Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MONITOR DA IMPRENSA > ESTRATÉGIAS DE MERCADO

Investidores lucram com crise da mídia impressa

Por Arnaldo Dines, de Nova York em 30/01/2007 na edição 418

Na visão dos investidores internacionais, a equação é de uma simplicidade absoluta. Quando um conglomerado de comunicação anuncia a intenção de vender sua divisão de jornais ou revistas, as ações dessas empresas disparam nas bolsas de valores. O mais estarrecedor é que a motivação não é a possibilidade de a empresa lucrar com a venda, mas de se livrar de um peso considerado como morto ou, na melhor das hipóteses, em estado de coma.

O mais recente exemplo foi um rumor espalhado numa quinta-feira (18/1) de que a Pearson, uma das maiores empresas de mídia na Inglaterra, estaria estudando a venda do jornal Financial Times. As ações da empresa negociadas na bolsa de valores de Londres subiram 5% no dia, atingindo seu ponto mais alto nos últimos cinco anos.

A explicação para essa reação é de que enquanto o Financial Times estaria avaliado em torno de 650 milhões de libras esterlinas, a lucratividade do jornal foi de apenas 2 milhões de libras em 2005. Ou seja, um retorno anual de menos de 0,3%, e isto após quatro anos consecutivos de perdas. Como comparação, uma aplicação em caderneta de poupança na Inglaterra rende hoje em dia aproximadamente 5% ao ano.

Chamariz para acionistas

O porém da questão é que a fórmula funciona somente quando o patrimônio da empresa é diversificado e aplicado em diferentes segmentos de mídia. Se a principal fonte de renda são os jornais ou revistas, os analistas supõem que nada sobraria de significativo depois da venda no varejo.

No caso da Pearson, a empresa manteria suas divisões especializadas na distribuição de informação por televisão e internet e um segmento de educação, sua principal fonte de renda. Além disto, tem também participação majoritária no grupo The Economist, a mais notável exceção no quadro das vacas magras da mídia impressa, especialmente no setor de revistas de informação.

Já no outro lado do espectro aparece a Tribune Company, dona de jornais de primeiro escalão no mercado americano como o Los Angeles Times, Chicago Tribune, Baltimore Sun e o Newsday de Nova York, entre outros. A empresa possui também várias estações locais de televisão em cidades como Nova York, Los Angeles, Chicago e Boston.

A companhia se colocou à venda no ano passado, mas as três ofertas reveladas recentemente foram tão decepcionantes que a direção estuda agora a possibilidade de cancelar a venda. O interessante é que, entre as ofertas, uma veio da família Chandler, que antes havia vendido o Los Angeles Times à própria Tribune e que ainda detém 20% da companhia. A oferta dos Chandler conta com o apoio da News Corporation, a empresa liderada pelo onipresente Rupert Murdoch, cujo interesse específico é o Newsday. O objetivo nada secreto de Murdoch seria fundir as operações gráficas e comerciais do Newsday com as do seu tablóide, o New York Post, e com isso reduzir os custos de ambos.

As outras duas ofertas foram feitas por grupos de investidores sem experiência ou motivação jornalística. Uma propõe literalmente endividar a empresa até o pescoço para criar um dividendo especial e despertar o interesse dos acionistas, enquanto a outra cobre apenas as estações de TV. Obviamente, o mercado já previa os desdobramentos e reagiu da forma esperada: as ações da Tribune caíram 10% nos últimos três meses.

À mesa

A questão se resume a descobrir uma solução ‘jornalística’ para o dilema financeiro da mídia impressa. Se jornais e revistas oferecem baixa rentabilidade, uma saída seria oferecê-los aos que estão mais interessados em jornalismo do que em finanças. Mas quem se encaixa neste quadro? Os próprios jornalistas, por intermédio de seus sindicatos ou cooperativas, seriam uma opção.

Uma outra, por incrível que pareça, estaria nas mãos dos grandes barões de mídia. Diante do gigantismo do império de Rupert Murdoch, por exemplo, suas perdas com o New York Post (de até 30 milhões de dólares por ano, segundo se comenta) são insignificantes. Para ele, ter jornais como The Times na Inglaterra ou o próprio New York Post são um símbolo de prestígio pessoal como empresário e da relevância jornalística da sua empresa.

Tanto que acaba de comprar uma cadeia de jornais regionais na Austrália, seu país de origem, por aproximadamente 150 milhões de dólares americanos. Isto após ter comprado uma cadeia de revistas – incluindo a edição australiana da revista Vogue – por outros 150 milhões de dólares, em novembro.

A realidade é que para a News Corporation de Murdoch, com um valor patrimonial de 73 bilhões de dólares, as perdas com jornais funcionam até como atestado de boas intenções. Tanto para os investidores como para o público leitor.

Agora só falta alguém capaz de iniciar a conversa. De um lado da mesa estão os jornalistas, do outro, os barões de mídia. Talvez seja este o momento de sentarem lado a lado.

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/01/2007 Pedro Levinao

    Caro Dines,

    Muito bom seu resumo sobre a situação da mídia impressa nos Estados Unidos. Já vi alguns artigos sobre o tema, escritos por renomados jornalistas brasileiros, que ora não abordam a questão como um todo, ora cometem erros factuais grosseiros (por preguiça de pesquisar ou falta de capacidade analítica, ou os dois). Faltou apenas dizer que ainda há muitos fundos interessados em cadeias de jornais. Estas, embora tenham futuro incerto, ainda são grandes geradoras de caixa para seus controladores, o que ajuda a manter o endividamento em ordem quando outras divisões falham. A família Chandler, por exemplo anunciou ter interesse apenas nos jornais da Tribune. Outro aspecto é que os magnatas interessados em manter jornais ou comprá-los estão interessados não só no prestígio que tal situação acarreta e também no poder político que um bom (ou mau, que seja) jornal exerce. Ademais, apenas uma correção: o valor de 73 bilhões de dólares refere-se ao valor de mercado da News Corp. O valor patrimonial é o valor declarado no balanço da empresa, correspondendo ao valor físico de seus bens. Já o valor de mercado é o valor das ações da empresa negociadas em bolsa. Entram nesse cálculo as perpectivas dos analistas em relação ao futuro da empresa, e não apenas o valor auferido no presente (o patrimônio). A News Corp vale em bolsa muito mais que seu patrimônio. Já a Tribune, não.

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