Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ENTRE ASPAS > BLAIR vs BBC

Ivan Lessa

03/02/2004 na edição 262

‘Semana passada, aqui na Grã-Bretanha, o governo de Tony Blair passou por duras 48 horas.

Venceu, no Parlamento, uma batalha sobre uma controvertida política de auxílio financeiro a estudantes de faculdade, embora com uma maioria mínima, se tal é possível (cinco votos), o que é o equivalente a ganhar de gol de pênalti nos últimos instantes de uma partida de futebol.

Na quarta-feira, o relatório do juiz Brian Hutton, da Suprema Corte e membro da ala jurídica da câmara alta, destinado a apurar as circunstâncias que levaram à morte do cientista e inspetor de armas no Iraque, David Kelly, acabou exonerando o primeiro-ministro de qualquer conduta desairosa no episódio que fazia parte das complicadas manobras em torno do vazamento de um dossiê preparado pelo governo a respeito das supostas armas iraquianas de destruição em massa.

Quem levou a sobra foi a BBC, que, segundo Lorde Hutton, teve ‘conduta falha’.

Essa ‘conduta falha’ está sendo examinada com lupa por boa parte da imprensa que ficou – esta a única palavra – boquiaberta diante da conclusão de Lorde Hutton.

Não me cabe julgar os méritos do relatório, embora eu os julgue e deles discorde solene e modestamente no meu canto de free-lancer da BBC.

Mas estas armas de destruição em massa continuam atravessadas em minha garganta, para me apropriar de uma péssima metáfora.

Continuam também, para compensar e dar parceria a alguém pela minha falta de imaginação, continuam também a ser uma pedra em meu caminho, embora meça minhas palavras e tenha consciência que bem mais duro e ameaçador são os caminhos iraquianos para ocupantes e ocupados.

A semântica do caso eu acompanho com vivo interesse. Aqui na Grã-Bretanha, não importa o dossiê ou o relatório, continuam a ser armas de destruição em massa.

Aos poucos, no entanto, nos Estados Unidos, elas vêm mudando, como alguém se transformando de lobisomem em novamente homem.

Em março de 2003, George W. Bush falou em ‘armas de destruição em massa’. Ponto.

Em junho, virou ‘programas de armas de destruição em massa’.

Por volta de outubro, a coisa virou ‘programas relacionados a armas de destruição em massa’.

E, neste ano de 2004, em seu pronunciamento sobre o Estado da União, o bom Bush falou em ‘programa de atividades ligadas a armas de destruição em massa’.

Eu tacaria um Lorde Hutton lá neles, os americanos. E quando passarem a chamar de estilingue ou bodoque, me acordem.’

 

Jornal do Brasil

‘Grã-Bretanha questiona relatório’, copyright Jornal do Brasil, 30/01/01

‘Uma pesquisa divulgada ontem em Londres indica que a metade dos britânicos acha que o relatório do juiz Brian Hutton sobre a morte do especialista em armas David Kelly não foi imparcial. Segundo os números, publicados pelo jornal London Evening Standard, 49% dos britânicos acham que o documento encobriu o governo.

Em investigação sobre os motivos que levaram Kelly à morte, Hutton eximiu o primeiro-ministro Tony Blair de qualquer responsabilidade sobre o caso e criticou a BBC.

O juiz considerou ‘infundadas’ as informações da rede de comunicação britânica, que acusaram o governo de ter manipulado documentos oficiais para ‘esquentar’ as ameaças no Iraque com o objetivo de justificar a guerra.

Tais informações foram obtidas pela BBC através de um contato entre o repórter Andrew Gilligan e Kelly, que teve seu nome divulgado pelo governo e se suicidou sob a pressão da polêmica em 17 de julho do ano passado. Um dia depois da demissão do seu presidente, a rede de pública de rádio e TV perdeu ontem seu diretor-geral, Greg Dyke, e pediu ‘desculpas sem reservas’ ao governo Blair.

Ainda segundo a pesquisa do London Evening Standard, sete entre dez britânicos gostariam que fosse realizada uma investigação independente sobre as razões pelas quais o Reino Unido apoiou os EUA na invasão do Iraque.

