Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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MONITOR DA IMPRENSA >

Jornal deu cartaz ao próprio equívoco

Por Francisco Julio Xavier em 25/07/2016 na edição 913

A Folha deu cartaz a uma fraude. Na atual conjuntura do país as manchetes mostraram, mais uma vez, de que lado ela está, que embora relute com a realidade dos fatos, não estaria sendo fiel a realidade. Na última semana foi notória sua tamanha desfaçatez de manipular os dados de uma pesquisa em que avaliaria a opinião dos brasileiros sobre o governo do presidente interino, Michel Temer, e da possibilidade de novas eleições antes do pleito direto de 2018.


Leia também:

Paula Cesarino Costa, a ombudsman da Folha, critica a redação;

Pesquisa Datafolha, fraude informativa ou erro de avaliação?


 

É lamentável notarmos um meio de comunicação que está a favor da mentira, da artimanha, da leviandade, da simples má fé. A Teoria do Espelho não seria posta em prática pela Folha de S.Paulo, nem muito menos, pelo que parece, teria espelho colossal na redação para ver o erro refletido – que falem os assessores.

Não bastar errar, continuar sem reconhecer o erro é uma cartada ainda mais fraudulenta.  Quando não se admite o erro, fica mais uma vez comprovada a má fé colocada na apuração dos fatos, nesse caso, a compilação dos dados da pesquisa divulgada na semana passada, elaborada pelo Instituto Datafolha.

Na quarta-feira, dia 20, o então jornal refez matéria abordando a reportagem, após ter sido contestada pelo The Intercept, site independente de notícias, do jornalista Glenn Greenwald, e o Tijolaço, do também jornalista Fernando Brito, sobre a veracidade dos dados apresentados na pesquisa, na qual apontou falha ao afirmar que apenas 3% da população ouvida pelo Instituto era a favor de eleições antecipadas.

Existe fraude

Os dados manipulados pela Folha de S.Paulo deixa claro que ouve um favorecimento descarado ao governo Interino, em que números fraudados alegavam que 50% dos ouvidos pelo Datafolha queriam que Michel Temer continuasse no comando do país, até o fim do mandato de direito da presidente afastada, Dilma Rousseff.

O que há de estranho nesse caso é a omissão das perguntas feitas aos entrevistados. Sabemos no jornalismo que para se ter uma resposta de um entrevistado, a forma como se pergunta e, de quais alternativas devem ser dadas como parte da resposta, podem interferir deliberadamente na tal e, nesses casos, pode se ter uma satisfatória resposta. Não é um truque racionalmente jornalístico cometido pelo Datafolha – tendo em vista que foi o questionário de pesquisa – mas sem dúvidas que essa construção serviu para a cartada final dos redatores da Folha, no contorno fraudulento na matéria divulgada no último dia 17.

Uma nova posição veio concretizar o erro da folha no artigo deste domingo da ombudsman do veículo, Paula Cesarino Costa, com o título: “A Folha errou e persistiu no erro.” Em suas palavras, ela afirma que “é preciso reconhecer que a semana que passou foi amarga para o Datafolha e para a Folha”.

No mesmo artigo é afirmado que já existem críticas relacionadas a esse trabalho conjunto da Datafolha com a redação do jornal Folha de S.Paulo, que vêm trabalhando conjuntamente há vários anos.

Era de se estranhar que, mesmo havendo mudanças radicais no país, nenhum instituto tenha divulgado pesquisa com a opinião dos brasileiros sobre o processo de impeachment e avaliação do governo interino. Ao ser feita – exatamente três meses após o pedido de impeachment ter sido aceito pela Câmara dos Deputados – logo se vê um favorecimento ao governo — encarado por boa parte da população e por deputados dos EUA como ilegítimo e preocupante para a Democracia no país (leia a carta assinada por parlamentares aqui). Isso deixar explícito a falta de coerência e imparcialidade da imprensa brasileira, que por meio de diversas matérias de importantes veículos internacionais, colocam a grande mídia brasileira (Folha, Globo e Estadão) como articuladores e participantes ativos de um golpe – chamado branco – em curso no Brasil.

Em pesquisa anterior, publicada no dia 25 e abril, o cenário era totalmente contraditório com o que foi mostrado pela última avaliação. Seria como se tudo tivesse mudado como um passe mágica de lá para cá. A avaliação positiva de Temer de 8%, na primeira, e de 50% agora, não condiz com a realidade tendo em vista tantas medidas impopulares adotadas pelo vice-presidente, além da pesquisa ainda revelar que, nas intenções de voto para 2018, o interino Michel Temer não aparece como o mais indicado, com menos de 5% das intenções, destacando como favorito o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Aponta ainda a pesquisa que um terço dos ouvidos pelo instituto desconhecem o próprio nome do presidente em exercício.

O que não dará para levar em consideração são as palavras do editor-executivo do jornal, Sérgio Dávila, que colocou não parecer “especialmente noticiosa” a questão da dupla renúncia de Dilma e Temer. Essa afirmação é um descalabro sem tamanho. A falta de senso, que visou apenas a apagar o fogo das denúncias de fraude – numa tentativa ridícula de controlar uma crise de imagem – coloca em xeque duplamente a imagem das instituições Datafolha e Folha de S.Paulo. Admitir o erro e consertá-lo é o melhor caminho, em vez de simplesmente negá-lo. A negativa constrange a inteligência dos próprios leitores do jornal com a maior tiragem do país.

O que virá pela frente serão sempre dúvidas sobre as pesquisas, ou pelo menos – melhor dizendo – o que se terá são certezas de que existem, sim, as manipulações e fraudes e que o discurso de que teorias da conspiração não existem é uma profunda insanidade daqueles que reverberam a mentira.

***

Francisco Julio Xavier é jornalista, pós-graduando em Comunicação Digital e aluno de mestrado em Filosofia

 

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