombar de uma religião”.

Os outros autores que se retiraram do evento foram Peter Carey, Michael Ondaatje, Teju Cole e Taiye Selasi.

Em favor da liberdade

O escritor Salman Rushdie, alvo de uma “fatwa” pela publicação do livro Versos Satânicos em 1989, foi um dos que apoiaram a decisão da PEN e reprovaram os protestos dos colegas. Em artigo para a revista The Atlantic, o jornalista de origem judaica Jeffrey Goldberg opinou sobre a controvérsia. Ele apresentou-se como um defensor absoluto da liberdade de expressão e disse que isto supera seu desagrado em casos de blasfêmia, e que, em sua concepção pessoal, Deus é grande demais para dar a mínima para cartuns satíricos.

Goldberg disse, inclusive, que uma série de mitos cerca o Charlie Hebdo. Ele explicou que, embora o veículo seja colocado como antimuçulmano, é, na verdade, apenas crítico ao Islã, bem como a todas as outras religiões. O jornalista lembra que tanto o judaísmo quanto o cristianismo já foram alvo das sátiras do jornal (muito embora um de seus cartunistas tenha sido demitido devido a uma piada antissemita).

Goldberg também frisou que o semanário é especializado em atacar ideias, e não pessoas, e que ideias sempre devem ser testadas, ainda que possam ser consideradas repulsivas por determinados indivíduos. “Só porque um cartum critica uma doutrina isso não significa que ele deva se tornar objeto de análise e crítica”, comentou.

Goldberg crê que os críticos do PEN podem não perceber, mas são reféns do mito de que o terrorismo é uma arma dos marginalizados e dos mais fracos. “O terrorismo definitivamente não é mais uma arma dos fracos; é uma arma usada contra os fracos. Os cartunistas e escritores do Charlie Hebdo não tiveram a mínima chance contra seus assassinos”, falou. Ele também ironizou a postura dos escritores que se recusaram a participar do evento, dizendo que estes deveriam conhecer o trabalho de autores como Voltaire e Spinoza.

Jean-Baptiste Thoret, crítico de cinema do Charlie Hebdo que escapou de ser morto no ataque por ter chegado atrasado no dia do atentado, declarou que a homenagem era feita à coragem em si, ao princípio da liberdade de discurso, e não ao conteúdo do semanário.

Suzanne Nossel, diretora-executiva da PEN, também rebateu as críticas, justificando que “faz parte do papel dos sátiros em qualquer sociedade livre desafiar o poderoso e o sagrado, rompendo as fronteiras de forma a tornar a expressão mais livre e mais robusta para todos nós”. Ela disse ainda que o Charlie Hebdo merece ser reconhecido por sua postura intrépida e reforçou que a homenagem não necessariamente endossa o conteúdo dos cartuns do jornal.

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