Sobre as conclusões de Hutton, 56% dos entrevistados acham que o juiz errou ao transferir toda a responsabilidade do caso para a BBC. Para 27% deles, Blair deveria renunciar apesar de ter sido inocentado pela investigação. O afastamento do repórter Gillingan da BBC é defendido por 56% dos entrevistados.

Mas a apresentação das conclusões de Hutton não encerra a polêmica sobre as razões da entrada da Grã-Bretanha na guerra.

Os jornais britânicos, tanto de esquerda quanto de direita, foram unânimes ontem em criticar o relatório de Hutton.

‘Os jornalistas da BBC devem continuar investigando, fazendo perguntas incômodas e criando problemas’, disse o Guardian, diário de esquerda.

Por seu lado, o Daily Express, de direita, disse que ‘o silenciamento do caso pelo juiz Hutton deixa perguntas sem respostas’.

Em entrevista exclusiva à BBC Brasil, o ex-chefe dos inspetores de armas da ONU no Iraque Hans Blix afirmou que ainda acredita que Londres tenha exagerado em seu dossiê sobre o suposto arsenal de armas de Saddam Hussein.’

***

‘Relatório fortalece Blair’, copyright Jornal do Brasil, 29/01/01

‘O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, saiu ontem fortalecido da investigação sobre a morte do especialista em armas David Kelly. O documento divulgado pelo juiz Brian Hutton o eximiu de toda a responsabilidade sobre o caso, horas depois de o premier superar no Parlamento a crise mais difícil de sua carreira política.

Visivelmente aliviado, Blair ganhou desculpas da respeitada rede pública BBC por tê-lo acusado durante meses de ‘esquentar’ as provas contra o Iraque para justificar a guerra. A alegação, que causou a pior crise de Blair em seis anos de governo, foi classificada de ‘infundada’ por Hutton.

As conclusões da investigação sobre o suicídio comprovado de Kelly causaram problemas para a BBC e absolveram o governo britânico.

Ontem mesmo, o presidente da BBC, Gavyn Davies, pediu demissão numa carta enviada a Blair. Durante oito meses, a rede britânica defendeu a posição de seu repórter Andrew Gilligan, que em maio do ano passado exibiu uma reportagem afirmando que o governo britânico havia distorcido um relatório para justificar a guerra no Iraque.

Dois meses mais tarde, o especialista David Kelly foi apontado pelo governo como a suposta fonte de Gilligan. O assessor do Ministério da Defesa e ex-inspetor de armas da ONU foi encontrado morto uma semana depois.

Durante todo a crise, a BBC manteve sua posição de defesa do repórter, travando uma queda-de-braço sobretudo com o então diretor de Comunicação do governo, Alastair Campbell.

Apesar de muitos esperarem uma sentença devastadora para Blair, o juiz Hutton concluiu que o governo ‘não atuou de forma desonrosa, nem elaborou uma estratégia oculta’ para identificar Kelly como fonte da controvertida notícia.

Hutton considerou ‘infundadas’ as alegações de que o governo teria ‘esquentado’ as informações do documento relativo ao arsenal iraquiano.

Na reportagem, o jornalista da BBC acusava Downing Street de saber que as afirmações de que o Iraque podia lançar em 45 minutos um ataque com armas de destruição em massa eram falsas.

O relatório de Hutton indica que ‘não se pode descartar completamente’ que o desejo de Blair de obter um relatório convincente influísse na redação do dossiê, mas aponta que este documento nunca foi ‘maquiado’.

Agora fora da equipe de Blair, Campbell aproveitou as conclusões do juiz para voltar a criticar a BBC e pedir à imprensa mais rigor nas notícias sobre o governo.

– O primeiro-ministro, o governo e eu mesmo dissemos a verdade, mas a BBC, do presidente ao diretor-geral, não fez o mesmo – afirmou o ex-diretor de Comunicação de Downing Street.

Num pronunciamento na Câmara dos Comuns, Blair disse que agora já não resta ‘nenhuma dúvida’ de que seu governo atuou com honradez:

– A acusação de que eu ou qualquer outra pessoa ligada a esta câmara enganamos o país, ao falsificar dados de inteligência sobre as armas de destruição em massa, é por si só a verdadeira mentira.

