Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

MONITOR DA IMPRENSA > TV CULTURA

Intervenção cultural

Por Fernando Schweitzer em 10/08/2010 na edição 602

Reacionários e cultura sempre foram incompatíveis. Seja nos primordiais tempos das cruzadas para com os renascentistas, ou nas ditaduras democrático-fascistas europeias para com autores como Marx, tal qual com Chico Buarque na dita e representativa dita por uns seres por aí ‘dita branda’ brasileira.

Neste cenário pós-moderno, anti-moderno, em que nos encontramos, iremos deparar com vários absurdos ou verdadeiros disparates. Ao ver a TV em terras brasilis depois de um exílio voluntário de um ano e meio, assustei-me acidamente com o que vi. Dentre muitos casos, o que mais me afetou, tanto no sentido padrão deste verbo como no colóquio ‘Que pessoa mas afetada!’, de fazer escândalo mesmo, foi a polarização midiática entre PT e PSDB. Como se estes tivessem realizado de forma diferenciada seus mandatos corrupto-presidenciais.

Em meio a esse perfil sociocultural hipócrita ou talvez burro nos resta navegar, já que por postura política recuso-me a assinar TV a cabo e assim financiar a invasão do Iraque, ou, em breve, da Venezuela pelos ‘respeitáveis’ mandatários e multimilionários do Império do Norte. Todavia que na nossa TV ‘cabeada’ não existem nada mais que miles de canais norte-americanos, ofertando-nos uma vasta imensidão de produtos fúteis com status de superprodução. Até parece que não existem 182 países no mundo e que no Império do Norte existem seres humanos e nos assim caracterizando os demais países como uma sub-raça. Olha, o neonazismo cada vez é mais forte, só que agora não é mais racial é ‘statal’.

Mais um setor burocrático e sem função

Aproveitando o trocadilho fonético, cito trecho do blog do R7, assinado por Daniel Castro, que dá a fatídica nota sobre nossa única ex-TV-estatal: ‘…Pois a gestão de Sayad já iniciou o desmonte dessas duas fontes de recursos. Até o ano que vem, a TV Cultura não terá mais nenhuma publicidade comercial em seus intervalos nem produzirá mais programação para órgãos públicos (a publicidade institucional, irrisória, será mantida). Dessa forma, reduzirá uma boa parte do seu número de funcionários.’

Ex-secretário de Cultura do Estado de São Paulo, João Sayad assumiu a presidência da TV Cultura em junho com a missão de reduzir a TV pública paulista a uma simples TV estatal. Com o aval do ex-governador José Serra e do atual governador, Alberto Goldman. Sayad pretende reduzir ao máximo a produção de programas e cortar o número de funcionários em quase 80%, dos atuais 1.800 para 400.

Vladimir Herzog deve estar se remoendo no túmulo. Vladimir tornou-se famoso pelas consequências que teve de assumir devido a suas conexões com a luta democrática comunista contra a ditadura militar fascista autodenominada movimento de resistência contra o regime do Brasil, e também pela sua ligação com o Partido Comunista Brasileiro. Sua morte, por assassinato, causou impacto na ditadura militar brasileira e na sociedade da época, marcando o início de um processo pela democratização do país. Hoje, estaria com seus dias contados, só que desta vez por ameaça de demissão.

Sendo o plano executado, a TV Cultura sobreviverá apenas dos R$ 70 milhões que o governo do estado aporta diretamente todos os anos, além de outros R$ 50 milhões que ela recebe pela produção de conteúdo para as secretarias estadual e municipal de Educação. Emissora produtora de tanto clássicos da história da TV Brasileira e somente possíveis por seu perfil não comercial, deixará de existir e passará a ser mais um setor burocrático e sem função dentre as instituições públicas brasileiras.

Programas infantis educativos

Tantos programas, como o Metrópolis, deixarão de existir. Um aparte, esse responsável por tornar-me conhecedor e posteriormente fã de Zeca Baleiro. Como de costume, esse e outros programas na história da emissora, usa de artistas ‘não-estrelares’, e revelando muitos para a posteridade.

