Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

MONITOR DA IMPRENSA > CRÍTICA DE MÍDIA

Howard Kurtz e o mistério da coluna sobre a instrutora de yoga

Por lgarcia em 29/08/2013 na edição 761

Tradução e edição: Leticia Nunes. Informações de Erik Wemple [“Pari Bradlee and the brilliance of Fox News’s Howard Kurtz”, The Washington Post, 27/8/13], Jason Linkins [“Howard Kurtz Perving Out On Yoga Instructors On The Internet Is Now 'Media Reporting,' Apparently”, Huffington Post, 27/8/13] e Dylan Byers [“Sally Quinn 'appalled' by Kurtz column”, Politico, 27/8/13]

O crítico de mídia americano Howard Kurtz tornou-se, ele próprio, alvo de críticas na mídia por uma coluna em que questionou o bom gosto das fotografias publicadas no Facebook pela nora de um veterano jornalista. Kurtz não aprovou, digamos assim, as fotos postadas por Pari Bradlee – casada com o filho de Ben Bradlee, ex-editor do Washington Post – na rede social. Para lembrar: Ben Bradlee era o editor de Bob Woodward e Carl Bernstein no caso Watergate, na década de 70.

O colunista, que há poucos meses trocou a CNN pela conservadora Fox News, insinuou que as imagens de Pari eram “proibidas para menores”. Em uma delas, a professora de yoga aparecia nua, como descreveu Kurtz, vista “de trás, torcendo um braço nas costas”. Em outra, vestia um “sutiã tipo queijo suíço”.

Choveram críticas na internet. “Ninguém se importou com as fotos de uma tal de Pari Bradlee no Facebook”, escreveu Erik Wemple em seu blog sobre mídia no Washington Post. “Exceto por Howard Kurtz”, continua ele, ressaltando que as fotos de Pari, pelo menos no julgamento do colunista, constituíam uma questão pública que merecia ser analisada no site da Fox News.

No artigo intitulado “Nora de Ben Bradlee revela (quase) tudo no Facebook”, Kurtz diz:

“Ben Bradlee, um dos grandes homens do jornalismo americano, celebrou ontem seu 92º aniversário, e sua nora prestou homenagem postando uma foto deles e dizendo ‘é um sonho fazer parte desta família’.

“Esta, no entanto, é apenas uma das fotos que Pari Bradlee vem colocando no Facebook.

“Sua nova foto de perfil, com um sutiã tipo queijo suíço que deixa pouco para a imaginação (…), é tão reveladora que provocou uma corrente de comentários animados. Em outra foto recém-postada ela está nua, fotografada por trás, torcendo um braço nas costas.

“Pari Bradlee é uma personal trainer e instrutora de yoga que dá aulas particulares e cujos clientes incluem muitos membros da elite de Washington. E ela está fazendo marketing pessoal com uma combinação do sistema de compartilhar tudo do Facebook e seu sobrenome famoso.

“Teriam as fotos ido longe demais?”

Cadê a pauta?

Para Wemple, Kurtz conseguiu a proeza de escrever uma coluna inteira sobre uma questão que – pelo menos sob a ótica jornalística – não existe. “Seu post não contém nenhuma citação ou depoimento de alguém alegando que as fotos foram longe demais”, diz o blogueiro no site do Post. “Uma olhada rápida” na página de Pari no Facebook, diz ele, deixa claro que as fotos, “pelos padrões atuais da internet”, não foram longe demais. “E o próprio Kurtz se abstém de dizer que as fotos foram longe demais. Ele simplesmente pergunta se elas foram longe demais, o que significa que ele acha que foram, mas, ao colocar a questão, ele consegue se manter naquele meio termo sagrado no qual se apoiou durante toda a sua carreira”, alfineta.

Kurtz também foi criticado em artigo de Jason Linkins na seção “Eat the Press”, do Huffington Post. “Eu não sei o que ainda há para dizer sobre Howard Kurtz, que há tempos abandonou qualquer apego em fazer algo particularmente notável nas plataformas que continua ganhando para fazer ‘crítica de mídia’. Mas, ok, hoje, em seu novo espaço na Fox News, ele dá o furo de que uma instrutora de yoga jovem e atraente é jovem e atraente, e além disso está no Facebook”, ironiza.

Controle social bizarro

Linkins observa que o que Pari Bradlee faz de sua vida e carreira – como instrutora de yoga, veja bem – é problema dela, e que não há razão para que suas fotos sejam submetidas a uma “crítica de mídia”. Ele acusa Kurtz, por outro lado, de tentar, ao criticar as fotos – de uma mulher nua, ou com pouca roupa em pose sensual –, exercer algum tipo de controle social bizarro sobre a sexualidade feminina, e sugere que isso é coisa de pervertidos.   

“Por que Kurtz sentiu a necessidade de dedicar sua coluna de mídia à página de Pari Bradlee no Facebook é um mistério”, escreveu Dylan Byers no Politico, dizendo que procurou o colunista, mas não obteve resposta até o fechamento de seu texto. Sally Quinn, mulher de Ben Bradlee e colunista do Washington Post, especula: “Talvez tenha sido uma semana fraca de notícias. Não sei qual a intenção dele. Eu iria atrás de um filho de um amigo? Não”, afirmou à organização liberal Media Matters. Ela, que é amiga de Kurtz, disse ter ficado surpresa e sentida com a história.

Da CNN à Fox News

Os últimos anos foram de mudanças para a carreira de Kurtz. O colunista trabalhou no Washington Post por quase três décadas, até 2010, até se mudar para o Daily Beast. Em maio, envolveu-se em uma polêmica ao comentar o caso de um jogador da NBA que anunciou sua homossexualidade. Kurtz acabou demitido do site ao publicar uma informação errada sobre o anúncio do atleta.

Em junho, ele afirmou que trocaria o canal de notícias CNN – onde apresentou o programa Reliable Sources por 15 anos – pela rival Fox News. Na ocasião, Kurtz disse que estava feliz por levar sua crítica de mídia independente para a emissora, e a declaração foi ironizada por membros da mídia americana, já que a Fox News é reconhecidamente de direita.

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