O alívio de Blair contrastava com a decepção de seus opositores, que nos últimos meses apontavam as armas para ele, garantindo que as conclusões do relatório o obrigariam a renunciar.’

***

‘Atores da crise’, copyright Jornal do Brasil, 29/01/01

‘Divulgado o relatório do juiz Brian Hutton sobre a morte do cientista David Kelly, assim ficaram os envolvidos no caso:

Tony Blair

O premier britânico foi inocentado de responsabilidade pela morte de Kelly, já que seu governo não fez, segundo o juiz, nada ‘desonroso’.

Andrew Gilligan

O jornalista da BBC, autor da reportagem que deu início à polêmica, foi duramente criticado pelo juiz, que qualificou repetidamente suas informações de ‘infundadas’.

David Kelly

Para Hutton, o especialista em armas não fez bem em falar com Gilligan, porque não tinha autorização de seu ministério. Kelly acabou se suicidando por perda de auto-estima e pela aflição que lhe causou ver seu nome na imprensa, segundo o juiz.

Geoff Hoon

O ministro da Defesa saiu fortalecido. O juiz não o criticou diretamente e se limitou a afirmar que seu ministério agiu mal ao não advertir o cientista de que sua identidade seria confirmada a quem perguntasse por ele.

Gavyn Davies

O presidente da BBC apresentou sua demissão diante das duras críticas contra a emissora pública.

Greg Dyke

O diretor-geral da BBC é outro dos derrotados no caso. Hutton chamou de ‘defeituoso’ seu trabalho de revisão editorial, que permitiu a divulgação da notícia sobre o Iraque.’

O Estado de S. Paulo

‘Autor de reportagem polêmica da BBC se demite’, copyright O Estado de S. Paulo, 31/01/01

‘O jornalista da BBC Andrew Gilligan, autor da polêmica reportagem sobre as armas iraquianas que levou ao suicídio o cientista David Kelly, anunciou ontem sua renúncia.

Em um comunicado, Gilligan pediu desculpas pelos erros de sua reportagem de maio de 2003 e disse que havia tomado a decisão de deixar a rede por conta própria. ‘Eu amo a BBC e estou saindo para protegê-la.’ Ele acrescentou que ‘a BBC coletivamente tem sido vítima de uma grave injustiça’.

Um dia depois de renunciar como diretor-geral da BBC, Greg Dyke acusou ontem o relatório judicial, que criticou duramente a rede, de ser parcial em favor do governo do primeiro-ministro Tony Blair e contra a emissora.

Dyke previu também que as críticas feitas pelo juiz Brian Hutton podem ter repercussões negativas para todos os meios de comunicação britânicos. O executivo disse que outros funcionários da BBC ficaram surpresos pelo alcance das críticas de Hutton. O juiz disse que a rede deveria ter checado as ‘infundadas’ acusações da polêmica reportagem de Gilligan, segundo a qual o governo ‘esquentou’ informações sobre as armas iraquianas para justificar uma invasão ao Iraque.

O juiz eximiu Blair e seus funcionários de qualquer culpa na morte do cientista do governo David Kelly, que se suicidou após seu nome ter sido confirmado à imprensa como a fonte da reportagem.

‘É notável que Hutton tenha emitido julgamentos favoráveis para virtualmente todos os funcionários do governo e não os tenha emitido para ninguém da BBC’, acrescentou Dyke.

Sua renúncia ocorreu um dia depois de Gavyn Davies, presidente da junta de diretores da BBC, deixar a rede após a divulgação do relatório de Hutton na quarta-feira.

‘Lorde Hutton parece sugerir que não é suficiente para uma TV ou jornal informar simplesmente o que um informante ou alguém como o dr. Kelly disse como fonte autorizada. Você tem de demonstrar que isso é verdade’, disse Dyke, que na quarta-feira leu um pedido de desculpas da BBC.

‘Sabíamos que erros tinham sido cometidos, mas não acreditamos que só nós agimos assim.’ Dyke admitiu que ninguém ‘pode escolher o árbitro’ e teve de aceitar a decisão do juiz, mas acrescentou que ‘o governo escolheu seu árbitro’.

