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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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MONITOR DA IMPRENSA > ENTREVISTA / JOÃO SAYAD

“Ideia é racionalizar a TV Cultura”

Por Jotabê Medeiros em 06/08/2010 na edição 601

O presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, nega que pretenda demitir 1.400 funcionários em um processo de reformulação da TV Cultura, gerida pela instituição. A notícia, publicada na quarta-feira (4/8) pelo portal R7, também dá conta de que a emissora pretenderia vender parte de seu patrimônio para se capitalizar. Sayad atribui o noticiário, que considera ‘exagerado’, à proximidade das eleições presidenciais, mas aponta ‘inchaço’ na TV e confirma que vai extinguir programas.


Em nota distribuída no início da tarde, a emissora explicava que ‘precisa se renovar’, pois perdeu ‘audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente’. Na TV Cultura, fontes ligadas à direção ouvidas pelo Estado trabalham com a perspectiva do corte de 400 funcionários nos próximos meses. Sayad confirma que haverá demissões, mas diz que não serão horizontalizadas. ‘Serão examinadas caso a caso’, diz, nesta entrevista ao Estado.


***


Hoje [quarta, 4/8] foi um dia de notícias bombásticas sobre um provável desmonte na TV Cultura.


João Sayad – Nós reformulamos a grade de programação, o jornalismo, trouxemos a Marília Gabriela, e alguns programas vão ser terminados. E isso criou um ambiente explosivo, devido principalmente ao ano eleitoral. A ideia é racionalizar a televisão.


O diagnóstico é de que há um certo inchaço?


J.S. – Tem um certo inchaço, mas isso tem de ser visto caso a caso. Tem gente muito talentosa em todas as áreas.


Então, o número de 1.400 demissões é exagerado?


J.S. – É um número eleitoral. Até porque isso tudo passa pelo conselho e pela proposta de reformulação da grade. Haverá mudanças nos quadros, isso é certo.


O sr. pode dizer quais programas serão extintos?


J.S. – O Vitrine deverá ser suspenso para reformulação. O Manos e Minas sai da grade, assim como o Login. Em compensação, haverá um jornal com debates todo dia. Teremos sessões de cinema em acordo com a Mostra de Cinema de São Paulo.


O Metrópolis será mesmo extinto?


J.S. – Não, o Metrópolis será exibido todo dia, é parte do jornalismo.


E quem será contratado para os novos programas?


J.S. – A Maria Cristina Poli, por exemplo, dirigirá o novo Jornal da Cultura. Não temos recursos para fazer grandes investimentos, então deveremos cortar nas despesas de custeio.


Qual será a fatia cortada do custeio da emissora?


J.S. – Algo na ordem de R$ 10 milhões.


Há uma grande possibilidade de o ex-governador Geraldo Alckmin ser eleito novamente. O sr. tem algum diálogo com ele, no sentido, por exemplo, de melhorar o volume de recursos para a emissora?


J.S. – Acho que há uma boa condição. Mas não conversei com ele ainda, acho um pouco prematuro.


É verdade que o sr. pensa em vender o terreno onde está a sede da TV Cultura, na Água Branca?


J.S. – Isso é uma implicância minha. Eu acho que, numa reformulação, quando a TV for mais ágil e mais moderna, quando nos tornarmos compradores de conteúdo, pode perfeitamente prescindir de um espaço tão grande. Mas não tem nada certo. O terreno lá tem 30 mil metros quadrados de área, com uns 8 mil metros de área construída. Isso é um modelo da TV dos anos 1960, que hoje pode ser menor e mais eficiente. Mas é um projeto a longo prazo.


E como essas mudanças podem fazer com que a audiência e o interesse pela TV Cultura aumentem?


J.S. – Audiência é algo que muda muito lentamente. Em 20 anos, a TV Globo perdeu audiência, mas algo em torno de 10%, 20%. Nós precisamos ter claro que a TV Cultura é um canal de difusão público. Então é preciso trazer programas que interessem ao público, mas que sejam diferentes da TV comercial. Não pode servir para veicular filmes que não deram certo, que só estão ali porque foram produzidos pelo Estado, pelo governo. Nós não temos essa obrigação. As mudanças serão para dar dinamismo. O Jornal da Cultura será basicamente de debates. Documentário que ficou chato ou feio, não é porque foi financiado pelo Estado que vamos ter de exibir. Hoje mesmo eu me reuni com o conselho de programação e apresentei a nova proposta. Queremos ter uma grade estável e que seja reconhecida pelo público, com ênfase nos jornais, na exibição de documentários e filmes. Mas vamos manter aquilo que representa o espírito da TV Cultura, como o Roda Viva, o programa da Inezita, o Rolando Boldrin e o Provocações.


O orçamento da TV Cultura para 2010 já está definido?


J.S. – Sim, mas as receitas foram superestimadas. Há um otimismo exagerado no que pode ser arrecadado com publicidade. Foi tudo feito de uma forma muito sonhadora, vamos ter de fazer um grande ajuste no segundo semestre. O Cícero Feltrin (ex-diretor de marketing e captação) elaborou uma proposta que ele mesmo não conseguia executar, e que é parte das dificuldades orçamentárias deste ano.


Outra notícia dá conta de que o sr. pretende diminuir ainda mais o espaço da publicidade comercial na TV Cultura.


J.S. – Não, eu digo que não se pode depender tanto de serviços para terceiros (gravações de programas e vídeos para o Tribunal Superior Eleitoral, a Procuradoria da República, a TV Assembleia e a TV Justiça). Dá um trabalhão, gera uma porção de problemas trabalhistas, e em vez de se dedicar à atividade-fim da própria TV, passa a se dedicar à produção para outras duas TVs. A receita que se consegue não justifica o comprometimento de tanta gente da TV Cultura trabalhando.

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