Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MONITOR DA IMPRENSA > GLOBO REPÓRTER

‘Jornalismo literário’ na TV?

Por Lilian Reichert Coelho em 05/10/2010 na edição 610

Resisti quanto pude, mas cá me apresento, novamente, para lastimar os produtos que a Rede Globo de Televisão exibe ao se arvorar pela Amazônia. Ao que parece, repórteres e editores olham, mas são incapazes de ver esses outros, o ribeirinho, a mulher escalpelada, os extratores de açaí, os condutores de barcos, capazes de fasciná-los apenas superficialmente, arraigados como estão na segurança das próprias formulações conceituais. Prefiro crer que a orientação pelos clichês, típica das generalizações banalizadoras e da opção pelo caminho mais fácil, indica apenas desconhecimento sobre a região e seus habitantes, e não truque intencional.

O mais impressionante é que, dia desses, ouvi uma colega jornalista defender com avidez a ideia segunda a qual esse tipo de abordagem é ‘puro jornalismo literário na TV’. Com indignação, fiquei a pensar sobre isso até deparar com a edição do Globo Repórter de sexta-feira (1/10). Honestamente, nada mais fake do que, às vésperas de importantes eleições, apresentar ao público brasileiro reportagem tão vazia e alienante sobre a Amazônia, como a dizer aos espectadores que o Brasil é mesmo o que apresentam os marqueteiros e os debates eleitorais: uma rica diversidade humana e geográfica, plena de belezas e riquezas naturais, cujos problemas são nada face à criatividade das humildes gentes.

Na mencionada edição do programa, a emissora nivelou-se ainda mais baixo ao enfrentar esse ‘lá’ amazônico, ao posicionar equipes in loco sem, no entanto, mais uma vez, conseguir acessar esse outro topos para além do imaginário comum sobre a Amazônia, seus rios e sua gente, preferindo a reprodução da ideia surrada de lugar mítico, quase místico. Qualificações dessa ordem foram utilizadas em profusão na reportagem da experiente repórter Cristina Serra: ‘império das águas’, ‘imenso espelho da vida’, ‘paraíso intocável’, ‘segredo das águas’ e outras mais, todas com evidente pretensão poética, absolutamente dispensável.

Frases descontextualizadas

Imagino que, no malfadado intuito de conferir certo traço ‘literário’ à reportagem, o texto verbal derramou trocadilhos deploráveis, rimas pobres e fáceis, adjetivos a dar e vender, empregados sem qualquer critério, além da inevitável e sempre repetida exploração gratuita e superficial de vidas que a emissora não se digna, de fato, a conhecer. Pode-se apontar também a narração, que mais parecia irritante leitura, feita ao modo teatralizado (no pior dos sentidos) da contação artificialmente empolgada de histórias sobre outro(s) mundo(s). O excesso de interjeições e outras expressões de espanto e falsa surpresa da repórter permearam os offs: ‘Como são férteis os rios da floresta!’, exclamou. Além de incontáveis ‘ahs!’ de mal encenada espontaneidade. Tudo isso para ser fiel a certa característica terrível – possivelmente popularizada por Glória Maria nas reportagens para o Fantástico e hoje praticada quase como regra: de deixar a criticada objetividade de lado, em favor da manifestação explícita da subjetividade do/a repórter. Se não soasse tão falso, se a subjetividade dos jornalistas se debruçasse honestamente sobre a realidade e se não fosse recurso utilizado de modo tão banal, sem coerência e sem preterir a informação e/ou a interpretação da realidade, poderia até funcionar, mas não é o que a prática corrente da TV aberta demonstra.

No caso da reportagem sob foco, talvez o cúmulo do uso forçado e sem sentido do referido mecanismo tenha sido a esdrúxula e terna afirmação: ‘É mesmo um mar de lembranças que vamos guardar do Negro, um rio inundando corações.’ Se isto puder ser seriamente considerado ‘jornalismo literário’, deveríamos rasgar, em praça pública, os livros de Tom Wolfe, Fernando Morais, Joseph Mitchell e tantos outros. Para quê tanto afinco, tanta pesquisa, tanto esforço na procura e na construção de personagens, na contextualização, se qualquer figura de linguagem mal construída for colocada no mesmo patamar? Basta mostrar rapidamente uma mãe ribeirinha zelosa e dizer, de modo o mais descontextualizado possível: ‘O desafio das águas traz à tona a força e o espírito valente dos ribeirinhos!’