No entanto, a imagem do governo Blair saiu prejudicada apesar de ele ter sido favorecido pelo relatório. Segundo uma pesquisa publicada ontem pelo jornal conservador Daily Telegraph, 56% dos 2 mil entrevistados acham que o relatório somente serviu para ‘limpar’ o governo. Ainda segundo a pesquisa, 67% afirmaram sua confiança nas notícias da BBC e apenas 31%, no governo.

Outra pesquisa publicada por The Guardian (de centro-esquerda), confirmou a queda do nível de confiança em Blair – 31% dos entrevistados confiam mais na BBC e só 10%, no governo. Uma terceira sondagem, realizada entre 500 britânicos, destaca que mais da metade dos entrevistados (56%) considera errado que Hutton tenha jogado toda a culpa na BBC. (Reuters, AP, DPA e EFE)’

***

‘Juiz livra Blair e provoca renúncia na BBC’, copyright O Estado de S. Paulo, 29/01/01

‘O juiz Brian Hutton isentou ontem o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, de qualquer responsabilidade no suicídio do cientista David Kelly. Lorde Hutton criticou a atuação da rede BBC no caso, o que levou à renúncia de seu presidente, Gavyn Davies. O juiz declarou que o governo Blair não atuou de forma ‘desonrosa, abusiva, nem enganosa’ e, portanto, não deveria ser responsabilizado pelo suicídio de Kelly, que ocorreu dias após seu nome ter vazado à imprensa como a fonte de uma polêmica reportagem da BBC acusando o governo de ter ‘esquentado’ informações sobre armas iraquianas para justificar a guerra no Iraque.

O juiz Hutton, que investigou o suicídio, criticou energicamente a BBC por causa da reportagem do jornalista Andrew Gilligan. Ele disse que a reportagem era ‘infundada’ e criticou os editores da BBC por não terem verificado devidamente as informações do repórter.

A BBC anunciou a renúncia de Davies, presidente da junta de diretores, logo após a divulgação do relatório de Hutton, sem dar detalhes. A BBC pediu ontem desculpas por ‘certas afirmações’ errôneas feitas por Gilligan no programa de rádio Today no dia 29 de maio. Mas o diretor-geral da rede, Greg Dyke, destacou que durante os últimos oito meses a BBC nunca acusou Blair de mentir.

Antes de a BBC pedir desculpas, Alastair Campbell, ex-diretor de Comunicações de Blair, considerou que a atitude da rede era ‘imperdoável’.

Hutton também absolveu Campbell das acusações – feitas por Gilligan – de ter ‘esquentado’ um relatório, de setembro de 2002, segundo o qual o Iraque podia usar armas de destruição em massa em apenas 45 minutos após a ordem.

Depois da divulgação do relatório do juiz Hutton, Blair disse ontem na Câmara dos Comuns que ‘as denúncias de que eu ou qualquer outro mentimos a esta Câmara são as verdadeiras mentiras. Eu simplesmente peço a aqueles que as formularam e aos que as repetiram ao longo dos meses que as retirem agora, plena, aberta e claramente’.

Blair, acusado de ter mentido ao juiz ao negar ter autorizado o vazamento do nome de Kelly à imprensa como fonte da reportagem, poderia ser forçado a renunciar se Hutton concluísse que ele realmente havia mentido.

O juiz considerou que o governo não utilizou uma ‘estratégia oculta’ para divulgar o nome do cientista. O Ministério da Defesa não deu diretamente o nome de Kelly à imprensa, afirmou Hutton, explicando que ele havia decidido confirmar o nome à imprensa com base na idéia de que ‘sua identidade não poderia continuar eternamente em segredo’.

Segundo o juiz, o serviço de imprensa do ministério somente se baseou em uma nota autorizando-o a confirmar o nome de Kelly caso ele fosse mencionado pelos próprios jornalistas. Hutton destacou que Blair esteve diretamente implicado nas discussões que levaram à confirmação da identidade do cientista e criticou o Ministério da Defesa por não ter advertido Kelly de que iria confirmar seu nome e não lhe ter dado ajuda.

O juiz concordou com um especialista que a perda de auto-estima, o sentimento de abandono e o desespero contribuíram para o suicídio de Kelly.

