Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

MONITOR DA IMPRENSA > ITALIANOS NO IRAQUE

Informação enganosa

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 02/11/2004 na edição 301

Logo no início da guerra ao Iraque, a Itália mandou um contingente de 2.700 militares para integrar as tropas da coalizão. Claro que a coisa não foi tranqüila, afinal, estamos na Itália, onde nada é tranqüilo há mais de 1.000 anos. Os protestos foram muitos, expressos em passeatas em que havia de tudo: pacifistas verdadeiros, pacifistas de fim de semana, políticos de oposição, militantes ambientalistas, e até um grupo que exigia a paz, nem que para isso ‘tivesse que usar a força’.

Passado o charme inicial, talvez por desgaste de material, tudo voltou à calma de antes. Até que no dia 12 de novembro de 2003 houve um atentado ao quartel-general italiano com carro-bomba, que deixou mais de uma dezena de militares mortos. Voltaram as passeatas, a exigência de retirada imediata das tropas italianas; nas praças públicas, manifestantes escondiam o rosto com o xale árabe, queimavam bandeiras dos Estados Unidos e de Israel. Os funerais dos italianos foram um acontecimento transmitido em rede pela televisão, com a presença de todas as autoridades.

Clandestinos

Passado o trauma, o presidente do Conselho de Ministros, Silvio Berlusconi, que também é proprietário da maior rede privada de comunicação do país (TVs, rádios, jornais e revistas), no sábado de Aleluia (10/4/2004) fez golpe de cena: apareceu de improviso no quartel-general italiano em Nassiria (Iraque). Segundo foi dito, a viagem era sigilosa por questão de segurança, mas tudo correu melhor do que a encomenda. Berlusconi, que não resiste a um holofote, foi filmado almoçando com os soldados, usando colete à prova de balas, sendo fotografado pelos recrutas e falando de futebol (ele é também o dono do Milan (time da primeira divisão do futebol italiano).

A repercussão foi excelente, até a oposição aprovou a viagem. Mas a alegria durou pouco. No dia 13, a TV al-Jazira, do Catar, levou ao ar vídeo com quatro italianos seqüestrados pela guerrilha islâmica: apareceram exibindo a primeira página de seus passaportes. Eram Fabrizio Quattrocchi, Umberto Cupertino, Salvatore Stefio e Maurizio Agliana.

A agência Reuters havia noticiado alguma coisa quatro dias antes, mas o Ministério do Exterior italiano constatou que nenhuma agência humanitário, nenhum jornalista, nenhum militar havia faltado à chamada. Portanto, não constavam italianos desaparecidos no Iraque. Com o vídeo, ficou-se sabendo que de fato eram italianos, mas que tinham entrado no país sem passar pela Embaixada em Bagdá: estavam lá em caráter anônimo.

Profissão: mercenário

Esses fatos deixaram de ser aprofundados quando, no dia 14 de abril, a al-Jazira mostrou um vídeo em que o refém Fabrizio Quattrocchi era assassinado com um tiro na nuca. Esse vídeo não foi visto na Itália por uma questão de autocensura da TV, mas diz-se que ele, ao ver-se perdido, teria gritado: ‘Assim morre um italiano’. Jamais se saberá se a coisa aconteceu assim mesmo. Depois disso viraram heróis nacionais e nada mais se perguntou sobre o que faziam no Iraque. Diariamente apareciam em todas as primeiras páginas dos jornais, na TV, tudo muito repetitivo: o pai de um deles na porta de casa, onde está desfraldada a bandeira nacional, pedindo intervenção do governo; a irmã de outro, com um terço na mão, pedindo clemência aos raptores e, finalmente, numa pose felliniana, o irmão do morto, com cara de choro na porta do bar amparado por amigos. No dia 29 de abril até o papa fez apelo à libertação dos reféns, ‘em nome do Deus único’.

Finalmente, numa operação meio misteriosa, os três sobreviventes foram liberados no dia 8 de junho. Retornaram à Itália no avião presidencial e desembarcaram todos pimpões, como se fossem os novos heróis da nação. Assim foram recebidos pelo parentes e moradores de suas cidades. Um deles até teve a desfaçatez de declarar que nos meses de cativeiro passou muita fome, mas do alto de seu mais de 1,90m pesava 116 quilos, algo meio incompatível para quem tivesse passado fome tanto tempo.

Tudo acabaria bem e não se falaria mais no assunto se não aparecesse o juiz Giuseppe De Benedictis, do Tribunal de Bari, encarregado do inquérito para descobrir o que esses italianos estavam fazendo no Iraque. Ele os classificou como mercenários. Mercenário é o soldado que se vende a um exército estrangeiro, o que é proibido pelo código penal italiano.

No período em que foram notícia, a mídia italiana resolveu não investigar seu verdadeiro escopo no Iraque. Era mais interessante deixar que simples vendidos fossem imaginados como heróis. Isto é no mínimo informação enganosa.

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Jornalista

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