Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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MONITOR DA IMPRENSA >

Jornalão reconhece, mas não convence

Por Edição de Leticia Nunes (com Dennis Barbosa) em 01/06/2004 na edição 279

O New York Times publicou, na quarta-feira, 26/5, uma nota dos editores em que admite que diversas de suas matérias exageraram a ameaça que o Iraque de Saddam Hussein representava no que se refere a armas de destruição em massa. A nota não citou, contudo, os nomes dos repórteres responsáveis por esses textos. Das seis reportagens citadas como mais infelizes, no entanto, duas são de autoria exclusiva e duas são de co-autoria de Judith Miller, experiente repórter internacional que, em 2001, faturou com seus colegas do Times um prêmio Pulitzer pela cobertura da al-Qaeda e do Afeganistão. Quase todo material em questão foi publicado na época em que o editor-executivo do jornal era Howell Raines, que saiu do cargo por causa do escândalo envolvendo o cascateiro Jayson Blair.

A situação no Times é crítica, pois o diário ainda está tentado se recuperar da crise deflagrada por Blair. O atual editor-executivo, Bill Keller, disse em entrevista que segurou o problema da cobertura do Iraque para evitar outro episódio público de ‘auto-flagelação e introspecção’. Mas as crescentes críticas ao trabalho de Judith acabaram forçando-o a publicar o comunicado.

Intitulado ‘O Times e o Iraque’, o texto afirma que, fazendo uma retrospectiva das centenas de matérias publicadas sobre o Iraque desde o início dos preparativos para sua invasão pelos EUA, foi encontrado ‘uma quantidade de ocasiões em que a cobertura não foi tão rigorosa quanto deveria ter sido’. ‘Olhando para trás, desejamos que tivéssemos sido mais agressivos em reexaminar as alegações quando surgiram novas evidências – ou quando estas não surgiram’. Os artigos ‘pouco rigorosos’ têm em comum o uso, como fontes, de exilados e outros interessados na queda de Saddam Hussein. A mais famosa destas fontes é Ahmed Chalabi, que tem dado declarações ao Times desde a Guerra do Golfo. O Times em nenhum momento afirma ter sido ludibriado pela administração Bush, que, segundo a nota, também teria ‘caído’ nos relatos imprecisos de informantes iraquianos.

Sujeira embaixo do tapete

A extensa retratação não foi bem vista por muita gente. O próprio Howell Raines não gostou do texto. ‘Achei esta nota tão vaga e incompleta quanto outras que a precederam ‘, escreveu em e-mail ao Instituto Poynter. Publicações que reproduzem conteúdo do Times também não gostaram do mea-culpa do jornalão. Editores ouvidos pela Editor & Publisher [26/5/04] acharam que colocar o texto na página A10 sem chamada de capa pareceu uma tentativa de fazê-lo passar despercebido. ‘Publicamos duas das matérias do Iraque em questão na primeira página e temos publicado muito material do New York Times‘, contou Doug Clifton, editor do Plain Dealer, de Cleveland. Ele reproduziu o a nota do editores na página 2, ou seja, com mais destaque que o próprio Times. ‘Não queríamos ser acusados de estar empurrando a sujeira para debaixo do tapete’.

Segundo o Wall Street Journal [27/5/04], Keller resolveu fazer um editorial sobre a cobertura das armas de destruição em massa do Iraque pelo Times em abril, quando o ombudsman do diário, Daniel Okrent, avisou que iria escrever sobre isso em sua coluna. O cargo de ‘editor público’ de Okrent foi criado em dezembro do ano passado, após o caso de Jayson Blair.

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