Fundada em 1958 pelos Diários Associados, recebe do governo a concessão do canal 2 de São Paulo. No dia 20 de setembro de 1960, entra no ar a TV Cultura dos Diários Associados com o slogan ‘um verdadeiro presente de cultura para o povo’ e como logotipo C2 Cultura e um indiozinho desenhado no centro. Os técnicos e os atores eram da TV Tupi e além disso sua antena, no alto do Banespa (Edifício Altino Arantes), também era a antiga antena da TV Tupi, pois a TV Tupi já transmitia com nova antena no Sumaré. Os Diários Associados colocou o canal 2.

Só que mais despesas se acumularam com a mudança para a nova sede devido ao incêndio provocado por um curto circuito, em 28 de abril de 1965. O incêndio de 28 de abril de 1965 desta forma colaborou para a venda da TV Cultura. Assis Chateaubriand decide então vender a TV Cultura para o governo do estado de São Paulo em suas novas instalações na Água Branca.

A TV Cultura é reconhecida internacionalmente por sua qualidade na produção de produtos para o público infanto-juvenil. Uma de suas primeiras investidas no setor foi em co-produção com a TV Globo: uniram-se ao Sesame Workshop para produzir uma versão brasileira do norte-americano Sesame Street, chamada Vila Sésamo (1972 a 1977). Logo, a TV Cultura passou a ser especialista em programas infantis educativos, como Bambalalão, que foi laureado em vários anos com o prêmio APCA de Melhor Infantil, Rá-Tim-Bum, que também recebeu o prêmio da APCA além da medalha de ouro no Festival de Nova York, Castelo Rá-Tim-Bum, programa infantil de maior sucesso da TV Cultura, que rendeu shows de suas personagens, revistas, jogos e um longa-metragem: Castelo Rá-Tim-Bum, o Filme; Catavento, que ganhou o prêmio Japão NHK, e Cocoricó, programa infantil que usa bonecos como personagens, e é também é um dos maiores sucessos da emissora.

Agências do BESC com bandeira do BB

Se já não bastara em outras áreas a única TV não comercialóide do país também se sobressaiu. O sucesso Confissões de Adolescente, de narrativa ágil, uma marcante fotografia, interpretações e direção de peso. O primeiro ano da série foi exibido pela TV Cultura (a partir de 22 de agosto de 1994). Logo no 2º ano, a partir de 1 de junho de 1996, foi exibido pela TV Bandeirantes, constando com 19 episódios inéditos. No ano de 1997 voltou a ser exibida pela Cultura, reapresentando o que fora transmitido pela Bandeirantes. A partir de 2001, a série foi reprisada no canal Multishow (Net/Sky).

Esta série, ao seu término, foi indicada a um Emmy Award como melhor série internacional. Foram produzidos 23 episódios, exibidos no Brasil, Israel, Finlândia, Grécia, França, Portugal e Nova Zelândia. A peça teatral de Maria Mariana foi escrita a partir de seus diários, e além da série, rendeu também um livro-áudio e um filme. A peça estreou no Rio de Janeiro em 8 de março de 1992 e foi seu êxito base para a série da TV.

Um dos poucos focos na mídia de massa de produtos não pasteurizado irá morrer por decisão política do atual governo paulista e conivência do governo federal. Este último, que passou anos criticando os métodos de seu arqui-rival, hoje tem práticas similares às de seu antecessor, como o tratamento cordial a bancários. E deste setor me surge uma sugestão. De mesma maneira como fez com o BESC – Banco do Estado de Santa Catarina, que após intervenção federal hoje deixou de existir e suas agências têm a bandeira do Banco o Brasil.

Talvez essa seria a salvação da TV Cultura e do projeto fracassado da TV Brasil. E assim o governo Lula faria sua primeira ação realmente útil em quase oito anos de governo.

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Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista, Florianópolis, SC

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