Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

MEMóRIA > SAUL STEINBERG (1914-1999)

Key West, Flórida ou nas rodas do tempo

Por Aldo Buzzi em 05/09/2011 na edição 658

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 3/9/2011, tradução de Samuel Titan Jr.; intertítulo do OI

[O texto a seguir, escrito um ano antes da morte do artista romeno Saul Steinberg por seu amigo italiano e coautor de suas memórias, relembra com sensibilidade uma viagem de férias de ambos.]

Ainda na cama, no silêncio da manhã, ouço o rumor da colher de S., que está tomando seu breakfast de leite e cornflakes. A colher bate na xícara com o som de uma sineta rouca de ovelha, como se do outro lado da parede houvesse um prado montanhês, escarpado, pelo qual ovelhas dispersas pastassem de cabeça baixa. E, de tanto em tanto, a ovelha-líder ou talvez um montão delas levanta bruscamente a cabeça e a sacode enquanto mastiga, fazendo ressoar a sineta.

Comecei a escrever tarde, e é por isso que agora, apesar da idade, posso de certa maneira me considerar um escritor jovem, que ainda lê aprendendo, que ainda não se cansou de aprender. Mas também já cansado, por causa da velhice. Por anos a fio, eu me levantava rápido todas as manhãs, para ir trabalhar. Agora me levanto tarde e, depois de me lavar, barbear, pentear, depois de jogar fora os cabelos que se acumularam na pia (lá se vão eles, desaparecendo como tantos amigos), tomar o café, escovar os dentes e calçar com esforço os sapatos, tenho a impressão de já ter trabalhado o suficiente pelo dia inteiro, e sinto vontade de voltar a me deitar na cama… descansar… pelo menos até a hora de ir para a mesa. Mas depois me canso também de descansar. Os olhos sem óculos (onde os meti?) caem sobre uma manchinha escura no piso, do tamanho de um besouro, de uma cucaracha imóvel, pronta para fugir, velocíssima. Impossível, não há besouros aqui. Não vale a pena fazer o esforço de me inclinar para verificar. Se, mais tarde, quando eu voltar para cá, o besouro ainda estiver ali, terei a prova de que não era um besouro, mas uma folhinha trazida pelo vento para dentro de casa. A menos que seja um besouro velho, que caminha com dificuldade, cambaleando, apoiando-se em quatro bengalas, fazendo longas paradas para recuperar o fôlego.

Em certos momentos da manhã, o sol brilha do modo mais mágico. E se, ao mesmo tempo, o vento cai e sopra apenas um zéfiro quase imperceptível, que faz vibrar a copa das palmeiras, então se produz aqui, em Key West, no fim da Flórida, o clima do paraíso terrestre.

Paro. Por uma janelinha com persiana, um ventilador expulsa com violência o bafo quente da cozinha da Dennis Pharmacy, onde estão servindo o breakfast, um cheiro apetitoso que o nariz começa a sentir a vinte metros de distância. Paro onde o jato quente é mais forte e saboroso. É o cheiro do breakfast americano, o cheiro da América: suco de laranja, torrada, ovos mexidos, bacon, salsichas, batatas na chapa, café. Os passantes me observam com desconfiança, porque pareço imobilizado por alguma causa misteriosa, imerso em profunda meditação. Estão prontos a intervir, a me sustentar pelos braços, a perguntar se podem me ajudar.

S. chega com um envelope grande nas mãos. Fala da caligrafia do endereço, diz que é bonita, que não envelheceu. Porque, quando chega a hora, também a letra envelhece: vacila como as pernas do autor e se torna confusa como o cérebro do autor. Mas não se pode analisar completamente uma caligrafia a partir de um envelope apenas, faltam as rasuras, parte essencial. Lembro que aprendi a rasurar com o escritor Emilio Cecchi, durante a redação de um roteiro, em Roma, faz mais de cinquenta anos. Cecchi rasurava com uma série de hastes paralelas muito cerradas, que entretanto deixavam entrever o texto rasurado. Uma página com muitas rasuras parecia-se a uma água-forte de Morandi. Faz sessenta anos. Antes de começar o trabalho, Cecchi, sentado à escrivaninha, escolhia um cachimbo de sua coleção e o enchia meticulosamente, operação que tomava muito tempo e transcorria no silêncio mais absoluto. De vez em quando, através das lentes dos óculos, lançava um olhar agudo a seus jovens colaboradores. Agora consigo imaginar em que pensava, como via a nossa inexperiência, as coisas ainda por descobrir, por aprender, coisas que se descobrem e aprendem sozinho… quando branca a barba cai sob a navalha, como diz… [Virgílio, na primeira das Éclogas (N.T.)].