Ele também concluiu que o cientista agiu de forma inapropriada ao encontrar-se privadamente com Gilligan, quebrando regras que proíbem funcionários do governo de manter contatos com a mídia sem a autorização de superiores.

A BBC não anunciou ainda nenhuma medida contra Gilligan, mas a União Nacional de Jornalistas, que representa o repórter, disse que a rede pode enfrentar uma greve se ele for punido ou demitido. A entidade classificou o relatório de Hutton de ‘seletivo, parcial e uma séria ameaça ao futuro do jornalismo investigativo’. (Reuters, AP e France Presse)’

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‘Líder obtém duas vitórias em 24 horas’, copyright O Estado de S. Paulo, 29/01/01

‘O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, superou ontem o segundo obstáculo de sua semana mais difícil desde que chegou ao poder, em 1997, após o juiz Brian Hutton eximi-lo de culpa no suicídio do cientista David Kelly.

Blair também livrou-se na terça-feira de ter de enfrentar uma moção de confiança no Parlamento ao superar dramaticamente uma revolta de trabalhistas, mas parece que não terá um caminho fácil à reeleição em 2005.

‘Esta é apenas uma vitória limitada. O jogo ainda deve começar’, disse Anthony Seldon, biógrafo de Blair.

O juiz Hutton disse em seu relatório que estava satisfeito com o fato de que não houve uma estratégia entre os funcionários de Blair para expor o cientista como fonte de uma polêmica reportagem.

A ira de Hutton voltou-se contra a BBC, famosa mundialmente por seu serviço informativo e sua credibilidade. Ele criticou a rede por não ter averiguado as informações ‘infundadas’ de seu repórter.

Na terça-feira, Blair evitou uma derrota no Parlamento pela estreita margem de cinco votos. Dissidentes de seu Partido Trabalhista haviam prometido rejeitar um projeto de lei autorizando o aumento nas mensalidades das universidades. Eles alegavam que o aumento traía uma promessa eleitoral do partido e seus valores sociais.

Blair, que chegou ao poder prometendo que as coisas iam melhorar, pode agora vangloriar-se de ter sobrevivido aos piores ataques recebidos em seis anos, ainda que com grande desgaste político. Analistas britânicos dizem que Blair saiu enfraquecido do episódio do projeto de lei por este ter sido aprovado com uma margem tão estreita.

Desde que o político centrista foi eleito com grande maioria, tem visto diminuir sua autoridade e os índices de confiança em sua administração.

Enfrentando intranqüilidade em seu partido e no país, Blair deve iniciar agora um trabalho agressivo para recuperar o apoio da população antes das eleições gerais de 2005.

A maioria dos britânicos continua cética diante da decisão de Blair de ir à guerra, já que os inspetores ainda não conseguiram encontrar armas de destruição em massa no Iraque – usadas como justificativa para a invasão liderada pelos EUA.

‘Ele ganhou a batalha, mas a guerra ainda não terminou’, disse o professor de ciência política John Curtice.

The Sun – Blair defendeu ontem a abertura de uma investigação sobre o vazamento para o jornal The Sun do relatório do juiz Hutton. O jornal publicou ontem várias partes do relatório que eximiu Blair de culpa no caso Kelly, horas antes de sua divulgação. ‘O primeiro-ministro está muito aborrecido pelo vazamento’, disse um porta-voz do governo.

O juiz Hutton disse ontem que está considerando tomar uma ação legal contra The Sun pelo vazamento. (Reuters e DPA)’

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‘Rede britânica é a mais criticada’, copyright O Estado de S. Paulo, 29/01/01

‘O juiz Brian Hutton concluiu que o cientista David Kelly tirou a própria vida e nenhum dos envolvidos no caso poderia prever que isso ocorreria.

Concluiu que o governo do primeiro-ministro Tony Blair não divulgou propositalmente o nome de Kelly à imprensa como fonte da polêmica reportagem.

Criticou a rede BBC por não ter checado as acusações do repórter Andrew Gilligan contra o governo, que ele qualificou de ‘infundadas’.

Livrou Alastair Campbell, ex-diretor de Comunicações de Blair, da acusação de ter ‘esquentado’ um relatório sobre as armas iraquianas.

