Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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MONITOR DA IMPRENSA > Jornalismo e intervenção militar

A indústria de vender a violência instalada na mídia

Por Carlos Wagner em 20/02/2018 na edição 975

Texto publicado originalmente no blog Histórias Mal Contadas.

O primeiro diagnóstico feito pelo general de Exército Walter Braga Netto a respeito da violência no Rio de Janeiro é correto. Disse o general, poucas horas depois de ser nomeado interventor federal para a área de segurança pública do Rio:– Muita mídia.

Nada tem mais leitura, ouvintes ou telespectadores do que as notícias sobre violência. Os vídeos de câmeras de segurança flagrando bandidos em ação têm altíssimos índices de visualizações nos sites dos jornais. Não é por outra razão que existem as empresas de comunicação, cujo principal produto são as notícias policiais.

E também se deve ao gosto por esse tipo de notícia o sucesso dos jornais populares, que são conhecidos entre os leitores como “aqueles que se torce e sai sangue”. Tem leitura certa as reportagens especiais e os documentários sobre os feitos de grandes bandidos, tipo Lúcio Flávio (filme Passageiro da Agonia), Fernandinho Beira-Mar, o cérebro da facção Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, e Marcola, considerado o arquiteto do Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo.

Esse é o cenário. Agora vamos esmiuçar o diagnóstico feito pelo general sobre a violência no Rio. Temos que ler nas entrelinhas da declaração. Ele não está se insurgindo contra a liberdade de imprensa. Ou indo contra o volume de notícias publicadas.

A reclamação tem outro endereço. É a maneira como construímos as notícias sobre a violência, que têm um dos seus principais esteios a mensagem de que a próxima vítima pode ser a pessoa que está lendo, ouvindo ou vendo a notícia. E essa maneira de estruturar a notícia tem pouco a ver com o estilo jornalístico. E muito mais com o interesse comercial do jornal, do site, do rádio ou das TVs.

Vejamos: a violência é um produto para a mídia que é patrocinada com anúncios publicitários das empresas de segurança privada, seguradoras de bens (veículos e residências) e vendedores de equipamentos (câmeras de vigilância, alarmes e armas). Quanto mais se bater na tecla de que “a próxima vítima pode ser você”, mais pessoas vão correr na busca de proteção, comprando os produtos da indústria da segurança privada. Um exemplo. Não é só porque a Região Metropolitana de Porto Alegre perfila-se entre os locais na América do Sul com os maiores índices de roubo e furto de veículos que o seguro dos carros é o mais caro do Brasil. Tem a ver com a sensação da “próxima vítima”, que é usada pelas seguradoras para aumentar o preço do seguro.

É contra isso que o general reclama. Pergunto aos meus colegas repórteres, os calejados e os novatos, tem como fazer diferente? A passos lentos, mas as redações estão caminhando para dar o tom certo nesse tipo de notícia. E não estão fazendo isso por serem boazinhas com os leitores. Mas porque existem no Ministério Público Federal (MPF) procuradores que estão se especializando no assunto. Conversei longamente com um deles sobre o assunto. Falou que o foco do trabalho são as manchetes das notícias e os comentaristas de rádio e TV que fazem um carnaval ao comentar as reportagens.

Entre os repórteres, o tom que se deve dar as notícias sobre violência é motivo de uma velha e interminável discussão. Eu defendo a ideia de contextualizar a notícia para evitar generalizações. No final da década de 80, eu vivi durante uma semana na Grande Cruzeiro – um conjunto de 27 vilas populares, onde moram 250 mil pessoas – na época, uma das áreas mais violentas de Porto Alegre. A reportagem era descrever como era o cotidiano das pessoas que viviam cercadas pela violência.

A minha convivência com os moradores mudou a minha cabeça. Vi solidariedade entre os vizinhos, respeito dos bandidos pelos trabalhadores e vi de perto o preconceito dos moradores de Porto Alegre com quem mora em vila popular. Muitas trabalhadoras domésticas ocultavam de seus patrões o seu endereço. A maneira como escrevemos as nossas notícias sobre violência estigmatizam pessoas que moram em áreas descritas por nós como endereço de quadrilheiros.

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Carlos Wagner é jornalista, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, entre eles “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017.

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