Venda de crianças para prostituição

O próprio povo da região amazônica, assim como de outras regiões que despertam a curiosidade do Brasil de mentalidade classe-média-urbana-metida-a-rica, já se tornou personagem profissional desse tipo de jornalismo. O melhor marqueteiro de propaganda político-eleitoral não conseguiria extrair das pessoas simples tamanha espontaneidade publicitária. Só posso imaginar que já devem ter se acostumado a esse tipo de abordagem, tal o esforço por reiterá-la.

Às vezes, penso que a encenação constitui canalhice subversiva, que se riem dos jornalistas e das emissoras por detrás. Parecem atores e atrizes que sabem muito bem escolher as palavras para exibir-se em rede nacional, como ocorre em qualquer lugar turístico do Brasil. Os sorrisos são abertos facilmente à mera presença das câmeras de TV e o discurso publicitário fake está na ponta da língua de qualquer pessoa comum que se enquadre nas personagens-padrão: a mãe ribeirinha, a vendedora de feira, a extrativista que mora ‘no paraíso’, o condutor de gente ‘por uma das aventuras mais emocionantes da floresta, a travessia na estrada de maior movimento nesse pedaço do Brasil, o rio que nunca seca.’ O condutor Raimundo Nonato sabe muito bem vender a imagem desgastada de paraíso das águas: ‘Para mim, o rio é como se fosse uma estrada. Quando vocês saem para fazer uma reportagem em tal lugar, vocês têm tantos quilômetros. Eu aqui tenho tantas extensões de água. Eu acho isso aqui uma coisa fabulosa, uma coisa muito bonita.’

Pelo visto, esses outros espetacularizados já conhecem seu papel de cor e o desempenham a contento, para saciar a curiosidade momentânea, dispersa e falsamente interessada da emissora e de seus prováveis telespectadores. A impressão que dá é que emissoras e telespectadores são todos tão turistas no próprio país quanto o casal (ele, paulistano, ela, japonesa) de forasteiros entrevistado no barco de Nonato.

Vale salientar que até a mais terrível das condições é explorada positivamente, sem senso crítico algum, com preocupação social também fake: crianças miseráveis, pedintes; mulheres que se arriscam para vender produtos aos passageiros do barco; outras, escalpeladas por descuido de condutores, tudo isso é mostrado de acordo com o modelo mais alienante possível. A repórter surpreende-se com a jovem que sobe rapidamente ao barco, escorada, para tentar vender algo a qualquer dinheiro, sem problematizar a necessidade por que passam as pessoas que, sem instrução ou alternativas de sobrevivência, arriscam suas vidas e a de crianças. Ao invés de se sobressaltar com o bom trabalho do prático nos navios, por que não abordar, de modo mais aprofundado, a venda de crianças para prostituição nas embarcações pelos próprios pais, a falta de condições básicas, questões ambientais, possibilidades (já realizadas ou não) de efetiva mudança no cenário regional? Isso, sim, seria algo próximo da prática do ‘jornalismo literário’ na TV. Mas não, a emissora prefere os ‘ahs!’ e ‘ohs’! de enfado mal disfarçado de surpresa.

Um novo e bobo programa de humor

Outro fator questionável na reportagem sob leitura é a trilha sonora. Em geral, os editores da Rede Globo são eficientes na produção audiovisual, inserindo trilhas que se coadunam perfeitamente às imagens e aos efeitos de sentido que pretendem criar. Desta vez, no entanto, até a trilha foi mal selecionada, despertando a atenção para o imbricamento mal ajambrado entre verbo, imagem e som, que deve confluir e passar despercebido à recepção. Se tivessem optado pelos clichês usuais, teriam sido mais bem sucedidos. O olhar exógeno explicitou-se desde o início da reportagem pela trilha e se repetiu, ao final, com uma voz infantil que cantava, em francês: ‘Il faut sauver l´Amazonie’. Outra gafe foi utilizar a canção Come as you are, da banda Nirvana, como trilha para cenas de aventura e diversão dos que praticam esqui aquático no rio. Risível, não fosse ridículo! Até a trilha instrumental, ao ser agregada às imagens, deixou muito a desejar, não coincidindo nem no ritmo, nem no significado criado por uma e outras.

Em suma, reportagens deste tipo enganam os telespectadores, por se negar a oferecer-lhes informações relevantes, interpretações sobre a realidade que desconhecem e que poderiam passar a conhecer, não fosse o investimento nefasto na ‘humanização’ fake e só nela. Além de mal utilizado, tal procedimento sequer emociona o/a telespectador/a, pois é demasiadamente distante e asséptico, como se esses outros fossem animais num zoológico, onde se adentra para um safári seguro e com hora para terminar: a da estreia de um novo (?) e bobo programa de humor.

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Jornalista e professora de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia

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