Condenou o Ministério da Defesa por não ter advertido Kelly de que seu nome seria confirmado à imprensa e por não tê-lo ajudado.

Criticou Kelly por ter-se encontrado com Gilligan sem autorização de superiores. (Reuters e AP)’

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‘Caso Kelly provoca segunda renúncia na BBC’, copyright O Estado de S. Paulo, 30/01/01

‘O diretor-geral da BBC, Greg Dyke, pediu demissão ontem, um dia após o juiz Brian Hutton criticar duramente a rede pela polêmica reportagem sobre as armas de destruição em massa do Iraque que levou ao suicídio do cientista David Kelly.

Uma hora depois, o presidente interino da BBC, Richard Ryder, apresentou ‘desculpas, sem reservas’ da rede pública ao governo ‘pelos erros cometidos durante o caso Kelly’. O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, manifestou sua satisfação, dizendo que ‘as desculpas da BBC nos permitem encerrar o debate e passar para outros temas’. O governo exigira um pedido de desculpas.

Na quarta-feira, Gavyn Davies, presidente da rede, renunciou horas após a divulgação do relatório de Hutton criticando a direção da BBC por não ter checado as informações – que o juiz qualificou de ‘infundadas’ – da reportagem do jornalista Andrew Gilligan acusando o governo de ter ‘esquentado’ os dados sobre armas de destruição em massa iraquianas para justificar a guerra no Iraque.

O cientista suicidou-se após seu nome ser apontado como sendo a fonte da reportagem. O juiz Hutton eximiu Blair de qualquer responsabilidade no suicídio de Kelly, alegando que o governo não atuou de forma enganosa ao confirmar seu nome à imprensa.

‘Espero que agora se possa passar uma borracha sobre todo este episódio’, disse Dyke fora do edifício-sede da BBC, cercado por funcionários da rede que se manifestaram contra sua renúncia. ‘Creio que minha saída é muito importante para preservar a independência editorial da BBC’, disse. A BBC, que funciona com fundos públicos, atravessa a crise mais grave de seus 82 anos de existência. Mas Blair também enfrentou a pior crise em seus 6 anos de governo. Ele poderia ser forçado à renúncia se se confirmasse que mentiu ao negar ter autorizado o vazamento do nome de Kelly.

Richard Dearlove, chefe do serviço secreto (MI6), será intimado a depor em uma nova investigação parlamentar que examinará a precisão do relatório sobre as armas de Saddam Hussein. (Reuters, AP e AFP)’

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‘Maioria dos jornais critica o trabalho do juiz’, copyright O Estado de S. Paulo, 30/01/01

‘A conclusão oficial do caso Kelly não encerrou a polêmica sobre as razões da entrada da Grã-Bretanha na guerra contra o Iraque, e ontem foram feitas duras críticas ao relatório do juiz Brian Hutton, acusado de ter ‘vergonhosamente’ beneficiado o governo do primeiro-ministro Tony Blair.

Esta é também a opinião de muitos britânicos. Segundo pesquisa publicada pelo jornal Evening Standard, 56% dos entrevistados acham injusto que a BBC tenha recebido a maior parte da culpa, enquanto 49% consideram que o relatório era um acobertamento.

Tanto de direita quanto de esquerda, os jornais britânicos foram quase unânimes em criticar o relatório de Hutton, acusando-o de ter ‘abafado o caso em benefício do establishment’.

‘Os jornalistas da BBC devem continuar investigando, fazendo perguntas indiscretas e criando problemas’, destacou The Guardian (centro-esquerda).

Por sua vez, o Daily Express (direita) destacou que o ‘silenciamento do caso pelo juiz Hutton deixa perguntas sem respostas’.

‘O que aconteceu com o relatório do governo sobre o arsenal iraquiano que dizia que Saddam Hussein poderia usar suas armas químicas ou biológicas em 45 minutos? Onde estão essas armas de destruição em massa que nunca apareceram?’, são algumas das questões não respondidas feitas pelo Daily Express.

Para o tablóide The Mirror (trabalhista), Hutton prestou um desserviço à população. Já The Times e Daily Telegraph, ambos de centro-direita, apoiaram as conclusões de Hutton e pediram a saída do diretor-geral da BBC, Greg Dyke. (AFP e Reuters)’

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