Terça-feira, 19 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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MONITOR DA IMPRENSA > Deslizes da linguagem

Jornalismo passivo, racismo naturalizado

Por Dairan Paul em 19/02/2019 na edição 1025

Publicado originalmente pelo objETHOS.

Manifestantes se reuniram no domingo para pedir punição ao segurança.

No último dia 15, as cenas de um estrangulamento em um mercado do Rio de Janeiro chocaram o país, quando o segurança do estabelecimento imobilizou e matou um jovem negro. Imagens gravadas mostram clientes assistindo ao acontecimento e apelando para que o funcionário soltasse o rapaz. Nas gravações, ele é visto conversando com o vigilante, até ser subitamente derrubado e morto.

Ao analisar manchetes sobre o caso, a doutora em Linguística Jana Viscardi observa certa recorrência no apagamento do agente da ação, em títulos que iniciam com “jovem morto por segurança” (como em O Globo, Época, Extra e Diário do Centro do Mundo), por exemplo. Para Viscardi, como os verbos “matar” e “morrer” partilham do mesmo particípio na sua voz passiva (“é morto/está morto”), a ênfase do primeiro é suavizada. “Você não necessariamente vai entender que essa pessoa foi assassinada, foi ‘matada’. É preciso destacar essa violência para que a gente não a normalize”.

Outras escolhas também sugerem certa espontaneidade na morte e, novamente, ocultam o agente (“morre após levar uma gravata”, “morre após receber ‘mata-leão”, “morre após levar ‘mata-leão”, “morre após ser agredido”, “morre após ser imobilizado”). Note-se, também a adoção de verbos como “imobilizar” e “agredir”. “Explicando adiante a pessoa entende, mas o impacto de você dizer que ‘segurança mata’ ou ‘assassina’ é bem diferente de dizer que a pessoa morreu”, analisa a linguista.

Catraca Livre, O Dia, Sul 21 e R7 foram alguns dos poucos veículos que, no dia do assassinato, trouxeram como manchete “segurança mata jovem”. A visibilidade do agente da ação tornou-se mais comum no sábado e domingo, quando se descobriu que Davi Moreira Amâncio já foi condenado por violência doméstica. Neste caso, o sujeito é qualificado como “segurança que matou jovem” em G1 e O Globo. Fórum utiliza o mesmo termo quando revela que Amâncio é eleitor de Jair Bolsonaro.

Vale ainda mencionar três trocas de títulos feitas por Brasil 247, Veja e IstoÉ, após receberem críticas de seus leitores. No primeiro caso, “Jovem morre após receber mata-leão de segurança em hipermercado do Rio” é alterado para “Jovem assassinado com mata-leão por segurança em hipermercado do Rio”. Semelhante à crítica de Jana Viscardi, uma leitora alerta o veículo no Twitter: “ele não ‘morreu’. Ele foi morto. Foi assassinado. Essa manchete faz parecer um acidente. Não foi”. Já Veja escreve “Homem de 19 anos é morto por segurança em supermercado Extra no Rio”, posteriormente modificando para “Garoto é imobilizado e morto por segurança de supermercado no Rio”. “Se fosse branco seria ‘jovem de 19 anos’”, comenta outro leitor. IstoÉ utiliza termos semelhantes: “Homem de 19 anos é morto por segurança em supermercado no Rio” passa a ser “Jovem é morto com ‘gravata’ por segurança em supermercado no Rio”.

Racismo e julgamento moral no jornalismo

As trocas dos títulos originais condensam a análise de Viscardi e são reveladoras dos processos que perpassam discursos sobre racismo nas práticas jornalísticas. Em primeiro lugar, pela agência vinculada a quem sofre a ação, o que suaviza e, em última instância, banaliza a violência perpetrada. As estratégias desse discurso são ainda mais comuns em crimes sexuais, com o uso de voz passiva em manchetes sobre mulheres violentadas, por exemplo. “Sem a presença explícita dos agressores, as ações podem somente ser inferidas pelos leitores a partir de informações contidas no decorrer da notícia”, concluem as pesquisadoras Isabela Cardoso e Viviane Vieira, ao estudarem títulos de notícias que abordam estupro.

Crédito: Pawel Kuczynski

Uma segunda dimensão do racismo implícito no discurso jornalístico é a sutil responsabilização de quem sofre a violência, ao nomear o jovem como “homem de 19 anos” – o que é flagrante quando sujeitos de 34 anos são chamados de “garotos” após ameaçarem o Supremo Tribunal Federal. Tal naturalização é ainda mais evidente em crimes de tráfico, quando brancos se tornam “jovens”, “empresários” ou “usuários”. À população negra, cabe um discurso normatizado e seletivo que os reduz e condena. Afinal, “ser negro não é só ter pele, coisa que joalheiro entende”, já cantava Bibi Caetano e Baco Exu do Blues.

 

Teun Van Dijk, professor da Universidade Pompeu Fabra, considera que o discurso assume importância central na dimensão cognitiva do racismo. Práticas discriminatórias têm uma base mental formada por modelos parciais de interações, enraizadas em preconceitos e ideologias. Elas nem sempre são intencionais, mas pressupõem representações compartilhadas socialmente. São, ainda, fundamentadas por um terreno moral e legal, o que naturaliza ações racistas e estabelece diferentes hierarquias entre “nós” e “eles”.

 

No jornalismo, a formulação de estereótipos e preconceitos são alguns dos marcos sociais que atravessam julgamentos tomados nas redações. Pesquisas como as de Renita Coleman inferem que, de fato, jornalistas que precisam resolver dilemas éticos tendem a se envolver menos com suas fontes quando as histórias são protagonizadas por negros, desenvolvendo, por consequência, uma argumentação moral menos complexa. Na vertente da psicologia moral trabalhada pela autora, uma das saídas é trabalhar a empatia do repórter com os sujeitos que fazem parte dos acontecimentos noticiosos. De forma prática, diversificar redações também é apostar em um jornalismo de qualidade, mesmo porque jornalistas de minorias negras e asiáticas tendem a tratar igualmente todas as raças em relação às decisões morais, como demonstra outra pesquisa de Coleman.

Soa algo paradoxal discutir o tema quando há poucos dias comemorou-se a primeira apresentadora negra na bancada do telejornal de maior audiência do país. A visibilidade de Maju Coutinho, sabemos, é apenas o primeiro passo de uma longa trajetória a ser percorrida. Como lembra Alex Hercog, do coletivo Intervozes, “negros e negras não estão apenas subrepresentados na tela da tevê. Estão, também, fora do controle acionário das empresas de comunicação, fora das diretorias, fora da construção da linha editorial, fora do seleto grupo dos que detém os meios de comunicação. E também são os negros e negras os mais excluídos do acesso à internet e até mesmo da recepção dos sinais das TVs e rádios públicas e comunitárias. São, portanto, os mais impedidos de se expressar ou de acessar outros conteúdos que não sejam produzidos pelo oligopólio comercial que controla a mídia brasileira”.

É sintomático, portanto, que nas tragédias sucessivas que acometem o início de ano do país, um caso explícito de racismo seja suavizado, naturalizado e gere menos comoção, seja nas ruas ou nas redações. Mais uma vez, é preciso reiterar que se dê nome aos bois no jornalismo – com parcimônia, quando quem é suspeito ainda é suspeito, mas com vigor, quando a violência ainda nos choca e pode estimular a empatia ao próximo.

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Dairan Paul é Doutorando em Jornalismo pelo PPGJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS.

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