Em liberdade

No estúdio de Hemingway, no térreo de um pavilhão isolado no meio do jardim de sua casa, há uma mesa redonda, exibida como mesa de trabalho do Mestre, que parece alta demais para se trabalhar sentado e baixa demais para se trabalhar em pé. No meio da mesa, uma máquina de escrever, velha, alta (a máquina de escrever do Mestre), e, encostada à mesa, uma cadeira de enrolador de charuto, uma cigar-maker”s chair, na qual, diz o guia, Hemingway sentava-se para escrever à máquina durante os nove anos que morou em Key West, antes de se mudar para Cuba. Mas a cadeira é pequena e não parece capaz de abrigar o traseiro graúdo de Hemingway; de resto, escrever à máquina naquela mesa redonda e alta demais… uma ideia quase dannunziana… O jardim e também a casa estão cheios de gatos, em homenagem à memória de Hemingway, que teve sessenta deles quando morava aqui. E outros tantos, mais tarde, em Cuba, não sei se os mesmos ou novos. Quer dizer, não sei se deixou os gatos com a mulher, que ficou em Key West, ou se os levou para Cuba. No primeiro caso, os gatos que estou vendo serão os descendentes daqueles que alegraram a estada de Hemingway em Key West. Devem ser. Terminada a visita, quando estava a ponto de sair do jardim, um desses gatos, um gato tigrado normal, que é o gato que inspira mais confiança, um daqueles que costumam dormir nos cantos mais escuros da casa e só acordam na hora da comida, um desses gatos, fitando-me nos olhos, me deu a entender que, num momento mais favorável, teria contado algumas histórias interessantes sobre Ernest, de quem o seu falecido bisavô fora o favorito, o gato que de fato vivia (dormia) na cigar-maker”s chair, no lugar do Mestre.

O sol já vai caindo atrás das nuvens, já se encaminha para o ocaso. Fugit irreparabile tempus, como diz… [O mesmo poeta, no terceiro livro das Geórgicas (N.T.)]. Bebemos o último gole de cerveja, levantamo-nos da mesa com esforço, caminhamos com esforço pela areia, cambaleando rumo ao mar verde-amarelo. Cai a noite, as gaivotas vão dormir. Os cachorros abandonam a prainha, seguidos pelos donos que trazem de volta para casa as bolas de tênis com as quais os incitaram a entrar na água. Os restaurantes se apinham, acendem as velinhas nas mesas. Com o garfo, ponho de lado uma quantidade de lascas de mamão, de pimentão vermelho, de manga, de tomate e outras tantas lascas sem nome para enfim descobrir o meu peixe. O clima tropical atiça nos cozinheiros um excesso de fantasia tosca e gera pratos que recordam as monstruosas flores das palmeiras. “Eles comem papagaios por aqui”, diz S.

A ilha ergue-se poucos centímetros do nível do oceano. O cume é o terraço no quarto andar do La Concha Hotel, cuja massa branca impera, como diz Hemingway, no centro da cidade. Lá de cima, vê-se o panorama completo de Key West, imersa metade no golfo do México, metade no Atlântico: infinitos tetos de chapas de zinco pintado de branco, grandes massas de verde e dois navios de cruzeiro ancorados no porto, altos feito arranha-céus diante das casinhas térreas; e, no meio, o grande retângulo do cemitério, uma das principais atrações da cidade, povoado por sessenta mil almas. Está lotado, no vacancy. Não há enterros, porque a rocha coralina, dura demais, torna difícil a escavação, de modo que as tumbas são casinhas em miniatura, brancas de cal, e o cemitério transformou-se num bairro da cidade. Algumas ruas o atravessam de lado a lado. Ao longo das ruas que o margeiam, as casas têm, como todas em Key West, uma varanda da qual, numa cadeira de balanço, desfruta-se a vista silenciosa das tumbas, vista que não tem nada de macabro, antes infunde no ânimo de quem se balança uma pacata satisfação de viver, de desfrutar o sol, de estar em liberdade. É um cemitério, mas está lotado. Talvez aqui a morte esteja por um momento suspensa, adiada, ao menos por estas férias, e possamos ainda, como acontece na juventude, pensar que somos imortais.

***

[Aldo Buzzi (1910-2009) foi escritor, roteirista e diretor de arte (do filme Mulheres e Luzes, que marcou a estreia de Fellini, em 1950]

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